Sabin Por: Sabin
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Um estudo brasileiro publicado na revista científica The Lancet Global Health reforça a eficácia da vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) como estratégia de prevenção primária ao câncer de colo de útero. 

A análise demonstrou redução de até 58% na incidência da doença em mulheres vacinadas na adolescência, além de queda de 67% nas lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC3). O estudo analisou registros referentes a dados de mais de 60 milhões de mulheres ao ano, trazendo, pela primeira vez, evidências de um país em desenvolvimento, que ratificam o impacto positivo da vacinação já evidenciado em países de alta renda.

A faixa etária avaliada no estudo (20 a 24 anos) não corresponde ao público-alvo habitual dos programas de rastreamento. No entanto, os efeitos protetores observados nessa população corroboram a relevância da imunização em faixas etárias mais precoces, especialmente entre nove e 14 anos, quando o organismo apresenta resposta imunológica mais robusta e duradoura. Essa evidência coloca a vacinação como ferramenta indispensável na prevenção do câncer cervical, sobretudo se iniciada precocemente, com resposta imune mais eficiente no início da adolescência. 

A eficácia na redução das lesões cervicais de alto grau, após a implantação do programa de vacinação no Brasil evidenciada pelo estudo, foi semelhante à obtida na Suécia para mulheres vacinadas em idade semelhante. Contudo, o impacto foi menos pronunciado do que a redução observada no programa da Inglaterra, onde maiores coberturas vacinais foram alcançadas. Nesse contexto, ressalta-se o papel estratégico das equipes de saúde na recomendação ativa da vacina, na abordagem das barreiras socioculturais e na promoção de práticas preventivas com base em evidências.

Estudo brasileiro mostra impacto direto da vacinação na incidência do câncer cervical

A pesquisa analisou dados nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), coletados entre 2019 e 2023, a partir de diversas fontes, como registros de internação hospitalar, ambulatoriais e de tratamento oncológico (APAC/Oncologia). Foram comparadas duas coortes de mulheres: nascidas entre 1994 e 1998 (pré-vacinação); e entre 2001 e 2003 (pós-vacinação).

O estudo identificou uma redução de 58% nos casos de câncer cervical invasivo e de 67% nas lesões precursoras de alto grau (NIC3) entre as mulheres vacinadas. A metodologia incluiu análises de sensibilidade para confirmar a consistência dos achados, que se mostraram robustos mesmo quando ajustados para diferentes fontes de informação e desfechos clínicos. Trata-se do primeiro estudo nacional em larga escala que demonstra, com base em dados reais, a efetividade da vacinação contra o HPV na população.

Gardasil® utilizada no PNI brasileiro

A vacina contra o HPV utilizada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2014 é a Gardasil® quadrivalente, que protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18. Os tipos 16 e 18, de alto risco oncogênico, são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo uterino. 

O esquema recomendado atualmente é de dose única para jovens de nove a 14 anos, conforme recomendação feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022, adotada também em diversos países. Para grupos específicos, como pessoas vivendo com HIV, vítimas de violência sexual e pacientes com papilomatose respiratória recorrente, o esquema permanece em três doses.

Diversos estudos nacionais e internacionais confirmam a eficácia da Gardasil®, de modo geral, a vacina apresenta um perfil de segurança bem estabelecido, com eventos adversos geralmente leves, como dor local e febre transitória. A farmacovigilância brasileira segue monitorando rigorosamente os dados de segurança e eventos relacionados à aplicação.

Gardasil® disponível no Sabin

O Sabin Diagnóstico e Saúde oferece uma versão ampliada da vacina, a Gardasil 9®, que abrange nove subtipos do vírus (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), incluindo os que mais frequentemente estão associados ao desenvolvimento do câncer de colo de útero, além de outros tipos de câncer, como os de vulva, vagina, ânus e pênis, e verrugas genitais. 

