Sabin para médicos Archives | Blog Sabin https://blog.sabin.com.br/categoria/medicos/ Conhecimento aliado ao bem-estar Fri, 22 May 2026 15:38:41 +0000 pt-BR hourly 1 https://blog.sabin.com.br/wp-content/uploads/2025/10/cropped-03_simbolo-vermelho-1-32x32.png Sabin para médicos Archives | Blog Sabin https://blog.sabin.com.br/categoria/medicos/ 32 32 Avanços na imunização: a vacina contra a dengue do Instituto Butantan https://blog.sabin.com.br/medicos/a-nova-vacina-contra-a-dengue-do-instituto-butantan/ https://blog.sabin.com.br/medicos/a-nova-vacina-contra-a-dengue-do-instituto-butantan/#respond Fri, 22 May 2026 15:38:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5163 A busca por uma estratégia vacinal robusta e de alta adesão para o controle da dengue no Brasil atinge um marco histórico com o desenvolvimento da Butantan-DV. Essa vacina tetravalente, composta por vírus vivos atenuados, utiliza uma plataforma tecnológica derivada da formulação TV003, projetada para induzir uma resposta imune equilibrada contra os quatro sorotipos do […]

The post Avanços na imunização: a vacina contra a dengue do Instituto Butantan appeared first on Blog Sabin.

]]>
A busca por uma estratégia vacinal robusta e de alta adesão para o controle da dengue no Brasil atinge um marco histórico com o desenvolvimento da Butantan-DV. Essa vacina tetravalente, composta por vírus vivos atenuados, utiliza uma plataforma tecnológica derivada da formulação TV003, projetada para induzir uma resposta imune equilibrada contra os quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). 

O diferencial técnico da solução nacional reside na estabilidade imunogênica e na praticidade logística, sendo estruturada para fornecer proteção ampla com um esquema de dose única. Esse fator é determinante para superar um dos maiores gargalos das campanhas de vacinação pública: a perda de seguimento em esquemas multidose, garantindo que a soroconversão e a proteção epidemiológica sejam estabelecidas de forma imediata e definitiva no ato da administração. Prossiga a leitura para compreender o funcionamento. 

Eficácia clínica e proteção em diferentes perfis sorológicos

Dados consolidados dos ensaios clínicos de fase 3 revelam uma eficácia global de 79,6%, conforme estudo NEJM realizado após dois anos de seguimento, posicionando a Butantan-DV como uma ferramenta de alta performance para a saúde pública. 

Um dos pontos mais críticos na análise de vacinas contra a dengue é o desempenho em indivíduos sem exposição prévia ao vírus, uma vez que a vacinação em soronegativos exige segurança rigorosa para evitar o risco de doença grave por sensibilização. Nesse grupo, a vacina demonstrou eficácia de 73,6%. Já em pacientes soropositivos, que possuem imunidade prévia a pelo menos um dos sorotipos, a eficácia elevou-se para 89,2%, evidenciando um robusto efeito de reforço na resposta imunológica.

A sustentabilidade da proteção é outro fator interessante documentado nos estudos. O acompanhamento de longo prazo indica que a eficácia vacinal se mantém resiliente, apresentando índices em torno de 65% após cinco anos da administração da dose única. Essa durabilidade da resposta imune sugere que o novo imunizante é capaz de mimetizar a infecção natural de forma controlada, induzindo um padrão de resposta protetora no intervalo avaliado até então.

Proteção contra formas graves e sinais de alarme

O impacto mais relevante da Butantan-DV é sua capacidade de prevenir o desfecho clínico desfavorável. A vacina apresentou eficácia situada entre 80% e 89% especificamente contra a dengue, com sinais de alarme e formas graves da doença. Essa redução drástica na morbidade tem o potencial de aliviar significativamente a carga sobre o sistema hospitalar durante períodos epidêmicos. 

No decorrer da análise, houve uma predominância da circulação dos sorotipos DENV-1 e DENV-2, contra os quais a vacina demonstrou resposta imune específica e protetiva. O monitoramento contínuo dos demais sorotipos segue como parte do rigor científico para assegurar a cobertura universal prometida pela formulação tetravalente.

Indicações, posologia e perfil de segurança da Butantan-DV

A indicação clínica da Butantan-DV abrange uma ampla faixa etária, sendo recomendada para indivíduos saudáveis de 12 a 59 anos. Um diferencial importante para o manejo clínico é a independência do histórico de exposição prévia; ou seja, a vacina pode ser administrada tanto em indivíduos que nunca tiveram dengue quanto naqueles que já foram infectados, sem a necessidade de triagem sorológica prévia. O protocolo de administração é simplificado: uma dose única aplicada via subcutânea, o que otimiza o fluxo de atendimento em consultórios e centros de imunização.

No que tange à segurança, o perfil observado nos ensaios clínicos é favorável. Os eventos adversos sistêmicos mais frequentes foram classificados como leves a moderados, incluindo cefaleia e rash cutâneo, que são reações esperadas em plataformas de vírus vivo atenuado. A incidência de eventos adversos graves foi considerada baixa, reforçando a confiabilidade do imunobiológico. 

No entanto, as contraindicações seguem o padrão para vacinas de vírus vivo: não deve ser administrada em gestantes, lactantes e indivíduos imunocomprometidos, visando preservar a integridade clínica desses grupos específicos.

Critérios de elegibilidade e manejo na prática clínica

A implementação da Butantan-DV na rotina médica é facilitada pela ausência de pré-requisitos laboratoriais. A dispensa de sorologia prévia permite que o médico assistente decida pela imunização imediata, acelerando a proteção da população suscetível. Em pacientes que apresentam doenças crônicas, a vacina pode ser aplicada desde que as condições estejam clinicamente controladas, seguindo os mesmos critérios de inclusão rigorosos adotados nos ensaios clínicos realizados no Brasil.

É imperativo ressaltar a orientação sobre a intercambialidade de imunobiológicos: a Butantan-DV não deve ser administrada como continuidade do esquema em indivíduos que já iniciaram imunização com Qdenga®.

A recomendação técnica é manter a consistência do esquema iniciado ou aguardar as orientações oficiais de transição, preservando a segurança imunológica do paciente e a clareza dos dados de eficácia individual.

Lembrando que os ensaios clínicos realizados com a nova vacina não incluíram indivíduos previamente vacinados contra a dengue com outros imunizantes.

