A leishmaniose é uma doença infecciosa causada por um parasita microscópico (protozoário) do gênero Leishmania. A transmissão ocorre pela picada do mosquito vetor, conhecido como flebotomíneo, que transmite o parasita para a pessoa durante a picada. No organismo, o parasita chega à circulação e invade células do sistema imunológico, responsáveis pela defesa do corpo. Dentro dessas células, ele se multiplica e pode afetar o funcionamento do organismo. Em resposta, os linfócitos, que também fazem parte do sistema de defesa, produzem substâncias que ajudam a combater o parasita e a conter sua multiplicação.
A doença está presente em cerca de 99 países localizados em regiões tropicais e subtropicais. Estima-se que surjam, aproximadamente, 1 milhão de novos casos anualmente, reforçando a necessidade de entender como ela funciona.
Nesse sentido, campanhas de conscientização exercem papel fundamental. O Agosto Verde-Claro é uma campanha criada justamente para alertar a população sobre as medidas de prevenção dessa condição, com foco especial na leishmaniose visceral, sua manifestação mais grave.
Quer entender melhor como a infecção atua no corpo humano e o que fazer para se proteger? Continue a leitura e confira todos os detalhes.
Quais são os tipos de leishmaniose e seus sintomas?
A leishmaniose não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. Existem quatro formas clínicas principais da doença, cujos sintomas variam desde feridas aparentes na pele até quadros graves que comprometem os órgãos internos.
Leishmaniose cutânea
A leishmaniose cutânea é a forma mais comum da infecção. Ela se caracteriza pelo aparecimento de lesões ou feridas na pele, que surgem no local exato onde o inseto infectado realizou a picada. Essas feridas podem mudar de tamanho com o tempo e demorar para cicatrizar.
Leishmaniose mucosa
A forma mucosa é uma complicação que causa feridas e lesões mais profundas, destrutivas e dolorosas nas regiões do nariz, da boca e da garganta. Ela pode provocar dificuldades para respirar, engolir e falar, além de afetar significativamente as estruturas da face.
Leishmaniose visceral (calazar)
Também conhecida popularmente como calazar, a leishmaniose visceral é uma condição grave e potencialmente fatal se não for tratada. Nessa forma, o parasita não fica restrito à pele; ele se espalha pela corrente sanguínea e atinge órgãos vitais, como o fígado, o baço e a medula óssea. Isso leva a sintomas graves como febre prolongada, aumento do volume abdominal e fraqueza intensa.
Leishmaniose dérmica pós-calazar
Essa manifestação surge na pele meses ou até anos após o indivíduo ter sido tratado para a leishmaniose visceral provocada pela espécie Leishmania chagasi. Ela acontece porque o parasita pode permanecer no organismo de forma persistente ao longo de toda a vida do paciente, manifestando-se novamente na pele em um momento posterior.
Certos grupos de pessoas apresentam um risco muito maior de desenvolver complicações graves ou ter recaídas dessa condição. É o caso de crianças desnutridas e de pessoas que possuem o sistema de defesa enfraquecido (imunossupressão), como indivíduos que vivem com o vírus HIV.
Como se adquire a leishmaniose?
A principal forma de transmissão da leishmaniose ocorre por meio da picada de fêmeas infectadas de um inseto muito pequeno, o flebotomíneo. No Brasil, esse vetor é conhecido popularmente por nomes como mosquito-palha ou "birigui".
O ciclo de infecção depende da presença de animais que funcionam como reservatórios do parasita. O mosquito-palha pica animais domésticos ou selvagens infectados, como cães, gatos, preguiças, hiraxes e roedores, e adquire o protozoário. A partir desse momento, quando o inseto volta a picar um ser humano ou outro animal saudável, ele inocula o parasita, mantendo sua circulação ativa na natureza.
Existem também formas secundárias de contaminação que não envolvem a picada do mosquito-palha, observadas principalmente na leishmaniose visceral. Essas vias são consideradas raras e incluem a transfusão de sangue contaminado, o transplante de órgãos, a transmissão de mãe para filho durante a gestação (transmissão congênita) e acidentes com agulhas ou compartilhamento de seringas entre usuários.
É importante esclarecer que não existe nenhuma evidência de transmissão direta da leishmaniose de uma pessoa para outra por meio do contato casual, como abraços, aperto de mão ou pelo ar, através da respiração e da fala.
