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Hipoglicemia: abordagem clínica e laboratorial para um diagnóstico preciso

Abordagem clínica da hipoglicemia

A hipoglicemia, embora amplamente reconhecida na prática clínica, é uma condição rara fora de contextos específicos, como o uso de insulina ou sulfonilureias. A presença de sintomas vagos, como sudorese, tremores e confusão mental, frequentemente leva a investigações extensas, nem sempre justificadas. Por isso, uma abordagem estruturada, que integre a avaliação clínica à laboratorial, assegura que o diagnóstico de hipoglicemia seja estabelecido de forma criteriosa.

A Tríade de Whipple permanece como o principal ponto de partida para o raciocínio diagnóstico. Após sua confirmação, é possível definir estratégias específicas para investigar as causas, como o teste de jejum prolongado ou o teste de refeição mista, especialmente nos casos de hipoglicemias reativas. Em paralelo, o recurso de exames especializados e a padronização de protocolos clínico-laboratoriais têm papel importante nesse processo.

Continue a leitura para se atualizar sobre o tema.

Por que a hipoglicemia deve ser considerada um diagnóstico diferencial?

Em indivíduos não diabéticos e fora do uso de fármacos hipoglicemiantes, a hipoglicemia verdadeira é incomum. O organismo dispõe de mecanismos contrarregulatórios eficientes que mantêm a glicemia dentro de limites seguros. No entanto, muitos pacientes são investigados sob suspeita de hipoglicemia com base em sintomas inespecíficos, o que pode levar a erros diagnósticos e exames desnecessários.

Nesse contexto, os profissionais envolvidos precisam ter condições de diferenciar quadros funcionais ou ansiosos de uma hipoglicemia autêntica, e um dos processos é considerar o diagnóstico diferencial apenas quando há forte evidência clínica, evitando abordagens laboratoriais precoces e inconsistentes.

A importância da Tríade de Whipple na confirmação do diagnóstico

A Tríade de Whipple, descrita inicialmente em 1952, permanece atual e necessária para definir a presença de hipoglicemia verdadeira. Ela é composta por três critérios:

A presença simultânea desses três elementos deve ser obrigatoriamente documentada antes de iniciar uma investigação etiológica. Isso reduz a chance de diagnósticos falso-positivos e permite um direcionamento mais eficaz dos recursos diagnósticos.

Estratégias diagnósticas para hipoglicemia em jejum

A avaliação adequada da hipoglicemia em jejum requer uma abordagem sistemática e criteriosa, que permita diferenciar suas possíveis causas. O uso de estratégias diagnósticas específicas é essencial para direcionar a investigação e garantir a condução clínica apropriada.

Jejum prolongado: quando e como conduzir

A investigação de hipoglicemia no período pós-absortivo deve incluir o teste de jejum prolongado, considerado padrão-ouro para a detecção de hiperinsulinismo endógeno. Esse teste pode ser iniciado em regime ambulatorial, mas, por segurança, deve ser finalizado sob internação hospitalar, devido à possibilidade de hipoglicemia grave.

O protocolo pode durar até 72 horas. Dados indicam que 43% dos pacientes desenvolvem sintomas em 12 horas, 67% em 24 horas, 95% em 48 horas e 100% em 72 horas de jejum. Durante o episódio hipoglicêmico, são colhidas amostras para dosagem de glicose, insulina, peptídeo C, pró-insulina e agentes hipoglicemiantes orais. Esse painel permite diferenciar causas endógenas (como insulinoma) de causas exógenas (como uso de insulina exógena).

Interpretação laboratorial: o que dosar?

No decorrer da hipoglicemia documentada em jejum, é indispensável a coleta simultânea de amostras para análise de glicose plasmática, insulina, pró-insulina, peptídeo C e pesquisa de sulfonilureias. 

A dosagem de glicose plasmática confirma a presença do quadro hipoglicêmico, enquanto os níveis de insulina e pró-insulina ajudam a identificar causas de hiperinsulinismo endógeno, como o insulinoma ou a nesidioblastose. O peptídeo C, por sua vez, permite diferenciar a secreção endógena de insulina do uso exógeno, sendo um marcador importante para excluir manipulação medicamentosa. Já a pesquisa de sulfonilureias é indicada para afastar a possibilidade de uso inadvertido ou indevido desses agentes hipoglicemiantes. 

A interpretação integrada desses parâmetros fornece subsídios valiosos para distinguir as origens endógenas e exógenas da hipoglicemia e orientar o manejo clínico adequado.