Incorporação no sistema de saúde e perspectivas de mercado

A chegada da Butantan-DV ao Sistema Único de Saúde (SUS) representa um avanço estratégico para a ampliação da cobertura vacinal em escala nacional. A produção local pelo Instituto Butantan reduz a dependência de importações e possibilita uma resposta mais ágil às demandas epidemiológicas brasileiras

A estratégia de implantação delineada pelo Ministério da Saúde (MS) prevê uma disponibilização escalonada, iniciando-se pelos profissionais de saúde da atenção primária, que compõem o grupo de linha de frente, para posteriormente expandir-se aos demais estratos populacionais prioritários.

Entre outras diferenças, ao compararmos tecnicamente a Butantan-DV com a vacina Qdenga® — disponível na rede privada —, a principal reside na posologia. Enquanto a Qdenga® requer um regime de duas doses para completar o esquema vacinal, a Butantan-DV atinge seu perfil de eficácia total com apenas uma dose. Essa característica não apenas facilita a logística pública, mas também oferece uma vantagem competitiva em termos de adesão do paciente. 

A coexistência de diferentes plataformas vacinais é vista como uma oportunidade para otimizar a saúde pública, permitindo que diferentes setores da sociedade tenham acesso a tecnologias de ponta para o combate de uma das arboviroses mais prevalentes no país

Para aprofundar seus conhecimentos técnicos sobre os métodos de prevenção da dengue, acesse nosso conteúdo sobre a Qdenga®.

Referências:

Cerqueira-Silva T, Oliveira V de A, Boaventura VS, Bertoldo Júnior J, Oliveira MAB, Júnior JBS, et al. Effect of Brazil’s national human papillomavirus vaccination programme on the incidence of cervical cancer and cervical intraepithelial neoplasia grade 3 in women aged 20–24 years: a population-based study. Lancet Glob Health. 2023;13(10):e1715–22.

Pan American Health Organization (PAHO). End cervical cancer [Internet]. Washington, D.C.: PAHO; c2023 . Available from: https://www.paho.org/en/end-cervical-cancer

The post Avanços na imunização: a vacina contra a dengue do Instituto Butantan appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/a-nova-vacina-contra-a-dengue-do-instituto-butantan/feed/ 0 5163
Nova diretriz no diagnóstico do transtorno do espectro autista https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-no-diagnostico-do-transtorno-do-espectro-autista/ https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-no-diagnostico-do-transtorno-do-espectro-autista/#respond Fri, 15 May 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5150 O panorama atual do diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA) permanece fundamentado em critérios clínicos comportamentais, consolidando a observação direta e a anamnese detalhada como os pilares da prática médica. A publicação da nova diretriz nacional pela Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) atualiza as condutas diagnósticas à luz das evidências científicas mais recentes, […]

The post Nova diretriz no diagnóstico do transtorno do espectro autista appeared first on Blog Sabin.

]]>
O panorama atual do diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA) permanece fundamentado em critérios clínicos comportamentais, consolidando a observação direta e a anamnese detalhada como os pilares da prática médica. A publicação da nova diretriz nacional pela Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) atualiza as condutas diagnósticas à luz das evidências científicas mais recentes, oferecendo um direcionamento rigoroso para a identificação precoce e o manejo adequado. 

A atualização é motivada por fatores críticos, incluindo o avanço expressivo nas pesquisas sobre biomarcadores, a persistência do atraso no diagnóstico em diversas regiões e as desigualdades estruturais no acesso à avaliação especializada. Embora tecnologias emergentes apresentem um potencial transformador, o diagnóstico clínico criterioso, realizado por profissionais capacitados, segue sendo o padrão-ouro inquestionável para a determinação do transtorno. 

Continue a leitura para atualizar seu conhecimento sobre as novas atualizações. 

Por que o diagnóstico do TEA continua sendo clínico?

A natureza do TEA, caracterizada por uma complexa heterogeneidade fenotípica, explica por que o diagnóstico permanece essencialmente clínico. Até o momento, não existem biomarcadores validados que possuam sensibilidade e especificidade suficientes para substituir a avaliação humana na rotina assistencial. O diagnóstico baseia-se estritamente nos dois domínios centrais estabelecidos pelo DSM-5: os déficits persistentes na comunicação social e na interação social e a presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

O domínio do neurodesenvolvimento e o conhecimento clínico profundo são importantes para a realização do diagnóstico diferencial, distinguindo o TEA de outras condições que podem mimetizar sintomas semelhantes, como transtornos de linguagem ou deficiência intelectual isolada. Avaliações isoladas possuem limites intrínsecos; por isso, a diretriz enfatiza a necessidade de consolidar múltiplas fontes de informação. Dados provenientes de cuidadores, relatórios de professores e a análise de vídeos caseiros, que capturam o comportamento da criança em ambientes naturais, são subsídios indispensáveis para uma conclusão diagnóstica robusta e fidedigna.

Diretrizes atualizadas para investigação genética no TEA

As atualizações nas diretrizes trazem mudanças significativas para investigação genética, que agora assume um papel complementar, porém estratégico, após a confirmação do diagnóstico clínico. A recomendação de exames genéticos é especialmente reforçada em casos que apresentam sinais sindrômicos, malformações ou comorbidades associadas. A escolha do teste genético deve seguir indicações específicas, considerando a gravidade do quadro clínico, a presença de consanguinidade entre os genitores, episódios de regressão do desenvolvimento ou a identificação de dismorfias físicas.

O acompanhamento por geneticistas torna-se necessário em cenários de maior complexidade, nos quais a interpretação de variantes genéticas exige expertise técnica para o aconselhamento genético familiar. Esse processo não visa apenas identificar a etiologia do transtorno, mas também prover informações sobre o prognóstico e riscos de recorrência, integrando a genética à medicina de precisão aplicada ao neurodesenvolvimento.

A importância do rastreamento precoce e ferramentas recomendadas por faixa etária

A identificação precoce é um dos determinantes mais influentes no prognóstico de longo prazo. As ferramentas e técnicas utilizadas devem ser adequadas a cada fase do desenvolvimento, respeitando as janelas de oportunidade terapêutica.

Triagem em crianças pequenas

Para o rastreamento em crianças entre 16 e 30 meses, o M-CHAT-R/F é indicado como o principal instrumento de triagem, apresentando elevada sensibilidade e especificidade para detectar riscos de TEA. 

