O BI-RADS® (Breast Imaging Reporting and Data System) versão 2025, oficialmente lançado durante o RSNA (Radiological Society of North America) no mesmo ano, representa um marco relevante na evolução da radiologia mamária. Após mais de uma década desde a publicação da 5ª edição, a nova versão era amplamente aguardada pela comunidade médica, especialmente por radiologistas, patologistas, cirurgiões, mastologistas e oncologistas envolvidos no diagnóstico e acompanhamento do câncer de mama. O lançamento consolida avanços técnicos, revisões conceituais e uma reorganização estrutural que reflete a prática clínica contemporânea.
Ao longo dos anos, o BI-RADS® se consolidou como a principal ferramenta de padronização da linguagem radiológica mamária, permitindo comunicação clara, objetiva e universal entre diferentes especialidades. A versão v.2025 amplia esse papel ao harmonizar léxicos entre modalidades, incorporar novas tecnologias, como a mamografia contrastada, e atualizar recomendações de manejo alinhadas aos avanços terapêuticos. A seguir, discutiremos as principais mudanças da nova versão e suas implicações diretas na prática clínica.
A importância do BI-RADS® na prática clínica
O BI-RADS® foi desenvolvido pelo American College of Radiology (ACR) na década de 1990, com o objetivo de uniformizar a interpretação e a comunicação dos achados em exames de imagem das mamas. Antes de sua implementação, descrições heterogêneas dificultavam a correlação clínica-radiológica e a definição de condutas, mesmo dentro de um mesmo serviço.
Ao longo de suas edições, o BI-RADS® evoluiu de um simples atlas descritivo para um sistema robusto de classificação, incorporando evidências científicas, auditorias de desempenho e recomendações de manejo. Atualmente, é utilizado globalmente e tornou-se obrigatório em diversos estados norte-americanos. No Brasil, embora não haja exigência legal, o sistemaé fortemente recomendado pelo Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem(CBR), sendo amplamente adotado na prática diária.
O impacto do BI-RADS® extrapolou a radiologia mamária, servindo de base conceitual para sistemas semelhantes em outras áreas, como PI-RADS (próstata), TI-RADS (tireoide) e O-RADS (ovários), reforçando sua relevância como modelo de padronização diagnóstica.
O que mudou na nova versão do BI-RADS®?
Uma das primeiras mudanças estruturais da nova edição é a transição do termo “atlas” para “manual”, o que demonstra a ampliação do escopo do documento. Além disso, o sistema de versionamento passa a ser definido pelo ano de publicação, alinhando-se ao programa mais amplo dos RADS do ACR, resultando na denominação BI-RADS® v.2025.
Outro avanço relevante é a inclusão definitiva da mamografia contrastada (CEM) como seção própria, deixando de ser um suplemento. Essa mudança reconhece a crescente relevância clínica da técnica, sobretudo em contextos de avaliação complementar e extensão da doença.
A nova edição também promove uma reorganização completa dos léxicos para mamografia, ultrassonografia, ressonância magnética e CEM, buscando consistência terminológica entre modalidades. Os relatórios passam a seguir uma estrutura ainda mais padronizada, com harmonização das seções de indicação, técnica, achados, avaliação e recomendação de manejo. O manual também incorpora seções de FAQs (Frequently Asked Questions) gerais e específicas por modalidade, além de uma versão digital interativa, facilitando a consulta rápida no dia a dia.
Entenda melhor a atualização da categoria BI-RADS® 6
Na nova edição do BI-RADS®, a categoria 6 recebeu atenção especial não por mudanças em sua definição conceitual, mas pela atualização das orientações relacionadas ao manejo clínico e ao papel da imagem no acompanhamento oncológico. As modificações refletem a evolução das estratégias terapêuticas no câncer de mama e reforçam a necessidade de alinhamento entre a radiologia e as demais especialidades envolvidas no cuidado da paciente.
