A síndrome da fadiga crônica (SFC) é uma condição de saúde complexa e debilitante, caracterizada por um estado persistente de fadiga intensa, que não melhora com o repouso e compromete a realização de atividades cotidianas. Em meio à crescente discussão pública sobre saúde mental e qualidade de vida, essa síndrome tem ganhado muito destaque.
Embora a SFC ainda seja pouco reconhecida pela população e mesmo por parte dos profissionais da saúde, seu diagnóstico é consistente e necessário. Continue a leitura e entenda como identificar os sintomas, buscar ajuda médica e melhorar a qualidade de vida de quem convive com a SFC.
O que é a síndrome da fadiga crônica?
A síndrome da fadiga crônica é uma condição clínica crônica, devidamente reconhecida na literatura médica, cuja principal característica consiste em um quadro de fadiga intensa, prolongada e incapacitante, que dura por pelo menos seis meses. Essa fadiga não se justifica por esforço físico excessivo nem é aliviada com o descanso. Trata-se de um quadro que compromete tanto o corpo quanto a mente, com manifestações físicas, emocionais e cognitivas.
Entre os critérios diagnósticos mais aceitos, estão o mal-estar pós-esforço, uma piora significativa dos sintomas após atividades físicas ou mentais, o sono não reparador e a presença de sintomas neurológicos, como dificuldade de concentração e memória. Na literatura médica especializada, essa condição clínica tem sido também reportada com o nome de encefalomielite miálgica, um termo que busca refletir melhor os aspectos inflamatórios e neurológicos envolvidos.
Quais os principais sintomas da síndrome da fadiga crônica?
Os sintomas da síndrome da fadiga crônica são variados e atingem diferentes sistemas do organismo. Além da fadiga intensa e incapacitante, destaca-se o mal-estar após esforço, no qual atividades rotineiras — como caminhar ou ler — podem desencadear o agravamento dos sintomas, que podem durar dias.
Outro sintoma comum é o sono não reparador, quando, mesmo após uma noite inteira de descanso, o paciente acorda exausto. Alterações cognitivas — como dificuldade de concentração, sensação de “mente nebulosa” e lapsos de memória —também são frequentes. A intolerância ortostática, caracterizada por tontura, taquicardia ou sensação de desmaio ao ficar em pé, é outro achado descrito.
Também podem ocorrer dores musculares e articulares, dor de cabeça, sudorese noturna, hipersensibilidade a cheiros e sons, dor de garganta e linfonodos (ínguas) dolorosos em algumas regiões do corpo. A combinação e a intensidade desses sintomas variam entre os pacientes, o que contribui para o desafio diagnóstico.
Quem pode ser afetado pela síndrome da fadiga crônica?
A SFC acomete principalmente mulheres entre 30 e 40 anos, embora possa afetar indivíduos de qualquer faixa etária, incluindo crianças e adolescentes. Alguns estudos mostram que a condição é mais prevalente em pessoas de baixa renda, minorias étnicas e populações socialmente vulneráveis. Fatores psicossociais, tais como antecedentes de estresse, ansiedade, depressão e experiências traumáticas também estão associados à sua manifestação.
No Brasil, pesquisas indicam que a prevalência da SFC é semelhante à observada em países desenvolvidos, apesar de o número de casos diagnosticados ainda ser baixo. A falta de reconhecimento da síndrome no sistema de saúde contribui para o subdiagnóstico e para o sofrimento silencioso de muitos pacientes que não compreendem sua condição.
Fadiga de decisão e sobrecarga digital: como a mente também se cansa
Em adição aos aspectos clínicos acima descritos, é importante abordar também a “fadiga de decisão”, um tipo de esgotamento mental que ocorre quando somos submetidos constantemente à necessidade de tomar decisões. A vida moderna, marcada pelo excesso de estímulos digitais, pela conectividade incessante e pelo acúmulo de tarefas simultâneas, agrava esse tipo de fadiga.
O uso intenso de dispositivos eletrônicos, redes sociais e multitarefas digitais pode sobrecarregar o cérebro, aumentando o cansaço mental, prejudicando o foco e contribuindo para o estresse. Para quem já convive com a SFC, essa sobrecarga pode intensificar sintomas e influenciar negativamente a qualidade de vida.
Diante disso, práticas como pausas regulares, redução do tempo de tela e organização de rotinas são práticas indispensáveis para preservar o bem-estar mental.
Como é feito o diagnóstico?
Não há exames laboratoriais específicos para diagnosticar a SFC. O diagnóstico é clínico e exige a exclusão de outras doenças com sintomas semelhantes.
