Sabin Por: Sabin
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A convulsão é definida como uma atividade elétrica anormal, excessiva e transitória dos neurônios cerebrais. Esse fenômeno ocorre quando há uma desordem elétrica temporária no cérebro, funcionando como um “curto-circuito” que interrompe o funcionamento habitual do sistema nervoso. Os episódios convulsivos apresentam uma gama variada de manifestações clínicas, que podem incluir desde movimentos involuntários bruscos e rigidez muscular acentuada até alterações sutis, e quase imperceptíveis, do nível de consciência.

É importante estabelecer a distinção entre um episódio único de convulsão e o diagnóstico de epilepsia. Nem todo indivíduo que apresenta um episódio convulsivo isolado é portador de uma doença crônica; a crise pode ser um evento reativo a um insulto agudo ao sistema nervoso ou a um desequilíbrio metabólico temporário. 

Compreender essas nuances é o primeiro passo para garantir que o suporte adequado seja oferecido no momento da crise. Entenda como identificar os tipos de crise, as origens e o protocolo de segurança.

Identificando os tipos de crise e as origens

A classificação das crises convulsivas é determinada pela forma como a atividade elétrica anormal se inicia e se propaga no parênquima cerebral. As crises de início focal são aquelas em que a descarga elétrica permanece restrita a uma rede neural localizada em apenas um hemisfério cerebral. Já as crises de início generalizado envolvem, desde o princípio, os dois hemisférios de forma simultânea, resultando frequentemente na perda imediata da consciência.

Entre as manifestações mais conhecidas, está a crise tônico-clônica, geralmente associada ao termo popular “convulsão”. Esse tipo de evento é caracterizado por duas fases distintas: a fase tônica, marcada pela rigidez muscular súbita e generalizada; e a fase clônica, composta por movimentos rítmicos e repetitivos de contração e relaxamento (tremores)

Identificar o padrão do movimento é um fator crucial para o relato médico posterior, auxiliando na precisão diagnóstica.

Por que uma convulsão acontece?

A ocorrência de uma convulsão pode ser atribuída a seis categorias principais de etiologias, conforme a classificação clínica.

  • Genéticas: predisposição hereditária que altera o limiar convulsivo.
  • Estruturais: decorrentes de lesões físicas, como traumatismos cranianos, tumores cerebrais ou sequelas de acidentes vasculares cerebrais.
  • Metabólicas: alterações químicas sistêmicas, sendo a hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) um exemplo comum.
  • Infecciosas: processos inflamatórios no sistema nervoso central, como a meningite.
  • Imunológicas: quando o próprio sistema de defesa ataca células cerebrais.
  • Desconhecidas: a causa primária não é identificada mesmo após investigação exaustiva.

Além das causas estruturais ou patológicas, existem fatores externos que atuam como gatilhos, “disparando” crises em indivíduos predispostos. A privação prolongada de sono, a abstinência ou o consumo excessivo de álcool, e o uso de determinados medicamentos que reduzem o limiar convulsivo são desencadeadores que exigem atenção e manejo preventivo.

Guia de primeiros socorros: o que fazer e o que evitar

Diante de um episódio convulsivo, a prioridade absoluta de quem presta socorro deve ser a manutenção da segurança física da pessoa, evitando traumas secundários durante os movimentos involuntários. Manter a calma é indispensável para executar as manobras de proteção de forma eficaz, até que a atividade elétrica cerebral se estabilize.

Passo a passo para o atendimento seguro

O atendimento inicial deve focar em minimizar riscos ambientais. O primeiro passo consiste em proteger a cabeça da pessoa, utilizando algo macio (como uma peça de roupa) para evitar o impacto contra o solo. Deve-se afastar qualquer objeto perigoso, cortante ou duro que esteja ao redor. 

Um ponto relevante é marcar o tempo de duração da crise, pois essa informação é útil para determinar a gravidade do evento. Existem erros comuns, motivados por mitos populares, que podem ser fatais ou causar lesões graves. Confira abaixo.

  • Nunca coloque objetos na boca: moedas, colheres ou panos podem causar asfixia ou quebra de dentes.
  • Não tente segurar a língua: é fisicamente impossível “enrolar a língua” a ponto de engoli-la, e tentar puxá-la pode resultar em mordeduras graves para o socorrista e para o paciente.
  • Não restrinja os movimentos: segurar a pessoa com força para interromper os tremores pode causar fraturas ou luxações.