Avaliação de hipoglicemia reativa ou pós-prandial

A hipoglicemia reativa é uma condição que demanda atenção clínica específica, em particular pelo impacto na qualidade de vida e pela associação a alterações metabólicas pós-refeição. A abordagem diagnóstica deve considerar os diferentes contextos em que essa manifestação ocorre, conforme descrevemos a seguir.

Hipoglicemia após cirurgia bariátrica: o que sabemos até agora

A hipoglicemia reativa, também chamada de pós-prandial, ocorre geralmente entre uma e três horas após as refeições. Essa forma de hipoglicemia tem sido cada vez mais observada em pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos, como bypass gástrico em Y de Roux e gastrectomia vertical.

Conhecida como NIPHS (síndrome hipoglicêmica pancreatogênica não insulinoma), essa condição tem prevalência estimada entre 9% e 29% entre os bariátricos. Os principais fatores de risco incluem pacientes jovens, do sexo feminino, ausência de diabetes prévio e perda ponderal significativa no pós-operatório.

Por que o teste de refeição mista é o mais indicado?

Apesar da possibilidade de monitorização contínua de glicose, o alto custo e a baixa adesão tornam essa estratégia limitada. Por outro lado, o Teste de Tolerância Oral à Glicose (TTOG) não é indicado, pois pode induzir hipoglicemias artificiais em até 10% de indivíduos saudáveis.

O teste de refeição mista desponta como método diagnóstico mais fisiológico e sensível. Ele simula uma refeição real, com estímulo nutricional mais próximo da rotina do paciente. O Sabin oferece esse exame com uma formulação padronizada: suplemento líquido com 64% de carboidratos, 20% de proteínas e 16% de lipídeos, totalizando 450 kcal.

As coletas são realizadas em jejum, a cada 30 minutos por até cinco horas, sendo interrompidas caso ocorra hipoglicemia. São dosados glicose, insulina, peptídeo C e pró-insulina, permitindo uma avaliação detalhada do eixo insulinêmico após estímulo alimentar.

Hipoglicemia factícia e outros diagnósticos diferenciais

A investigação de hipoglicemia deve considerar causas factícias, como o uso intencional ou inadvertido de insulina exógena, uso de sulfonilureias por terceiros, ou mesmo quadros psiquiátricos, como a síndrome de Münchhausen. 

Outras etiologias relevantes devem ser consideradas no diagnóstico diferencial de hipoglicemia. A doença hepática avançada, por exemplo, pode levar à hipoglicemia em virtude da redução da gliconeogênese e da diminuição das reservas hepáticas de glicogênio. A insuficiência adrenal, sobretudo nos casos da doença de Addison, contribui para o quadro hipoglicêmico por falência na produção de cortisol, um hormônio contrarregulador importante. 

Em situações de sepse grave, a hipoglicemia pode estar associada à disfunção hepática e ao aumento do consumo celular de glicose. Além disso, tumores, como os insulinomas ou neoplasias ectópicas produtoras de IGF-II, também devem ser lembrados como possíveis causas de hipoglicemia persistente ou inexplicada.

De modo geral, o raciocínio clínico estruturado possibilita excluir hipóteses menos prováveis e guiar a investigação de forma racional.

Como o laboratório pode apoiar o raciocínio clínico?

Além de oferecer exames específicos e protocolos bem definidos, o suporte do laboratório garante segurança e precisão diagnóstica. Entre os detalhes, está a coleta, que deve ser realizada no momento dos sintomas, preferencialmente sob supervisão médica, assegurando a validade dos resultados. O correto armazenamento das amostras, principalmente para analitos sensíveis, como insulina e peptídeo C, é igualmente importante para evitar interferências pré-analíticas. 

A presença de uma equipe especializada na interpretação de exames também contribui para a precisão diagnóstica e a condução clínica segura. Com esse respaldo, é possível esclarecer a etiologia da hipoglicemia e orientar o manejo do paciente, tanto em ambiente ambulatorial quanto hospitalar.

A investigação deve seguir critérios rigorosos desde o início. A confirmação da Tríade de Whipple é o ponto de partida determinante para diferenciar hipoglicemias verdadeiras de manifestações funcionais. Somente após essa etapa é que se justifica a realização de testes mais detalhados, como o jejum prolongado ou o teste de refeição mista.

O Sabin Diagnóstico e Saúde disponibiliza exames especializados e protocolos atualizados para apoiar o diagnóstico preciso, oferecendo à prática médica ferramentas seguras e eficazes.

Continue aprofundando seus conhecimentos com a leitura do conteúdo Diabetes: avaliação laboratorial diagnóstica e seguimento.

Referências:

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