Outras ferramentas, como o ITC e o FYI-L, são discutidas para aplicação em idades ainda mais precoces, embora suas limitações técnicas devam ser consideradas pelo clínico. 

É imperativo que a vigilância do desenvolvimento seja uma prática constante e rigorosa durante as consultas pediátricas de rotina, mesmo quando não há sinais evidentes ou queixas explícitas por parte dos responsáveis.

Diagnóstico clínico em crianças e adolescentes

Na fase escolar e na adolescência, a acurácia diagnóstica depende de instrumentos observacionais estruturados. O ADOS-2 e o CARS-2 destacam-se como as ferramentas mais precisas para a observação direta. 

O ADI-R, por sua vez, funciona como uma entrevista estruturada complementar de grande valor histórico, apesar de possuir menor acurácia se utilizado de forma isolada. 

A eficácia desses instrumentos é maximizada quando integrada a uma avaliação multidisciplinar, que contemple dados de desenvolvimento adaptativo e observações em diferentes contextos sociais.

Triagem em adultos

Para o público adulto, sobretudo aqueles sem deficiência intelectual, a diretriz recomenda o uso do AQ-10 como ferramenta de triagem inicial, conforme as orientações do NICE. 

Caso o rastreio indique positividade, é indispensável proceder com uma investigação adicional exaustiva e acompanhamento clínico contínuo para a confirmação diagnóstica, considerando as camuflagens sociais (masking) que frequentemente dificultam a identificação do transtorno nessa faixa etária.

O papel da equipe multidisciplinar e a avaliação funcional

O diagnóstico ideal do TEA é um processo colaborativo que envolve uma equipe multidisciplinar composta por neurologistas, psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, entre outros especialistas correlatos. A integração de avaliações clínicas com testes cognitivos, análise de linguagem e comportamento adaptativo possibilita uma visão holística do paciente. 

Fatores ambientais, socioculturais e contextuais devem ser rigorosamente analisados, pois influenciam diretamente a expressão dos sintomas e podem impactar a acurácia diagnóstica se não forem devidamente ponderados.

Níveis de suporte segundo o DSM-5

A classificação do TEA pelo DSM-5 em três níveis de suporte é uma ferramenta crucial para o planejamento terapêutico e a definição do prognóstico. Essa categorização permite que a equipe médica e multidisciplinar alinhe as intervenções às necessidades reais de autonomia e funcionalidade do paciente.

Nível 1: requer apoio (suporte leve)

Nesse nível, observam-se dificuldades claras na comunicação social e na interação, acompanhadas de uma inflexibilidade moderada. Entretanto, o indivíduo apresenta capacidade preservada de fala e relativa independência em atividades básicas, demandando suporte pontual em situações sociais específicas, no ambiente escolar ou em tarefas que exijam organização.

Nível 2: requer apoio substancial (suporte moderado)

Caracteriza-se por déficits mais graves na comunicação social, tanto verbal quanto não verbal. Os comportamentos restritos e repetitivos são mais evidentes no cotidiano, gerando a necessidade de um apoio mais estruturado e frequente para a manutenção da rotina, desempenho escolar e execução de tarefas cotidianas.

Nível 3: requer apoio muito substancial (suporte intenso)

Manifesta-se através de déficits graves em comunicação, ocorrendo a fala mínima ou ausente em muitos casos. Há uma grande inflexibilidade comportamental, o que exige suporte constante e intensivo para a realização de atividades básicas, garantia da segurança e processos de adaptação a mudanças.

É fundamental que o clínico mantenha a cautela com classificações precoces em crianças muito jovens, dada a plasticidade do desenvolvimento, sendo as reavaliações periódicas mandatórias. Em relatórios médicos para esse público, recomenda-se o uso da expressão “atualmente classificado como”, evitando uma rigidez interpretativa que possa limitar as expectativas de desenvolvimento ou o acesso a intervenções dinâmicas.

Ferramentas emergentes

O campo da investigação tecnológica tem apresentado avanços em biomarcadores pré-sintomáticos, incluindo neuroimagem funcional, eletroencefalograma (EEG) quantitativo, inteligência artificial, genômica avançada e rastreamento ocular (eye-tracking). 

Um marco relevante foi a recente aprovação pelo FDA (Food and Drug Administration) do primeiro dispositivo de rastreamento ocular para triagem em crianças de 16 a 30 meses. No entanto, é necessário esclarecer que tais ferramentas ainda estão em fase de validação para o uso clínico rotineiro e devem ser encaradas com precaução. 

O futuro do diagnóstico do TEA

O futuro do diagnóstico do TEA aponta para uma integração cada vez maior entre a clínica e a tecnologia, mas a base permanece inalterada: a observação direta, o uso de entrevistas estruturadas e a atuação de equipes especializadas. 

Embora os biomarcadores sejam promissores, eles ainda estão em processo de validação científica e não substituem a experiência do médico. A atualização constante por meio de diretrizes de referência, como as da SBNI, AAP e NICE, é o caminho para qualificar a prática diagnóstica e garantir que o paciente receba o suporte adequado no momento oportuno. 

Para aprofundar seus conhecimentos sobre as bases biológicas e as indicações precisas de exames moleculares, acesse nosso conteúdo detalhado sobre o estudo genético do autismo.

Referências:

Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil. Recomendações e orientações para o diagnóstico, investigação e abordagem terapêutica do transtorno do espectro autista [Internet]. São Paulo: SBNI; 2023 [citado 2026 mar 26]. Disponível em: https://sbni.org.br/recomendacoes-e-orientacoes-para-o-diagnostico-investigacao-e-abordagem-terapeutica-do-transtorno-do-espectro-autista/

Hirota T, King BH. Autism Spectrum Disorder: A Review. JAMA. 2023;329(2):157–168. doi:10.1001/jama.2022.23661

Wang M, Zhang X, Zhong L, Zeng L, Li L, Yao P. Understanding autism: Causes, diagnosis, and advancing therapies. Brain Res Bull. 2025 Jul;227:111411. doi: 10.1016/j.brainresbull.2025.111411. Epub 2025 May 29. PMID: 40449388.

Wang BM, Mills Z, Jones HF, Montgomery JM, Lee KY. Presymptomatic Biological, Structural, and Functional Diagnostic Biomarkers of Autism Spectrum Disorder. J Neurochem. 2025 May;169(5):e70088. doi: 10.1111/jnc.70088. PMID: 40390287; PMCID: PMC12089747.