Após o término das contrações musculares, deve-se colocar a pessoa na “posição de recuperação”, deitando-a de lado. Essa manobra é necessária para garantir que as vias aéreas permaneçam desobstruídas, permitindo a drenagem de saliva ou vômito e facilitando a respiração.

Quando a situação se torna uma emergência médica?

Embora a maioria das crises terminam espontaneamente em poucos minutos, certas situações requerem o acionamento imediato do serviço de emergência (SAMU ou Bombeiros):

  • Crises que duram mais de cinco minutos (estado de mal epiléptico).
  • Dificuldade respiratória após a crise.
  • Traumas físicos aparentes ocorridos durante a queda ou os movimentos.
  • Quando a pessoa não recupera a consciência entre dois episódios seguidos.

Diagnóstico e a vida após o primeiro episódio

Após a estabilização do paciente, uma avaliação médica detalhada é obrigatória. O médico conduzirá uma história clínica minuciosa e exames físicos para tentar determinar a origem exata da atividade anormal. Compreender o que ocorreu antes, durante e depois do evento é fundamental para o raciocínio diagnóstico.

O período imediatamente posterior à crise é chamado de estado “pós-ictal”. Nesse intervalo, é comum que o indivíduo apresente-se confuso, com sonolência profunda, dor de cabeça ou até agitação. O estado é o tempo necessário para que o cérebro “reinicie” suas funções após a descarga excessiva. 

Para a classificação correta e a definição do tratamento, exames complementares (como eletroencefalograma e neuroimagem) são solicitados, conforme as recomendações internacionais do American College of Radiology e da ILAE (International League Against Epilepsy).

Prevenção e manejo: como reduzir o risco de novas crises

A prevenção de novos episódios se baseia no diagnóstico da causa e no reconhecimento de gatilhos específicos que diminuem o limiar convulsivo de cada paciente. O manejo médico adequado é a estratégia mais eficaz para o controle a longo prazo.

Com diagnóstico preciso e acompanhamento médico regular, a grande maioria das pessoas que apresenta uma convulsão pode manter uma excelente qualidade de vida e segurança em suas atividades cotidianas. O conhecimento sobre a condição remove o medo do desconhecido e permite um convívio social pleno

Para aprofundar seu conhecimento sobre a saúde do sistema nervoso e as novas tecnologias de cuidado, leia nosso conteúdo sobre a detecção precoce de doenças neurodegenerativas.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial. 

Referências:

Expert Panel on Neurological Imaging; Lee RK, Burns J, Ajam AA, Broder JS, Chakraborty S, Chong ST, et al. ACR Appropriateness Criteria® Seizures and Epilepsy. J Am Coll Radiol. 2021;18(5S):S189-S206. doi: 10.1016/j.jacr.2021.01.018

Cohen MS, Cohen J, Timsit JF. Severe Hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2021;384(14):1321-1331. doi: 10.1056/NEJMcp2024526

Thijs RD, Surges R, O’Brien TJ, Sander JW. Epilepsy in adults. Lancet. 2019 Feb 16;393(10172):689-701. doi: 10.1016/S0140-6736(18)32596-0. Epub 2019 Jan 24. PMID: 30686584.

Hewett Brumberg EK, Douma MJ, Alibertis K, Charlton NP, Goldman MP, Harper-Kirksey K, et al. 2024 American Heart Association and American Red Cross Guidelines for First Aid. Circulation. 2024;150(18):e1150-e1212. doi: 10.1161/CIR.0000000000001281

Hsu M, Shah A, Jordan A, Gold MS, Hill KP. Therapeutic Use of Cannabis and Cannabinoids: A Review. JAMA. 2026;335(4):345–359. doi:10.1001/jama.2025.19433

Martimbianco ALC, Silva RB, Cruz Latorraca CO, de Toledo IP, Pacheco RL, Colpani V, Riera R. Cannabis derivatives and their synthetic analogs for treatment-resistant epilepsy: A systematic review and meta-analysis. Epilepsy Res. 2025 Aug;214:107559. doi: 10.1016/j.eplepsyres.2025.107559. Epub 2025 Apr 18. PMID: 40267856.

