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O perigo do uso de redes sociais por adolescentes

Redes sociais e adolescentes

A presença das redes sociais na vida de adolescentes tem crescido de forma exponencial, tornando-se uma das principais fontes de entretenimento, informação e interação social. Apesar de seus benefícios, como a conectividade e o acesso a conteúdos educativos, esses ambientes digitais também podem representar sérios riscos à saúde dos jovens, especialmente quando utilizados sem o devido acompanhamento. 

Um exemplo alarmante é o caso clínico de uma adolescente de 17 anos que, ao seguir uma recomendação encontrada no TikTok, aplicou um enema com água oxigenada para tratar constipação intestinal. A prática, longe de ser segura ou eficaz, resultou em lesões severas no trato intestinal e demandou internação hospitalar. 

Esse episódio chama atenção para os perigos da desinformação nas redes sociais e evidencia a necessidade de uma supervisão familiar ativa, assim como a promoção da alfabetização digital. Pensando nisso, trouxemos alguns alertas e cuidados para auxiliar no monitoramento digital dos adolescentes. Continue a leitura para saber mais!

Como as redes sociais influenciam o comportamento dos adolescentes?

De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023, mais de 90% dos jovens entre nove e 17 anos utilizam a internet diariamente, sendo o celular o principal dispositivo de acesso. TikTok, Instagram e YouTube estão entre as plataformas mais acessadas, com grande parte do conteúdo consumido voltado a humor, desafios, dicas de saúde e estilo de vida.

O algoritmo dessas plataformas desempenha papel fundamental nesse cenário, pois entrega conteúdos com base em interações anteriores, o que cria uma espécie de “bolha de recomendações”. Muitas vezes, vídeos com conselhos perigosos ou infundados se tornam virais pela sua aparência profissional, linguagem simples ou pela promessa de resultados rápidos, fazendo com que adolescentes adotem práticas sem qualquer respaldo científico. 

A busca por pertencimento, popularidade e validação entre os pares também contribui para que os jovens repliquem comportamentos vistos on-line, mesmo que envolvam riscos.

O caso clínico que acendeu o alerta: “TikTok-olitis”

O que aconteceu?

O estudo publicado no Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition relata o caso de uma jovem de 17 anos com histórico de síndrome do intestino irritável com predomínio de constipação. Após assistir a um vídeo no TikTok que recomendava o uso de uma solução caseira para alívio do sintoma, ela administrou um enema contendo água e cerca de 60 mililitros de peróxido de hidrogênio (H2O2) a 12%.

Logo após o procedimento, a paciente começou a apresentar dor abdominal intensa e sangramento retal, sendo levada ao pronto-socorro. Exames de imagem revelaram sinais de proctocolite química (inflamação do reto e do cólon provocada por substâncias irritantes), com espessamento da parede retal e presença de ar nas veias portais e na mucosa colônica, indicando um dano químico importante no trato gastrointestinal.

Quais foram os danos à saúde?

A adolescente precisou ser internada e recebeu medicação na veia e cuidados intensivos, como jejum e hidratação. Após alguns dias, apresentou melhora, e os exames confirmaram inflamação no reto. 

A água oxigenada, apesar de ser usada como antisséptico na pele, é extremamente perigosa quando usada internamente, podendo causar ferimentos graves no intestino e até risco de complicações mais sérias.

Por que os adolescentes acreditam em “dicas de saúde” on-line?

A ilusão da autoridade digital

Nas redes sociais, a estética de um vídeo, como boa edição, trilha sonora envolvente e grande número de visualizações, pode conferir ao conteúdo uma falsa credibilidade. 

Os adolescentes tendem a associar popularidade com veracidade, levando a crer que influenciadores são fontes confiáveis de informação, mesmo que não tenham nenhuma formação técnica ou científica. Esse fenômeno é conhecido como “autoridade digital ilusória” e é particularmente problemático em temas relacionados à saúde, nos quais orientações equivocadas podem ter consequências graves.