Hock A, Gosa MM, Apperson ML. Autism Spectrum Disorder: Diagnosis and Management. Am Fam Physician [Internet]. 2020 nov 15 [citado 2026 mar 26];102(10):629-37. Disponível em: https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2020/1115/p629.html

Porto KS, Wieckowski AT, Fein DA, Barton ML, Baranek GT, Robins DL. Comparison of Available Tools to Screen for Autism at 12 and 15 Months. J Dev Behav Pediatr. 2025 Nov-Dec 01;46(6):e564-e571. doi: 10.1097/DBP.0000000000001406. Epub 2025 Aug 1. PMID: 40758867; PMCID: PMC12908181.

The post Nova diretriz no diagnóstico do transtorno do espectro autista appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-no-diagnostico-do-transtorno-do-espectro-autista/feed/ 0 5150
Carga global de câncer: análise das projeções e desafios até 2050 https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/ https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/#respond Fri, 17 Apr 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5133 A oncologia mundial enfrenta um cenário de transformações profundas e desafios estruturais que demandam a reavaliação das estratégias assistenciais. Dados consolidados da atualização do Global Burden of Disease (GBD) 2023 oferecem uma visão padronizada da magnitude e das tendências da especialidade em escala global, permitindo uma compreensão técnica sobre a evolução da carga da doença. […]

The post Carga global de câncer: análise das projeções e desafios até 2050 appeared first on Blog Sabin.

]]>
A oncologia mundial enfrenta um cenário de transformações profundas e desafios estruturais que demandam a reavaliação das estratégias assistenciais. Dados consolidados da atualização do Global Burden of Disease (GBD) 2023 oferecem uma visão padronizada da magnitude e das tendências da especialidade em escala global, permitindo uma compreensão técnica sobre a evolução da carga da doença.

O câncer persiste de forma inequívoca como a segunda principal causa de morte no mundo, apresentando um crescimento expressivo no número absoluto de diagnósticos e óbitos registrados desde o início da série histórica em 1990. 

Esse fenômeno não é aleatório; as mudanças demográficas contemporâneas, centradas no envelhecimento e no crescimento populacional, atuam como os principais vetores das projeções para as próximas décadas. Compreender a dinâmica é importante para o planejamento de longo prazo na medicina de precisão e na saúde pública. 

Continue a leitura para analisar as projeções de mortalidade e o impacto das disparidades globais no cenário oncológico.

Transição demográfica e o incremento na mortalidade absoluta

As projeções epidemiológicas indicam um cenário de pressão crescente sobre os sistemas de saúde. Estima-se que, em 2050, o mundo registre aproximadamente 18,6 milhões de óbitos anuais por câncer. Valor que representa um crescimento alarmante de 74,5% em comparação aos índices observados em 2024. 

O salto quantitativo está intrinsecamente ligado à transição demográfica, na qual a maior longevidade expõe a população por períodos mais prolongados a agentes carcinogênicos e processos de senescência celular que favorecem a oncogênese.

O paradoxo das taxas padronizadas por idade

Ao analisar a carga da doença, observa-se um fenômeno estatístico relevante: existe uma redução marginal de 5,6% nas taxas de mortalidade padronizadas por idade. No entanto, essa queda percentual é insuficiente para mitigar o aumento real da carga absoluta impulsionado pela longevidade populacional.

Na prática clínica, isso significa que, embora o manejo individual possa estar evoluindo, o volume total de pacientes terminais e casos complexos continuará a expandir-se. Esse descompasso global evidencia a dificuldade em atingir a meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU): reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis até o ano de 2030.

Disparidades na carga global de câncer e o impacto do IDH

A distribuição da carga oncológica não é uniforme e revela abismos profundos baseados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Enquanto países de alta renda projetam o aumento de 42,8% na mortalidade por câncer, as nações de baixa e média renda enfrentam uma perspectiva muito mais severa, com um crescimento crítico esperado de 90,6%. Essa disparidade acentua a necessidade de políticas de rastreio e tratamento que considerem as limitações econômicas regionais.

A criticidade da razão de mortalidade/incidência (MIR)

A razão de mortalidade/incidência (MIR) serve como um indicador fidedigno da eficácia dos sistemas de saúde. Uma MIR elevada em países de baixo IDH reflete diretamente o déficit estrutural no acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos oncológicos de ponta. 

A vulnerabilidade das populações residentes em áreas com infraestrutura limitada é evidente, prevendo-se que o número de óbitos oncológicos nessas regiões quase triplique nas próximas décadas. Para o médico, esses dados reforçam a urgência de estratégias que transcendam o tratamento hospitalar, focando na equidade do acesso tecnológico.

Perfis epidemiológicos de risco e grupos vulneráveis

A análise detalhada dos grupos afetados revela que a carga de mortalidade é significativamente maior entre homens e na população idosa, com foco especial em indivíduos com 75 anos ou mais. Esse perfil demográfico requer um olhar clínico diferenciado, voltado para a gestão de multimorbidades e fragilidades inerentes ao envelhecimento. 

Além dos fatores biológicos e demográficos, a influência de fatores de risco potencialmente modificáveis permanece como um pilar da oncologia moderna. O tabagismo e o consumo de álcool continuam a exercer um papel preponderante na composição da carga oncológica contemporânea, exigindo intervenções de prevenção primária rigorosas no nível ambulatorial.

O papel do médico no rastreio e estratégias de enfrentamento

Diante das projeções de envelhecimento populacional, torna-se imperativa uma abordagem clínica proativa que conecte a prevenção primária ao diagnóstico precoce. O médico deve utilizar os dados do GBD 2023 para orientar a definição de prioridades assistenciais e o manejo personalizado de pacientes de alto risco, otimizando o uso de recursos diagnósticos e terapêuticos. O foco deve migrar da medicina meramente reativa para uma medicina preditiva e preventiva.

Genômica e painéis genéticos na medicina preventiva

Nesse contexto de antecipação diagnóstica, a genômica assume a função de protagonista. A utilidade dos testes genéticos reside na identificação de variantes patogênicas germinativas, o que permite o rastreamento individualizado muito antes do surgimento de qualquer sinal clínico da doença. 