É indicada para mulheres e homens de nove a 45 anos, e o número de doses e intervalos é recomendado de acordo com a idade do paciente e histórico de imunização.

Vacinação precoce: prevenção primária antes da triagem

A vacinação contra o HPV tem sua máxima efetividade quando realizada antes da exposição ao vírus, o que justifica a indicação para adolescentes de nove a 14 anos. Nesse grupo etário, observa-se melhor padrão de resposta imunológica.

O estudo brasileiro citado anteriormente demonstrou impacto significativo da vacinação mesmo antes da faixa etária convencional de triagem, enfatizando a importância da prevenção primária. A imunização no início da adolescência representa uma estratégia promissora para diminuir a incidência e a mortalidade por câncer cervical.

Desigualdades regionais e desafios da cobertura vacinal

A grande extensão territorial do país, as diferentes taxas de urbanização, as desigualdades socioeconômicas, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, entre outros fatores sociais, contribuem para cenários distintos entre as regiões brasileiras. Essa heterogeneidade reflete diretamente na adesão da vacinação contra o HPV.

Por essa razão, estratégias de busca ativa, campanhas locais, parcerias com escolas e ações comunitárias são essenciais para ampliar o alcance da vacinação, principalmente em áreas de maior vulnerabilidade.

Vale destacar que políticas públicas consideram essas disparidades ao definir metas e distribuir recursos, visando não apenas à cobertura nacional, mas à equidade sanitária.

Resistência à vacina contra o HPV é uma barreira que precisa ser superada

Desde a introdução da vacina contra o HPV no Brasil, em 2014, a hesitação vacinal tem sido um obstáculo à cobertura ideal. Isso está relacionado a fatores culturais, percepções sobre a sexualidade na adolescência, crenças religiosas e à circulação de informações imprecisas, que ainda influenciam a decisão de muitos pais.

A literatura evidencia que profissionais de saúde continuam sendo as principais fontes confiáveis para famílias e adolescentes, com impacto direto na adesão ao calendário vacinal. Sendo assim, a abordagem empática, baseada em evidências, é uma estratégia importante para superar barreiras e esclarecer dúvidas de maneira ética e responsável.

Algumas campanhas do Ministério da Saúde (MS) têm buscado mitigar a desinformação, sendo os profissionais de saúde protagonistas no enfrentamento da resistência à vacina, particularmente nos cenários de maior proximidade com a comunidade — como o ambiente escolar e as unidades básicas de saúde.

O protagonismo dos profissionais da saúde na eliminação do câncer cervical

A OMS estabeleceu uma meta ambiciosa para a eliminação do câncer de colo de útero como problema de saúde pública até 2030, baseada em três pilares:

  • 90% das meninas vacinadas até os 15 anos;
  • 70% das mulheres triadas com um teste de alta performance até os 35 anos e novamente até os 45 anos;
  • 90% das precursoras e das lesões invasivas tratadas oportunamente.

Mas para que esse objetivo seja alcançado, faz-se necessário uma atuação coordenada e intersetorial entre médicos de diferentes especialidades. Além disso, a articulação entre autoridades e profissionais de saúde e a sociedade é crucial para consolidar a vacinação como uma ferramenta acessível, eficaz e segura na proteção das próximas gerações, garantindo, assim, o cumprimento das metas estabelecidas pela OMS.

Continue aprofundando seu conhecimento sobre rastreamento e genética aplicada ao câncer: leia sobre a utilidade dos testes genéticos para o câncer.

Referências:

Pan American Health Organization (PAHO). End cervical cancer [Internet]. Washington, D.C.: PAHO; c2023 [cited 2025 Nov 14]. Available from: https://www.paho.org/en/end-cervical-cancer

Cerqueira-Silva T, Barral-Netto M, Boaventura VS, et al. Effect of Brazil’s national human papillomavirus vaccination programme on the incidence of cervical cancer and cervical intraepithelial neoplasia grade 3 in women aged 20–24 years: a population-based study. Lancet Glob Health. 2025;11(10):e1715–22.