Como é feito o diagnóstico e o tratamento da leishmaniose?
O diagnóstico correto e precoce é essencial para o sucesso do tratamento. Para a leishmaniose visceral, utiliza-se frequentemente um teste rápido baseado em uma substância chamada rK39, que identifica a presença da infecção com agilidade. Já para a leishmaniose cutânea, os profissionais de saúde realizam a análise direta por microscopia, examinando amostras retiradas das feridas da pele para identificar a presença da Leishmania.
O tratamento varia bastante de acordo com a forma clínica da doença, conforme descrito abaixo.
- Leishmaniose cutânea simples: muitas vezes, essa forma pode curar de maneira espontânea, em prazos que dependem da espécie envolvida do parasita. O médico pode optar por manter o paciente em observação ou indicar tratamentos locais diretamente na ferida.
- Leishmaniose cutânea complexa ou mucosa: exige o uso de medicamentos sistêmicos (que agem no corpo todo). Em casos restritos a espécies específicas de parasitas.
- Leishmaniose visceral: o tratamento é realizado e acompanhado por médicos e deve ser iniciado de forma imediata em todas as pessoas que apresentam sintomas. As opções de primeira linha incluem medicamentos como antimoniais pentavalentes e anfotericina B lipossomal.
A escolha do medicamento e a forma de acompanhar o tratamento envolvem avaliações clínicas e laboratoriais. Em algumas situações, como durante a gestação ou em pessoas vivendo com HIV, são necessários cuidados específicos para reduzir o risco de complicações.
No caso de mulheres grávidas com leishmaniose visceral, a anfotericina B lipossomal é o tratamento preferencial, devido aos riscos e às contraindicações associados a outros medicamentos. Já as pessoas vivendo com HIV que apresentam contagens baixas de células CD4+ precisam de um acompanhamento mais rigoroso e de um tratamento individualizado, a fim de reduzir o risco de complicações graves.
Quais são as melhores formas de prevenção?
Atualmente, não existem vacinas ou medicamentos preventivos disponíveis para evitar que uma pessoa contraia a leishmaniose. Por isso, as estratégias de prevenção focam em conter a exposição ao inseto transmissor e evitar outras vias de contaminação.
Entre as medidas de proteção individual, estão hábitos como:
- Evitar permanecer ao ar livre nos horários de maior atividade do mosquito-palha, ou seja, entre o entardecer e o amanhecer;
- Utilizar roupas que cubram a maior parte do corpo, como calças e camisas de mangas compridas;
- Aplicar repelentes adequados diretamente na pele exposta;
- Aplicar o produto inseticida permetrina em tecidos de roupas, mosquiteiros e cortinas de janelas.
Em ambientes urbanos e próximos a áreas de mata, o controle da doença envolve medidas coletivas de controle do vetor e dos reservatórios. Isso inclui a aplicação residual de inseticidas nas paredes das residências e o controle rigoroso da leishmaniose visceral nos cães, garantindo o cuidado e o monitoramento da saúde animal nas comunidades.
Por fim, recomendações adicionais devem ser seguidas por públicos específicos. Indivíduos que já tiveram leishmaniose visceral no passado não devem realizar doação de sangue para evitar o risco de transmissão transfusional. Além disso, pessoas que utilizam medicamentos ou substâncias por via injetável devem sempre utilizar agulhas e seringas estéreis e jamais compartilhá-las.
Para continuar se informando sobre outras doenças transmissíveis, sintomas e formas de prevenção, confira também nosso artigo completo Vírus Nipah: entenda o que é a doença e qual a situação atual.
Sabin avisa:
Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.
Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas.
Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.
Referências
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González U, Pinart M, Sinclair D, Firooz A, Enk C, Vélez ID, Esterhuizen TM, Tristan M, Alvar J. Vector and reservoir control for preventing leishmaniasis. Cochrane Database of Systematic Reviews 2015, Issue 8. Art. No.: CD008736. DOI: 10.1002/14651858.CD008736.pub2. Accessed 31 August 2026.
Leishmaniose visceral - OPAS/OMS | Organização Pan-Americana da Saúde [Internet]. www.paho.org. [cited 2026 Aug 31]. Available from: https://www.paho.org/pt/topicos/leishmaniose/leishmaniose-visceral