O emprego de painéis de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) é fundamental para a detecção de síndromes de predisposição hereditária, como as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, além da síndrome de Lynch. A integração da genômica na prática clínica cotidiana possibilita o refinamento do prognóstico e a seleção de terapias alvo-específicas, mitigando de forma substancial o impacto da carga oncológica futura. 

Para aprofundar seu conhecimento sobre as aplicações práticas dessas tecnologias, leia mais sobre a utilidade dos testes genéticos para o câncer.

Referências:

GBD 2023 Cancer Collaborators. The global, regional, and national burden of cancer, 1990-2023, with forecasts to 2050: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. Lancet. 2025 Oct 11;406(10512):1565-1586. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01635-6. Epub 2025 Sep 24. PMID: 41015051; PMCID: PMC12687902.

Shah R, Battisti NML, Brain E, Gnangnon FHR, Kanesvaran R, Mohile S, Noronha V, Puts M, Soto-Perez-de-Celis E, Pilleron S. Updated cancer burden in oldest old: A population-based study using 2022 Globocan estimates. Cancer Epidemiol. 2025 Apr;95:102716. doi: 10.1016/j.canep.2024.102716. Epub 2024 Nov 26. PMID: 39603975.

Bizuayehu HM, Ahmed KY, Kibret GD, et al. Global Disparities of Cancer and Its Projected Burden in 2050. JAMA Netw Open. 2024;7(11):e2443198. doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.43198

The post Carga global de câncer: análise das projeções e desafios até 2050 appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/feed/ 0 5133
Neutropenia febril: atualizações clínicas no manejo terapêutico https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/ https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/#respond Fri, 03 Apr 2026 12:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5113 A neutropenia febril (NF) permanece como uma das emergências infecciosas mais críticas no cenário oncológico, especialmente em pacientes com neoplasias hematológicas ou em uso de quimioterapia mielossupressora. A condição, caracterizada pela presença simultânea de febre e neutropenia, está fortemente associada a risco elevado de infecções graves, internações prolongadas e mortalidade precoce, além de impactar a […]

The post Neutropenia febril: atualizações clínicas no manejo terapêutico appeared first on Blog Sabin.

]]>
A neutropenia febril (NF) permanece como uma das emergências infecciosas mais críticas no cenário oncológico, especialmente em pacientes com neoplasias hematológicas ou em uso de quimioterapia mielossupressora. A condição, caracterizada pela presença simultânea de febre e neutropenia, está fortemente associada a risco elevado de infecções graves, internações prolongadas e mortalidade precoce, além de impactar a continuidade e a efetividade do tratamento antineoplásico.

Nos últimos anos, observou-se uma mudança significativa no panorama epidemiológico das infecções relacionadas à neutropenia febril, com aumento da incidência de bactérias multirresistentes, alterações no perfil microbiológico institucional e necessidade de revisão das práticas tradicionais de manejo. Como resposta a esse cenário, a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) publicou, em 2024, um novo consenso nacional com diretrizes atualizadas para a condução de pacientes com neutropenia febril.

Este conteúdo reúne os principais pontos do novo consenso, abordando avaliação inicial, antibioticoterapia, estratificação de risco — com ferramentas como MASCC e CISNE — e medidas preventivas e diagnósticas individualizadas, focando na realidade brasileira. Acompanhe!

O que é neutropenia febril e qual sua relevância clínica?

Os principais contextos clínicos que predispõem à NF incluem esquemas de quimioterapia altamente mielossupressores, neoplasias hematológicas, transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) e tumores sólidos tratados com regimes intensivos.

A condição é definida pela presença de febre: temperatura oral ≥38,3°C, em uma única medida; ou ≥38,0°C, mantida por pelo menos uma hora em um paciente com contagem absoluta de neutrófilos (CAN) <500 células/μL; ou <1.000 células/μL, com expectativa de queda para <500 células/μL nas próximas 48 horas. A febre pode ser o único sinal de infecção em pacientes neutropênicos, devido à resposta inflamatória limitada. 

Neutropenia febril é considerada uma emergência oncológica, pois o risco de infecção grave e mortalidade é elevado, sobretudo quando a neutropenia é profunda e prolongada. O manejo deve ser imediato, com avaliação clínica e início precoce de antibióticos de amplo espectro, conforme recomendado pelas sociedade citada.

Diante do potencial para desfechos graves, a identificação precoce da NF e a estruturação de fluxos clínicos para sua abordagem imediata são essenciais.

Perfil dos pacientes mais afetados e fatores de risco

Idosos, pacientes com comorbidades, como insuficiência renal ou diabetes, estado funcional prejudicado (ECOG ≥2) e histórico prévio de NF também compõem um grupo de risco elevado. Em adultos, a profundidade da neutropenia e a presença de dispositivos invasivos agravam ainda mais o risco de complicações infecciosas. E em crianças, a incidência varia conforme o tipo de câncer e fase do tratamento, sendo mais frequente durante protocolos de indução e consolidação.

Por isso, os grupos de pacientes particularmente vulneráveis à neutropenia febril incluem aqueles com leucemias agudas, linfomas agressivos, submetidos a TCTH e portadores de tumores sólidos em esquemas quimioterápicos combinados.

Novas recomendações para avaliação inicial antes da antibioticoterapia

Antes da administração empírica de antibióticos, recomenda-se a coleta de, no mínimo, dois conjuntos de hemoculturas de sítios anatômicos diferentes: um de punção periférica em cada braço (se possível); ou, se houver cateter venoso central, um de veia periférica e um do lúmen do cateter. Essa coleta deve ser feita idealmente sem atrasar o início do tratamento em casos graves. 

A abordagem aumenta a sensibilidade para detecção de bacteremia e permite distinguir entre infecção verdadeira e contaminação, além de identificar infecções relacionadas ao cateter.

Exames de imagem devem ser indicados com base na sintomatologia, tomografia de tórax para sintomas respiratórios, tomografia abdominal para dor localizada e outros exames dirigidos ao foco clínico.A anamnese deve incluir histórico de internações recentes, uso de antimicrobianos nos últimos três meses, colonização por patógenos multirresistentes e comorbidades. Essa abordagem diagnóstica inicial é importante para a escolha racional do tratamento antimicrobiano, reduzindo o risco de uso desnecessário e contribuindo para a contenção da resistência microbiana.

Início da antibioticoterapia empírica: o que mudou?