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Vacinação contra HPV reduz casos de câncer de colo de útero no Brasil; Um estudo brasileiro publicado na revista científica The Lancet Global Health reforça a eficácia da vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) como estratégia de prevenção primária ao câncer de colo de útero.  A análise demonstrou redução de até 58% na incidência da doença em mulheres vacinadas na adolescência, além de queda de 67% nas lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC3). O estudo analisou registros referentes a dados de mais de 60 milhões de mulheres ao ano, trazendo, pela primeira vez, evidências de um país em desenvolvimento, que ratificam o impacto positivo da vacinação já evidenciado em países de alta renda. A faixa etária avaliada no estudo (20 a 24 anos) não corresponde ao público-alvo habitual dos programas de rastreamento. No entanto, os efeitos protetores observados nessa população corroboram a relevância da imunização em faixas etárias mais precoces, especialmente entre nove e 14 anos, quando o organismo apresenta resposta imunológica mais robusta e duradoura. Essa evidência coloca a vacinação como ferramenta indispensável na prevenção do câncer cervical, sobretudo se iniciada precocemente, com resposta imune mais eficiente no início da adolescência.  A eficácia na redução das lesões cervicais de alto grau, após a implantação do programa de vacinação no Brasil evidenciada pelo estudo, foi semelhante à obtida na Suécia para mulheres vacinadas em idade semelhante. Contudo, o impacto foi menos pronunciado do que a redução observada no programa da Inglaterra, onde maiores coberturas vacinais foram alcançadas. Nesse contexto, ressalta-se o papel estratégico das equipes de saúde na recomendação ativa da vacina, na abordagem das barreiras socioculturais e na promoção de práticas preventivas com base em evidências. Estudo brasileiro mostra impacto direto da vacinação na incidência do câncer cervical A pesquisa analisou dados nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), coletados entre 2019 e 2023, a partir de diversas fontes, como registros de internação hospitalar, ambulatoriais e de tratamento oncológico (APAC/Oncologia). Foram comparadas duas coortes de mulheres: nascidas entre 1994 e 1998 (pré-vacinação); e entre 2001 e 2003 (pós-vacinação). O estudo identificou uma redução de 58% nos casos de câncer cervical invasivo e de 67% nas lesões precursoras de alto grau (NIC3) entre as mulheres vacinadas. A metodologia incluiu análises de sensibilidade para confirmar a consistência dos achados, que se mostraram robustos mesmo quando ajustados para diferentes fontes de informação e desfechos clínicos. Trata-se do primeiro estudo nacional em larga escala que demonstra, com base em dados reais, a efetividade da vacinação contra o HPV na população. Gardasil® utilizada no PNI brasileiro A vacina contra o HPV utilizada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2014 é a Gardasil® quadrivalente, que protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18. Os tipos 16 e 18, de alto risco oncogênico, são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo uterino.  O esquema recomendado atualmente é de dose única para jovens de nove a 14 anos, conforme recomendação feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022, adotada também em diversos países. Para grupos específicos, como pessoas vivendo com HIV, vítimas de violência sexual e pacientes com papilomatose respiratória recorrente, o esquema permanece em três doses. Diversos estudos nacionais e internacionais confirmam a eficácia da Gardasil®, de modo geral, a vacina apresenta um perfil de segurança bem estabelecido, com eventos adversos geralmente leves, como dor local e febre transitória. A farmacovigilância brasileira segue monitorando rigorosamente os dados de segurança e eventos relacionados à aplicação. Gardasil® disponível no Sabin O Sabin Diagnóstico e Saúde oferece uma versão ampliada da vacina, a Gardasil 9®, que abrange nove subtipos do vírus (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), incluindo os que mais frequentemente estão associados ao desenvolvimento do câncer de colo de útero, além de outros tipos de câncer, como os de vulva, vagina, ânus e pênis, e verrugas genitais.  