Adolescência, impulsividade e neurodesenvolvimento

Durante a adolescência, o cérebro ainda está em desenvolvimento, principalmente nas áreas responsáveis pela tomada de decisão e controle de impulsos. Ou seja, os jovens são naturalmente mais propensos a comportamentos impulsivos e a assumir riscos. 

O desejo de experimentar algo novo, aliado à influência de colegas e ao contexto emocional, torna-os vulneráveis a conteúdos que prometem soluções rápidas, mesmo que envolvam práticas absurdas ou perigosas.

Quais os riscos à saúde associados a modismos da internet?

Além do caso do enema com água oxigenada, há inúmeros exemplos de práticas arriscadas incentivadas por tendências virais. Entre eles, o caso americano do “Benadryl Challenge”, que levou adolescentes a consumirem doses excessivas de anti-histamínicos para induzir alucinações e dietas extremamente restritivas, como o consumo exclusivo de sucos detox por vários dias.

O uso não supervisionado de medicamentos, a adoção de dietas sem orientação e os desafios perigosos afetam diretamente a saúde física e mental dos jovens. A longo prazo, essas experiências podem causar impactos duradouros no desenvolvimento e no bem-estar.

O papel da família e da escola na educação digital

A importância da supervisão ativa

A participação da família é uma balizadora para o uso saudável das redes sociais. Isso não significa vigiar constantemente, mas estabelecer um ambiente de diálogo, confiança e orientação. Os pais devem se interessar pelo que os filhos consomem virtualmente, conhecer as principais tendências e influenciadores que fazem parte do cotidiano dos jovens, além de utilizar ferramentas de controle parental sempre que necessário.

Educação para a saúde e pensamento crítico

Promover a educação digital nas escolas é outro passo importante. Os adolescentes precisam ser capacitados a identificar fontes confiáveis, compreender a diferença entre opinião e evidência científica e desenvolver senso crítico diante de informações de saúde. 

Para isso, conversar com pais, familiares próximos ou até professores sobre os conteúdos vistos on-line é uma dica que pode ajudar o adolescente a discernir sobre sua veracidade. Iniciativas educativas que envolvam saúde, bem-estar digital e cidadania são pilares essenciais para formar jovens mais conscientes e protegidos.

O que os profissionais de saúde podem fazer?

Algumas especializações como médicos pediatras, psicólogos e outros profissionais que atendem adolescentes devem incluir a questão do uso das redes sociais em suas consultas. Perguntar sobre hábitos on-line, conteúdos visualizados e influências digitais pode ser imprescindível para identificar o comportamento e o bem-estar dos jovens.

Ações de educação em saúde que incluam o combate à desinformação devem ser incentivadas nos espaços clínicos e comunitários. Campanhas de conscientização e produção de conteúdos confiáveis nas próprias redes sociais são formas de equilibrar o volume de informações incorretas com orientações baseadas em evidências.

As redes sociais, embora façam parte da vida moderna, podem representar sérios riscos à saúde de adolescentes quando utilizadas sem orientação. O caso “TikTok-olitis” é emblemático e deve servir como ponto de partida para a reflexão sobre o impacto da internet na saúde dos jovens. 

Famílias, escolas e profissionais de saúde devem atuar em conjunto para garantir um ambiente digital mais seguro e saudável para essa geração. Quer entender melhor como o uso precoce de tecnologia pode afetar crianças? Leia também: celular para crianças pode prejudicar a saúde?.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

Polachek A, Flindt G, Lazar L, Barlow S. Proctocolitis or TikTok-olitis: the dangers of social media influence on home constipation management. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2025; 80: 941-942. doi:10.1002/jpn3.70027

COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL (CGI.br). Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2023: crianças. São Paulo: CETIC.br, 2023. Disponível em: https://cetic.br/pt/tics/kidsonline/2023/criancas/. 

UNITED STATES. Food and Drug Administration. FDA warns about serious problems with high doses of allergy medicine diphenhydramine (Benadryl). Silver Spring: FDA, 2020.

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