O novo consenso recomenda o início da antibioticoterapia empírica nas primeiras horas após a identificação da febre, preferencialmente por monoterapia com cefepime ou piperacilina-tazobactam, que oferecem cobertura eficaz contra Pseudomonas aeruginosa.

O uso de carbapenêmicos deve ser restrito a situações de instabilidade hemodinâmica, colonização por enterobactérias produtoras de ESBL/CRE, infecções documentadas por esses agentes ou falha terapêutica de esquemas de primeira linha.

A inclusão de cobertura para agentes gram-positivos anti-MRSA (como vancomicina) deve ser restrita a situações específicas, infecções de cateter, lesões de pele, colonização documentada ou choque séptico sem foco definido. A estratégia de escalonamento com base em cultura, melhora clínica e marcadores laboratoriais deve ser priorizada para promover o uso racional de antibióticos.

Estratificação de risco e viabilidade de manejo ambulatorial

A estratificação de risco é a etapa central na decisão entre hospitalização e tratamento ambulatorial. O escore MASCC é amplamente utilizado e permite estimar o risco de complicações em pacientes com câncer (hematológicos ou não). Contudo, pode superestimar a segurança em casos de neutropenia leve.

Outro escore é o CISNE, o qual foi desenvolvido especificamente para pacientes com tumores sólidos e estabilidade clínica, sendo mais sensível na detecção de pacientes aptos ao tratamento ambulatorial. Apesar de pouco difundido no Brasil, seu uso pode aprimorar a seleção de casos de baixo risco.

Pacientes clinicamente estáveis, com suporte familiar, acesso a serviços de saúde e bom entendimento das orientações, podem ser tratados em casa com antibióticos orais, como amoxicilina-clavulanato associada à ciprofloxacina, ou moxifloxacino isoladamente. O monitoramento rigoroso é obrigatório para garantir segurança e resposta terapêutica adequada.

Papel da profilaxia com G-CSF: quem deve receber?

O uso de fatores estimuladores de colônias de granulócitos (G-CSF) é indicado como profilaxia primária, principalmente para prevenir episódios de neutropenia febril em pacientes sob esquemas com risco ≥20%. 

Para regimes com risco intermediário (10–20%), a profilaxia primária é indicada apenas se houver fatores agravantes, como idade avançada, comorbidades ou histórico de neutropenia febril.

A profilaxia secundária é indicada para pacientes que já apresentaram sintomas de neutropenia febril ou neutropenia grau 3/4 em ciclos anteriores, quando a redução de dose comprometeria o controle da doença.

No Brasil, estão disponíveis formulações de curta e longa duração (como filgrastim e pegfilgrastim, respectivamente), além de biossimilares com eficácia comparável e custo reduzido. Entre as inovações futuras, estão moléculas como o trilaciclib, que reduz a mielossupressão quando administrado antes da quimioterapia, e a plinabulina, com potencial efeito imunomodulador. Ambos ainda em avaliação e não disponíveis para uso clínico no país.

Diretrizes atualizadas para manejo pediátrico

Em pacientes pediátricos de baixo risco, a nova diretriz permite a interrupção da antibioticoterapia empírica após 48 horas de hemoculturas negativas, mesmo sem recuperação da ANC, desde que o paciente esteja afebril por pelo menos 24 horas e clinicamente estável. Essa conduta reduz exposição a antibióticos, tempo de internação e risco de resistência, sem aumento de infecções, readmissões ou mortalidade.

Por outro lado, em pacientes de alto risco sem profilaxia antifúngica, a introdução de antifúngicos preemptivos é recomendada com base em achados clínicos, laboratoriais e radiológicos. Nesses casos, a adesão a protocolos estruturados mostrou expressiva redução da mortalidade e melhora nos desfechos oncológicos em centros especializados.

Novas abordagens diagnósticas e suporte laboratorial

O uso do FDG-PET/CT tem ganhado espaço na investigação de febre persistente, sem foco definido em pacientes neutropênicos. O exame pode identificar inflamações ocultas ou infecções não detectáveis em exames convencionais.

Biomarcadores, como galactomanana, beta-D-glucana, antígenos de Candida e Cryptococcus, ajudam na identificação precoce de infecções fúngicas invasivas. Testes moleculares e tecnologias de sequenciamento genético de DNA livre circulante estão sendo estudados como ferramentas para identificar patógenos em tempo hábil.

Esses avanços possibilitam orientar de forma mais precisa a necessidade de terapias antifúngicas e antibacterianas, diminuindo a exposição a antimicrobianos de amplo espectro e suas complicações.

Impacto da neutropenia febril em pacientes idosos

Os pacientes idosos enfrentam desafios particulares no manejo da neutropenia febril, como maior carga de comorbidades, menor reserva fisiológica, risco elevado de toxicidades hematológicas e polifarmácia. São características que aumentam a chance de complicações infecciosas e hospitalizações prolongadas.

A profilaxia com G-CSF é especialmente relevante nesse grupo, conferindo maior adesão ao tratamento quimioterápico e redução do risco de interrupções terapêuticas. A avaliação multidisciplinar e o cuidado centrado na pessoa idosa são fundamentais para decisões terapêuticas seguras e efetivas.

Tendências futuras e recomendações práticas

As diretrizes atuais reforçam a necessidade de antibioticoterapia empírica mais criteriosa, baseada em evidência microbiológica local e resposta clínica. A ampliação do tratamento ambulatorial, quando bem selecionado, promove desfechos favoráveis com menor impacto ecológico.

Ferramentas como FDG-PET/CT, testes moleculares e biomarcadores permitirão decisões mais personalizadas. Novas moléculas, como trilaciclib e plinabulina, ainda estão em fase de avaliação, mas apontam para um futuro de maior precisão terapêutica.

É importante que profissionais de saúde se mantenham atualizados quanto às recomendações clínicas, adaptando suas condutas à realidade epidemiológica e às condições de acesso da instituição onde atuam.Para aprofundar seus conhecimentos sobre o papel dos neutrófilos em doenças autoimunes, confira nosso conteúdo sobre anticorpos anticitoplasma de neutrófilos (ANCA).

Referências:

Nucci M, Arrais-Rodrigues C, Bergamasco MD, et al. Management of febrile neutropenia: consensus of the Brazilian Association of Hematology, Blood Transfusion and Cell Therapy – ABHH. Hematol Transfus Cell Ther. 2024. In press.