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Convulsão: entenda as causas e saiba como agir com segurança; A convulsão é definida como uma atividade elétrica anormal, excessiva e transitória dos neurônios cerebrais. Esse fenômeno ocorre quando há uma desordem elétrica temporária no cérebro, funcionando como um "curto-circuito" que interrompe o funcionamento habitual do sistema nervoso. Os episódios convulsivos apresentam uma gama variada de manifestações clínicas, que podem incluir desde movimentos involuntários bruscos e rigidez muscular acentuada até alterações sutis, e quase imperceptíveis, do nível de consciência. É importante estabelecer a distinção entre um episódio único de convulsão e o diagnóstico de epilepsia. Nem todo indivíduo que apresenta um episódio convulsivo isolado é portador de uma doença crônica; a crise pode ser um evento reativo a um insulto agudo ao sistema nervoso ou a um desequilíbrio metabólico temporário.  Compreender essas nuances é o primeiro passo para garantir que o suporte adequado seja oferecido no momento da crise. Entenda como identificar os tipos de crise, as origens e o protocolo de segurança. Identificando os tipos de crise e as origens A classificação das crises convulsivas é determinada pela forma como a atividade elétrica anormal se inicia e se propaga no parênquima cerebral. As crises de início focal são aquelas em que a descarga elétrica permanece restrita a uma rede neural localizada em apenas um hemisfério cerebral. Já as crises de início generalizado envolvem, desde o princípio, os dois hemisférios de forma simultânea, resultando frequentemente na perda imediata da consciência. Entre as manifestações mais conhecidas, está a crise tônico-clônica, geralmente associada ao termo popular "convulsão". Esse tipo de evento é caracterizado por duas fases distintas: a fase tônica, marcada pela rigidez muscular súbita e generalizada; e a fase clônica, composta por movimentos rítmicos e repetitivos de contração e relaxamento (tremores).  Identificar o padrão do movimento é um fator crucial para o relato médico posterior, auxiliando na precisão diagnóstica. Por que uma convulsão acontece? A ocorrência de uma convulsão pode ser atribuída a seis categorias principais de etiologias, conforme a classificação clínica. Genéticas: predisposição hereditária que altera o limiar convulsivo. Estruturais: decorrentes de lesões físicas, como traumatismos cranianos, tumores cerebrais ou sequelas de acidentes vasculares cerebrais. Metabólicas: alterações químicas sistêmicas, sendo a hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) um exemplo comum. Infecciosas: processos inflamatórios no sistema nervoso central, como a meningite. Imunológicas: quando o próprio sistema de defesa ataca células cerebrais. Desconhecidas: a causa primária não é identificada mesmo após investigação exaustiva. Além das causas estruturais ou patológicas, existem fatores externos que atuam como gatilhos, "disparando" crises em indivíduos predispostos. A privação prolongada de sono, a abstinência ou o consumo excessivo de álcool, e o uso de determinados medicamentos que reduzem o limiar convulsivo são desencadeadores que exigem atenção e manejo preventivo. Guia de primeiros socorros: o que fazer e o que evitar Diante de um episódio convulsivo, a prioridade absoluta de quem presta socorro deve ser a manutenção da segurança física da pessoa, evitando traumas secundários durante os movimentos involuntários. Manter a calma é indispensável para executar as manobras de proteção de forma eficaz, até que a atividade elétrica cerebral se estabilize. Passo a passo para o atendimento seguro O atendimento inicial deve focar em minimizar riscos ambientais. O primeiro passo consiste em proteger a cabeça da pessoa, utilizando algo macio (como uma peça de roupa) para evitar o impacto contra o solo. Deve-se afastar qualquer objeto perigoso, cortante ou duro que esteja ao redor.  