A resistência bacteriana é reconhecida, hoje, como uma das maiores ameaças à saúde global. Segundo estimativas publicadas na revista The Lancet em 2024, o número de mortes atribuídas a infecções por bactérias resistentes pode ultrapassar 39 milhões ao ano até 2050. Esse dado alarmante mostra a urgência de ações coordenadas, com protagonismo da classe médica, tanto na prescrição racional de antimicrobianos quanto na adoção de medidas de prevenção da disseminação de patógenos resistentes.
Na prática clínica, a resistência bacteriana manifesta-se de forma concreta em cenários como aumento da morbimortalidade, prolongamento de internações hospitalares, falhas terapêuticas, necessidade de uso de antibióticos mais tóxicos ou menos eficazes e, inevitavelmente, aumento dos custos em saúde.
O profissional médico que atua na atenção primária, especializada ou hospitalar, deve ser capaz de reconhecer precocemente os sinais de resistência, ajustar condutas terapêuticas com base em dados microbiológicos e liderar estratégias de contenção.
Aprofunde-se no tema e atualize sua conduta frente a esse cenário clínico em constante evolução.
Cenário epidemiológico global e nacional da resistência bacteriana
Números globais apontam que, em 2019, aproximadamente 1,3 milhão de mortes foram diretamente associadas à resistência antimicrobiana. Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de 2,8 milhões de infecções e 35 mil óbitos anuais foram relacionados à presença de patógenos resistentes entre 2012 e 2017. Essa carga é maior que a de doenças como HIV/aids e malária, representando uma ameaça transversal a praticamente todas as especialidades médicas.
No Brasil, ainda que os sistemas de vigilância estejam em desenvolvimento, já é observado um crescimento acentuado de infecções por enterobactérias produtoras de β-lactamases de espectro estendido (ESBL), além de uma alta prevalência de Pseudomonas aeruginosa multirresistente, Acinetobacter baumannii resistente a carbapenêmicos e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA).
Estudos conduzidos entre 2012 e 2017 nos Estados Unidos demonstraram um aumento de 53% na prevalência de ESBL-E, com destaque para as CTX-M-15. Parte significativa dessas infecções tem origem comunitária, o que evidencia que o problema deixou de ser exclusivamente hospitalar.
Mecanismos moleculares de resistência bacteriana
A resistência bacteriana resulta de diversos mecanismos moleculares que tornam os antimicrobianos ineficazes. A produção de β-lactamases, por exemplo, está entre os mecanismos mais frequentes, sendo as carbapenemases, como KPC, NDM e OXA, responsáveis por grande parte da resistência a antibióticos de última linha.
Além disso, alterações na permeabilidade da membrana externa das bactérias impedem a entrada de fármacos, enquanto a superexpressão de bombas de efluxo contribui para a expulsão do antibiótico antes que ele atinja seu alvo. A modificação do sítio de ação também é relevante, como observado nas resistências às quinolonas e macrolídeos, que envolvem alterações em enzimas-alvo ou metilação do RNA ribossomal.
A formação de biofilmes representa outro desafio terapêutico, especialmente em pacientes com dispositivos invasivos. Esses biofilmes funcionam como barreiras físicas e químicas que reduzem a ação dos antimicrobianos. A resistência é potencializada, ainda, pela transferência horizontal de genes entre bactérias, facilitada por plasmídeos e integrons, o que acelera a disseminação de resistência entre diferentes espécies, inclusive fora do ambiente hospitalar.
Perfil clínico e grupos de risco mais afetados
Embora a resistência bacteriana afete um espectro amplo de pacientes, existem grupos particularmente vulneráveis a infecções por patógenos multirresistentes. Pacientes hospitalizados, sobretudo aqueles internados em unidades de terapia intensiva, estão entre os mais acometidos, dada a frequência de procedimentos invasivos e a maior exposição a antimicrobianos de largo espectro.
Indivíduos imunossuprimidos, como portadores de neoplasias hematológicas, transplantados e pacientes com doenças autoimunes, também apresentam risco elevado. A imunossupressão favorece infecções oportunistas e prolonga o uso de antimicrobianos, o que contribui para a seleção de cepas resistentes.
Pacientes idosos, principalmente aqueles acima de 70 anos, somam-se a esse grupo de risco por apresentarem maior incidência de infecções urinárias e respiratórias, que, muitas vezes, são tratadas de forma empírica. Também estão vulneráveis os residentes de instituições de longa permanência, cuja convivência em ambientes fechados facilita a disseminação de patógenos resistentes.