Taplitz RA, Kennedy EB, Bow EJ, Crews J, Gleason C, Hawley DK, Langston AA, Nastoupil LJ, Rajotte M, Rolston KV, Strasfeld L, Flowers CR. Antimicrobial Prophylaxis for Adult Patients With Cancer-Related Immunosuppression: ASCO and IDSA Clinical Practice Guideline Update. J Clin Oncol. 2018 Oct 20;36(30):3043-3054. doi: 10.1200/JCO.18.00374. Epub 2018 Sep 4. PMID: 30179565.

Qian ET, Casey JD, Wright A, et al. Cefepime vs piperacillin-tazobactam in adults hospitalized with acute infection: the ACORN randomized clinical trial. JAMA. 2023;330(16):1557–67. doi:10.1001/jama.2023.20583. PMID: 37837651. PMCID: PMC10576861.

Boccia R, Glaspy J, Crawford J, Aapro M. Chemotherapy-Induced Neutropenia and Febrile Neutropenia in the US: A Beast of Burden That Needs to Be Tamed? Oncologist. 2022 Aug 5;27(8):625-636. doi: 10.1093/oncolo/oyac074. PMID: 35552754; PMCID: PMC9355811.

Contejean A, Maillard A, Canouï E, Kernéis S, Fantin B, Bouscary D, Parize P, Garcia-Vidal C, Charlier C. Advances in antibacterial treatment of adults with high-risk febrile neutropenia. J Antimicrob Chemother. 2023 Sep 5;78(9):2109-2120. doi: 10.1093/jac/dkad166. Erratum in: J Antimicrob Chemother. 2023 Nov 6;78(11):2784. doi: 10.1093/jac/dkad304. PMID: 37259598.

Minisini A, Spazzapan S, Crivellari D, Aapro M, Biganzoli L. Incidence of febrile neutropenia and neutropenic infections in elderly patients receiving anthracycline-based chemotherapy for breast cancer without primary prophylaxis with colony-stimulating factors. Crit Rev Oncol Hematol. 2005 Feb;53(2):125-31. doi: 10.1016/j.critrevonc.2004.11.003. PMID: 15661563.

The post Neutropenia febril: atualizações clínicas no manejo terapêutico appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/feed/ 0 5113
Atualizações clínicas sobre o manejo da dislipidemia na gestação https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/ https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/#respond Fri, 27 Mar 2026 14:10:59 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5097 A dislipidemia na gestação representa um desafio crescente na prática clínica, especialmente diante do aumento da prevalência de distúrbios metabólicos em mulheres em idade fértil. Em 2024, o European Heart Journal publicou uma atualização relevante sobre o tema, enfatizando a necessidade de um novo olhar sobre o manejo da dislipidemia durante a gravidez. Apesar dos […]

The post Atualizações clínicas sobre o manejo da dislipidemia na gestação appeared first on Blog Sabin.

]]>
A dislipidemia na gestação representa um desafio crescente na prática clínica, especialmente diante do aumento da prevalência de distúrbios metabólicos em mulheres em idade fértil. Em 2024, o European Heart Journal publicou uma atualização relevante sobre o tema, enfatizando a necessidade de um novo olhar sobre o manejo da dislipidemia durante a gravidez. Apesar dos avanços no tratamento em populações não grávidas, o cenário gestacional permanece limitado, em grande parte por conta da exclusão rotineira de gestantes em ensaios clínicos. 

Nesse contexto, a individualização do cuidado, aliada à avaliação rigorosa de risco-benefício e à abordagem multidisciplinar, torna-se imprescindível para garantir a segurança materno-fetal. Prossiga na leitura para se atualizar sobre condutas terapêuticas seguras e recomendações mais recentes no manejo da dislipidemia na gestação.

Panorama epidemiológico e fisiopatológico

Ao longo da gravidez, é esperado um aumento fisiológico nos níveis de colesterol total, LDL-C e triglicerídeos, sobretudo no terceiro trimestre. A adaptação metabólica visa atender às demandas do feto em crescimento e é mediada por alterações hormonais, principalmente devido ao aumento de estrogênio e progesterona. Contudo, em mulheres com dislipidemia prévia, como hipercolesterolemia familiar (HF) ou hipertrigliceridemia primária, essa elevação pode ultrapassar os limites fisiológicos, aumentando o risco de eventos adversos.

Os perfis lipídicos anormais na gestação estão associados a complicações obstétricas relevantes, incluindo pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, parto prematuro e pancreatite aguda. Além disso, o risco de eventos cardiovasculares maternos também se eleva. Por isso, o rastreamento em gestantes com antecedentes familiares de dislipidemia grave ou histórico pessoal de eventos cardiovasculares deve ser considerado desde o início do pré-natal.

Perfis lipídicos e desfechos específicos: o contexto brasileiro

Alguns estudos brasileiros revelam que o IMC pré-gestacional exerce influência significativa sobre o perfil lipídico da gestante. Mulheres com sobrepeso ou obesidade tendem a apresentar maiores concentrações de triglicerídeos e LDL-C, e níveis reduzidos de HDL-C. Além disso, padrões alimentares ricos em fast food e açúcares simples estão associados a piores desfechos metabólicos durante a gestação.

Essas alterações impactam diretamente o feto: níveis elevados de LDL-C e triglicerídeos e aumento mais lento do HDL-C foram relacionados ao nascimento de recém-nascidos grandes para a idade gestacional (LGA), o que pode predispor a distúrbios metabólicos na vida adulta. Curiosamente, há também correlação entre baixos níveis de HDL-C e aumento de sintomas depressivos em gestantes, sugerindo implicações psicossociais ainda pouco exploradas.

Atualizações no manejo terapêutico

O estudo reforça que o manejo da dislipidemia na gestação não sofreu mudanças expressivas nas últimas décadas. Em virtude da contraindicação formal da maioria dos hipolipemiantes, as estratégias não farmacológicas permanecem como o eixo central do tratamento. Isso inclui orientação nutricional individualizada, prática de atividade física segura, controle do ganho de peso e suporte psicológico.

O manejo pré-concepcional ganha destaque como momento oportuno para intervenção. Em mulheres com dislipidemia conhecida, esse período permite o uso de terapias atualmente contraindicadas na gestação, além de possibilitar ajustes metabólicos prévios à concepção. Ainda assim, há urgência na produção de evidências de alta qualidade para subsidiar diretrizes mais seguras e eficazes para esse grupo populacional.