É indicada para mulheres e homens de nove a 45 anos, e o número de doses e intervalos é recomendado de acordo com a idade do paciente e histórico de imunização. Vacinação precoce: prevenção primária antes da triagem A vacinação contra o HPV tem sua máxima efetividade quando realizada antes da exposição ao vírus, o que justifica a indicação para adolescentes de nove a 14 anos. Nesse grupo etário, observa-se melhor padrão de resposta imunológica. O estudo brasileiro citado anteriormente demonstrou impacto significativo da vacinação mesmo antes da faixa etária convencional de triagem, enfatizando a importância da prevenção primária. A imunização no início da adolescência representa uma estratégia promissora para diminuir a incidência e a mortalidade por câncer cervical. Desigualdades regionais e desafios da cobertura vacinal A grande extensão territorial do país, as diferentes taxas de urbanização, as desigualdades socioeconômicas, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, entre outros fatores sociais, contribuem para cenários distintos entre as regiões brasileiras. Essa heterogeneidade reflete diretamente na adesão da vacinação contra o HPV. Por essa razão, estratégias de busca ativa, campanhas locais, parcerias com escolas e ações comunitárias são essenciais para ampliar o alcance da vacinação, principalmente em áreas de maior vulnerabilidade. Vale destacar que políticas públicas consideram essas disparidades ao definir metas e distribuir recursos, visando não apenas à cobertura nacional, mas à equidade sanitária. Resistência à vacina contra o HPV é uma barreira que precisa ser superada Desde a introdução da vacina contra o HPV no Brasil, em 2014, a hesitação vacinal tem sido um obstáculo à cobertura ideal. Isso está relacionado a fatores culturais, percepções sobre a sexualidade na adolescência, crenças religiosas e à circulação de informações imprecisas, que ainda influenciam a decisão de muitos pais. A literatura evidencia que profissionais de saúde continuam sendo as principais fontes confiáveis para famílias e adolescentes, com impacto direto na adesão ao calendário vacinal. Sendo assim, a abordagem empática, baseada em evidências, é uma estratégia importante para superar barreiras e esclarecer dúvidas de maneira ética e responsável. Algumas campanhas do Ministério da Saúde (MS) têm buscado mitigar a desinformação, sendo os profissionais de saúde protagonistas no enfrentamento da resistência à vacina, particularmente nos cenários de maior proximidade com a comunidade — como o ambiente escolar e as unidades básicas de saúde. O protagonismo dos profissionais da saúde na eliminação do câncer cervical A OMS estabeleceu uma meta ambiciosa para a eliminação do câncer de colo de útero como problema de saúde pública até 2030, baseada em três pilares: 90% das meninas vacinadas até os 15 anos; 70% das mulheres triadas com um teste de alta performance até os 35 anos e novamente até os 45 anos; 90% das precursoras e das lesões invasivas tratadas oportunamente. Mas para que esse objetivo seja alcançado, faz-se necessário uma atuação coordenada e intersetorial entre médicos de diferentes especialidades. Além disso, a articulação entre autoridades e profissionais de saúde e a sociedade é crucial para consolidar a vacinação como uma ferramenta acessível, eficaz e segura na proteção das próximas gerações, garantindo, assim, o cumprimento das metas estabelecidas pela OMS. Continue aprofundando seu conhecimento sobre rastreamento e genética aplicada ao câncer: leia sobre a utilidade dos testes genéticos para o câncer. Referências: Pan American Health Organization (PAHO). End cervical cancer [Internet]. Washington, D.C.: PAHO; c2023 [cited 2025 Nov 14]. Available from: https://www.paho.org/en/end-cervical-cancer Cerqueira-Silva T, Barral-Netto M, Boaventura VS, et al. Effect of Brazil's national human papillomavirus vaccination programme on the incidence of cervical cancer and cervical intraepithelial neoplasia grade 3 in women aged 20–24 years: a population-based study. Lancet Glob Health. 2025;11(10):e1715–22.