Em ambientes ambulatoriais, observa-se o crescimento de infecções comunitárias por Escherichia coli produtoras de ESBL, notadamente em mulheres com infecções urinárias recorrentes. Por fim, pacientes com múltiplas comorbidades, histórico de hospitalizações constantes e uso recente de antibióticos igualmente apresentam risco aumentado.
O uso ambulatorial de antibióticos e seu impacto na resistência
Apesar de grande parte das discussões sobre resistência antimicrobiana concentrar-se no ambiente hospitalar, é no contexto ambulatorial que ocorre a maior parte das prescrições de antibióticos. É estimado que até 80% dos antimicrobianos sejam prescritos fora do ambiente hospitalar, frequentemente de forma inadequada.
Infecções respiratórias de etiologia viral, por exemplo, continuam sendo tratadas com antibióticos sem necessidade clínica. Adicionalmente, são comuns erros relacionados à dose, duração do tratamento e escolha do fármaco, sem respaldo em cultura ou antibiograma na maioria das vezes. O uso de antibióticos de amplo espectro, como quinolonas e cefalosporinas de terceira geração, tem sido um dos principais fatores de seleção de bactérias resistentes na comunidade.
A falta de diretrizes objetivas, a pressão por atendimento rápido e a expectativa do paciente contribuem para o excesso de prescrição. Por isso, capacitação médica contínua, protocolos de apoio à decisão clínica e reforço na educação em saúde para a população são maneiras de reduzir o uso indiscriminado de antibióticos.
Avanços terapêuticos: novas opções frente à resistência bacteriana
O desenvolvimento de novas combinações de antimicrobianos representa um dos caminhos promissores no enfrentamento da resistência bacteriana. Combinações como ceftazidima-avibactam e meropenem-vaborbactam demonstram eficácia contra cepas produtoras de KPC e algumas ESBLs, oferecendo alternativas seguras e com perfil farmacocinético adequado para infecções graves.
No entanto, ainda existem lacunas, especialmente frente a organismos produtores de metalo-β-lactamases (MBL) e oxacilinases (OXA), como ocorre com Acinetobacter baumannii. Nessas situações, o tratamento pode depender de fármacos como colistina e tigeciclina, cujos efeitos adversos limitam o uso prolongado.
Pensando em futuro, inovações em fase de pesquisa incluem o uso de bacteriófagos, peptídeos antimicrobianos sintéticos, terapias baseadas em CRISPR-Cas9 e desenvolvimento de antibióticos com vetores nanotecnológicos. Embora promissoras, essas abordagens ainda enfrentam barreiras regulatórias e necessitam de validação clínica em larga escala.
Estratégias de prevenção e stewardship antimicrobiano
A resposta mais eficaz à resistência bacteriana depende de um modelo proativo de prevenção e controle, por meio da implementação de programas de stewardship antimicrobiano. Tais programas têm como objetivo garantir a prescrição adequada, monitorar o uso racional dos fármacos e reduzir os impactos adversos associados à seleção de cepas resistentes.
Na prática clínica, isso implica realizar culturas antes do início do tratamento empírico sempre que possível, ajustar a terapia conforme o antibiograma, reduzir quando houver melhora clínica e adotar durações mais curtas de tratamento, baseadas em evidências.
Ademais, a vigilância epidemiológica local é direcionada para orientar o uso racional dos antimicrobianos, destacando-se hospitais de médio e grande porte. Protocolos de higiene, isolamento e desinfecção também são importantíssimos para interromper cadeias de transmissão de patógenos resistentes.
Perspectivas futuras e o conceito One Health
O conceito de One Health, que integra a saúde humana, animal e ambiental, é fundamental para a compreensão e o enfrentamento da resistência antimicrobiana em escala global. Isso deve-se ao fato de que muitos antibióticos utilizados na prática clínica também são amplamente empregados na agropecuária, contribuindo substancialmente para a pressão seletiva sobre bactérias com potencial zoonótico. Além disso, resíduos de antimicrobianos descartados no solo, na água e nos alimentos reforçam um ciclo de disseminação silencioso que favorece a emergência de cepas resistentes fora do ambiente hospitalar.
Diante disso, o engajamento dos profissionais de saúde exerce papel essencial ao apoiar políticas públicas que regulamentam o uso de antimicrobianos na produção animal, promovem a vigilância ambiental e estimulam a educação em saúde coletiva.
Para ampliar seus conhecimentos sobre infecções e estratégias diagnósticas de precisão, acesse nosso conteúdo sobre Diagnóstico molecular da vaginose bacteriana.
Referências:
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