O médico considera: histórico detalhado do paciente; duração e intensidade da fadiga; presença de sintomas associados; e avaliação de exames complementares que ajudem a descartar outras condições clínicas, como fibromialgia, hipotireoidismo, anemias, hipoglicemia, apneia do sono e algumas infecções.
A ausência de marcadores objetivos e o desconhecimento generalizado da doença tornam o processo diagnóstico mais demorado e frustrante para muitos pacientes.
A síndrome da fadiga crônica tem cura?
Até o momento, não existe cura definitiva para a SFC. No entanto, é possível controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida com estratégias personalizadas. O tratamento inclui ajustes na rotina, melhora do sono, alimentação equilibrada, prática de atividade física, redução do estresse e intervenções terapêuticas específicas.
Terapias cognitivas e ocupacionais, acompanhamento psicológico e suporte social são cruciais para ajudar o paciente a lidar com as limitações impostas pela doença. O ideal é que o cuidado envolva uma equipe multidisciplinar, com acompanhamento médico, psicológico e, quando necessário, fisioterapêutico e nutricional.
Estratégias de autocuidado para quem sofre com fadiga crônica
O autocuidado é uma das chaves para conviver com a síndrome da fadiga crônica. Estabelecer limites, aprender a dizer “não” e respeitar os próprios ritmos são atitudes essenciais. Também é importante organizar as tarefas do dia, priorizando o que é mais relevante e evitando sobrecargas.
A prática de atividades físicas leves, como caminhadas suaves ou alongamentos, pode ser benéfica, desde que respeitados os limites individuais. Além disso, manter uma alimentação saudável, hidratação adequada e boa higiene do sono são práticas que favorecem o bem-estar.
O que fazer se você suspeita que tem SFC?
Se você apresenta fadiga intensa e contínua, juntamente com outros sintomas previamente descritos, o ideal é procurar um médico. Relatar os sintomas com clareza e registrar sua frequência e intensidade pode ajudar no diagnóstico. Evite a automedicação e o autodiagnóstico.
O tratamento geralmente é coordenado por um clínico geral ou reumatologista, podendo envolver uma equipe multidisciplinar. Cada paciente precisa de um plano de cuidados individualizado, de acordo com seus sintomas, limitações e estilo de vida.
A importância do acolhimento e da empatia
Pessoas com SFC frequentemente enfrentam falta de compreensão, tanto em ambientes profissionais quanto familiares. Como os sintomas não são visíveis, é comum que o sofrimento seja invalidado ou minimizado. Por isso, é fundamental falar abertamente sobre a condição, combater estigmas e incentivar uma escuta empática.
Informação é o primeiro passo para o cuidado
A síndrome da fadiga crônica é uma condição real, desafiadora e que merece visibilidade. Reconhecer seus sinais, buscar diagnóstico precoce e adotar práticas de autocuidado são atitudes imprescindíveis para lidar com a doença de forma mais efetiva. A informação atualizada, obtida por meio de fontes confiáveis, continua sendo uma das mais poderosas aliadas na jornada pela aquisição de bem-estar e qualidade de vida.
Quer entender melhor como o uso excessivo de telas pode impactar a saúde física e emocional? Leia nosso conteúdo sobre o uso excessivo do celular e seus impactos à saúde.
Sabin avisa:
Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.
Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas.
Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.
Referências:
Deumer US, Varesi A, Floris V. Myalgic Encephalomyelitis/Chronic Fatigue Syndrome (ME/CFS): An Overview. J Clin Med. 2021;10(20):4786. doi: 10.3390/jcm10204786.
Klimas NG, Broderick G, Fletcher MA. Biomarkers for chronic fatigue. Brain Behav Immun. 2012 Nov;26(8):1202-10. doi: 10.1016/j.bbi.2012.06.006. Epub 2012 Jun 23. PMID: 22732129; PMCID: PMC5373648.
Yoon JH, Park NH, Kang YE, Ahn YC, Lee EJ, Son CG. The demographic features of fatigue in the general population worldwide: a systematic review and meta-analysis. Front Public Health. 2023 Jul 28;11:1192121. doi: 10.3389/fpubh.2023.1192121. PMID: 37575103; PMCID: PMC10416797.
Cho HJ, Menezes PR, Hotopf M, Bhugra D, Wessely S. Comparative epidemiology of chronic fatigue syndrome in Brazilian and British primary care: prevalence and recognition. Br J Psychiatry. 2009 Feb;194(2):117-22. doi: 10.1192/bjp.bp.108.051813. PMID: 19182171.
Cho HJ, Menezes PR, Bhugra D, Wessely S. The awareness of chronic fatigue syndrome: a comparative study in Brazil and the United Kingdom. J Psychosom Res. 2008 Apr;64(4):351-5. doi: 10.1016/j.jpsychores.2007.12.006. PMID: 18374733.