Definição permanece, mas gestão clínica evolui
A definição da categoria BI-RADS® 6 permanece inalterada na 6ª edição, sendo reservada exclusivamente para lesões com diagnóstico histopatológico confirmado de malignidade. No entanto, a principal atualização está relacionada às orientações de manejo descritas no manual.
Na versão v.2025, a recomendação passa a ser explicitada como “acompanhamento clínico com cirurgião e/ou oncologista e terapia definitiva local, quando clinicamente apropriada”, substituindo a indicação anterior centrada na excisão cirúrgica. Essa mudança reflete o reconhecimento formal de abordagens terapêuticas contemporâneas, incluindo terapias neoadjuvantes e técnicas ablativas não cirúrgicas, que vêm ganhando espaço em cenários selecionados. É importante ressaltar que não há indicação de nova biópsia da lesão index classificada como BI-RADS® 6, uma vez que o diagnóstico histológico já foi estabelecido.
Implicações práticas para a conduta clínica
Na prática clínica, a categoria BI-RADS® 6 mantém seu papel como ferramenta de documentação e acompanhamento radiológico. A imagem passa a ser fundamental para avaliação da extensão da doença, monitoramento de resposta terapêutica e detecção de possíveis recidivas.
O laudo deve, sempre que possível, mencionar o tipo histológico e o método de confirmação diagnóstica, reforçando a integração entre imagem e patologia. Diferentes modalidades, como ressonância magnética, ultrassonografia, tomossíntese e mamografia contrastada, assumem papéis complementares no acompanhamento oncológico, particularmente em pacientes submetidas a terapias sistêmicas.
Comparativo entre a 5ª e a BI-RADS® v.2025
A nova versão introduz diversas revisões conceituais relevantes. Entre elas, destaca-se a exclusão do termo “microlobulado” como descritor de margem, que passa a ser incorporado à categoria “indistinta”, reduzindo ambiguidades terminológicas.
Os descritores de calcificações também foram revisados, com eliminação de termos considerados pouco objetivos e atualização de tabelas de valor preditivo positivo com base em literatura mais recente. Na ressonância mamária, achados previamente classificados como BI-RADS® 3, como determinados focos de realce, passaram a ser reconhecidos como benignos em contextos específicos.
Outro ponto significativo é a recategorização de achados antes descritos como “associados”, que agora passam a ser tratados como achados secundários, incluindo linfonodos e distorção arquitetural, promovendo maior clareza na hierarquização dos achados.
Como preparar sua equipe para adoção da nova versão
A implementação adequada do BI-RADS® v.2025 exige planejamento e atualização contínua das equipes. A criação de grupos de estudo internos em clínicas e hospitais é uma estratégia eficaz para discutir as mudanças e alinhar interpretações.
Cursos, workshops e webinars são recursos valiosos para a capacitação, assim como o uso da versão digital interativa do manual como material de consulta rápida. Nesse contexto, o médico radiologista assume papel central como líder na disseminação do conhecimento, promovendo integração entre a equipe multidisciplinar e garantindo a aplicação consistente das novas diretrizes.
BI-RADS® v.2025 como marco contínuo no diagnóstico mamário
A nova versão do BI-RADS® reforça o compromisso do ACR com a atualização constante da radiologia mamária, acompanhando os progressos tecnológicos e terapêuticos. A manutenção conceitual da categoria BI-RADS® 6, associada à evolução de seu manejo clínico, exemplifica a adaptação do sistema às demandas da prática moderna.
Ao incorporar novas modalidades, revisar léxicos e padronizar ainda mais os relatórios, o BI-RADS® v.2025 se consolida como um marco diferencial para a prática clínica de excelência, fortalecendo a comunicação, a segurança diagnóstica e o cuidado oncológico centrado no paciente. Para continuar a leitura e aprofundar-se na avaliação mamária, acesse o conteúdo sobre mama densa e exames complementares.
Referências:
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