Um ponto relevante é marcar o tempo de duração da crise, pois essa informação é útil para determinar a gravidade do evento. Existem erros comuns, motivados por mitos populares, que podem ser fatais ou causar lesões graves. Confira abaixo. Nunca coloque objetos na boca: moedas, colheres ou panos podem causar asfixia ou quebra de dentes. Não tente segurar a língua: é fisicamente impossível "enrolar a língua" a ponto de engoli-la, e tentar puxá-la pode resultar em mordeduras graves para o socorrista e para o paciente. Não restrinja os movimentos: segurar a pessoa com força para interromper os tremores pode causar fraturas ou luxações. Após o término das contrações musculares, deve-se colocar a pessoa na "posição de recuperação", deitando-a de lado. Essa manobra é necessária para garantir que as vias aéreas permaneçam desobstruídas, permitindo a drenagem de saliva ou vômito e facilitando a respiração. Quando a situação se torna uma emergência médica? Embora a maioria das crises terminam espontaneamente em poucos minutos, certas situações requerem o acionamento imediato do serviço de emergência (SAMU ou Bombeiros): Crises que duram mais de cinco minutos (estado de mal epiléptico). Dificuldade respiratória após a crise. Traumas físicos aparentes ocorridos durante a queda ou os movimentos. Quando a pessoa não recupera a consciência entre dois episódios seguidos. Diagnóstico e a vida após o primeiro episódio Após a estabilização do paciente, uma avaliação médica detalhada é obrigatória. O médico conduzirá uma história clínica minuciosa e exames físicos para tentar determinar a origem exata da atividade anormal. Compreender o que ocorreu antes, durante e depois do evento é fundamental para o raciocínio diagnóstico. O período imediatamente posterior à crise é chamado de estado "pós-ictal". Nesse intervalo, é comum que o indivíduo apresente-se confuso, com sonolência profunda, dor de cabeça ou até agitação. O estado é o tempo necessário para que o cérebro "reinicie" suas funções após a descarga excessiva.  Para a classificação correta e a definição do tratamento, exames complementares (como eletroencefalograma e neuroimagem) são solicitados, conforme as recomendações internacionais do American College of Radiology e da ILAE (International League Against Epilepsy). Prevenção e manejo: como reduzir o risco de novas crises A prevenção de novos episódios se baseia no diagnóstico da causa e no reconhecimento de gatilhos específicos que diminuem o limiar convulsivo de cada paciente. O manejo médico adequado é a estratégia mais eficaz para o controle a longo prazo. Com diagnóstico preciso e acompanhamento médico regular, a grande maioria das pessoas que apresenta uma convulsão pode manter uma excelente qualidade de vida e segurança em suas atividades cotidianas. O conhecimento sobre a condição remove o medo do desconhecido e permite um convívio social pleno.  Para aprofundar seu conhecimento sobre a saúde do sistema nervoso e as novas tecnologias de cuidado, leia nosso conteúdo sobre a detecção precoce de doenças neurodegenerativas. Sabin avisa: Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames. Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas.  Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.  Referências: Expert Panel on Neurological Imaging; Lee RK, Burns J, Ajam AA, Broder JS, Chakraborty S, Chong ST, et al. ACR Appropriateness Criteria® Seizures and Epilepsy. J Am Coll Radiol. 2021;18(5S):S189-S206. doi: 10.1016/j.jacr.2021.01.018 Cohen MS, Cohen J, Timsit JF. Severe Hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2021;384(14):1321-1331. doi: 10.1056/NEJMcp2024526 Thijs RD, Surges R, O'Brien TJ, Sander JW. Epilepsy in adults. Lancet. 2019 Feb 16;393(10172):689-701. doi: 10.1016/S0140-6736(18)32596-0. Epub 2019 Jan 24. PMID: 30686584. Hewett Brumberg EK, Douma MJ, Alibertis K, Charlton NP, Goldman MP, Harper-Kirksey K, et al. 2024 American Heart Association and American Red Cross Guidelines for First Aid. Circulation. 2024;150(18):e1150-e1212. doi: 10.1161/CIR.0000000000001281 Hsu M, Shah A, Jordan A, Gold MS, Hill KP. Therapeutic Use of Cannabis and Cannabinoids: A Review. JAMA. 2026;335(4):345–359. doi:10.1001/jama.2025.19433 Martimbianco ALC, Silva RB, Cruz Latorraca CO, de Toledo IP, Pacheco RL, Colpani V, Riera R. Cannabis derivatives and their synthetic analogs for treatment-resistant epilepsy: A systematic review and meta-analysis. Epilepsy Res. 2025 Aug;214:107559. doi: 10.1016/j.eplepsyres.2025.107559. Epub 2025 Apr 18. PMID: 40267856.