Terapias farmacológicas: o que será permitido e o que será restrito na gestação

O uso de terapias farmacológicas para o manejo da dislipidemia na gestação continua limitado, em particular pela ausência de evidências robustas de segurança para a maioria dos agentes hipolipemiantes. 

Dessa forma, a indicação de medicamentos deve ser cuidadosamente avaliada, considerando o perfil de risco materno, os potenciais efeitos sobre o desenvolvimento fetal e a gravidade da dislipidemia. 

Em geral, o tratamento farmacológico é reservado a situações específicas, nas quais o risco cardiovascular materno ou as complicações metabólicas superam os riscos potenciais associados à exposição medicamentosa.

Alternativas de uso excepcional (sob estrito risco-benefício)

Dentre as poucas opções farmacológicas consideradas durante a gestação, os sequestrantes de ácidos biliares permanecem como a única classe com segurança estabelecida para uso materno, sendo amplamente aceitos na prática clínica.

Em situações clínicas específicas e de alto risco, ezetimiba e fenofibrato podem ser avaliados como alternativas de uso excepcional, desde que sob análise criteriosa de risco-benefício individualizado e com acompanhamento multiprofissional rigoroso. Mesmo assim, a escassez de evidências robustas sobre sua segurança em gestantes exige extrema cautela.

Os ácidos graxos ômega-3 também podem ser utilizados com moderação em determinados casos, embora faltem dados conclusivos sobre sua segurança durante a lactação, o que reforça a necessidade de vigilância clínica contínua.

Fármacos contraindicados ou de uso controverso

As estatinas seguem formalmente contraindicadas no decorrer da gestação, com base em dados de estudos pré-clínicos e observacionais que indicam risco potencial de malformações fetais. No entanto, revisões sistemáticas recentes e relatos de casos clínicos vêm discutindo novas perspectivas para pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigótica grave (HFHo) ou com risco cardiovascular materno muito elevado.

Nesses casos excepcionais, a manutenção da terapia com estatinas pode ser considerada, sempre sob avaliação individual criteriosa, com apoio de comitês multidisciplinares e vigilância clínica intensiva. A decisão deve ponderar o risco de descontinuação da medicação, principalmente mulheres com história de eventos cardiovasculares prévios ou LDL-C persistentemente elevados, frente aos potenciais riscos teóricos ao feto.

Agentes mais recentes, como os inibidores de PCSK9, bempedoico, inclisiran, evinacumab e olezarsen, ainda não possuem dados de segurança em gestantes e, portanto, devem ser restritos ao uso pré-concepcional ou retomados apenas no pós-parto. A niacina continua não recomendada, dado seu baixo benefício cardiovascular e possíveis riscos materno-fetais.

Critérios de intervenção farmacológica e de emergência: indo além do estilo de vida

Embora as mudanças no estilo de vida sejam o pilar fundamental do tratamento das dislipidemias, existem cenários clínicos de alta complexidade, nos quais dieta e atividade física isoladas tornam-se insuficientes. 

Em situações de risco metabólico extremo ou predisposição genética severa, a intervenção médica deve ser imediata e agressiva para prevenir desfechos fatais. O manejo dessas condições exige um equilíbrio criterioso entre a segurança do paciente e a necessidade de terapias avançadas, muitas vezes exigindo suporte tecnológico hospitalar e uma abordagem interdisciplinar coordenada.

Hipertrigliceridemia grave

Quando os níveis de triglicerídeos ultrapassam 1.000 mg/dL, há risco elevado de pancreatite aguda e outras complicações graves. Nesses casos, pode ser necessário adotar estratégias mais intensivas, como jejum temporário, nutrição parenteral e, em situações críticas, aférese lipídica, sempre com suporte multiprofissional e em ambiente hospitalar com expertise.

Hipercolesterolemia familiar homozigótica

Essa condição representa alto risco cardiovascular para a mãe. Em casos selecionados, a continuação da terapia hipolipemiante pode ser indicada durante a gestação. 

A aférese lipídica surge como alternativa terapêutica segura, embora de acesso limitado. A avaliação deve envolver equipe multidisciplinar, incluindo cardiologia, obstetrícia, genética, endocrinologia e nutrição, sempre com foco no manejo pré-concepcional como forma de reduzir riscos na gestação.

Repercussões do perfil lipídico materno na saúde fetal

A dislipidemia materna influencia diretamente o crescimento e o desenvolvimento fetal. Além do risco de LGA, chamam atenção possíveis implicações na programação metabólica do feto, o que pode predispor à obesidade, dislipidemia e resistência insulínica na vida adulta. Do ponto de vista obstétrico, há maior incidência de síndrome hipertensiva gestacional, diabetes gestacional e parto prematuro.

Mesmo gestantes assintomáticas com alterações no perfil lipídico devem ser monitoradas rigorosamente. A vigilância clínica estruturada, com acompanhamento longitudinal, é essencial para prevenir complicações e garantir desfechos positivos.

Riscos da descontinuação abrupta de terapias hipolipemiantes

Interromper terapias hipolipemiantes sem avaliação adequada pode expor gestantes de alto risco a eventos cardiovasculares graves. Um exemplo clássico são pacientes com histórico de infarto agudo do miocárdio em uso crônico de estatinas. Nesses casos, a decisão deve ser compartilhada entre equipe médica e paciente, com definição de protocolos claros de continuidade terapêutica e monitoramento clínico constante. O planejamento terapêutico deve ser feito ainda no período pré-concepcional, evitando ajustes emergenciais durante a gestação.

Conclusão e perspectivas: a importância do manejo pré-concepcional

O manejo da dislipidemia na gestação exige uma abordagem baseada em individualização rigorosa do risco, estratégias não farmacológicas como pilar terapêutico e atuação multidisciplinar integrada. O período pré-concepcional se destaca como janela crítica de oportunidade para intervenção segura, especialmente em mulheres com HF ou hipertrigliceridemia grave.

Apesar dos avanços recentes, a literatura ainda carece de ensaios clínicos envolvendo gestantes, o que limita a robustez das recomendações atuais. A inclusão de mulheres grávidas em estudos prospectivos deve ser prioridade nas próximas décadas, bem como o desenvolvimento de fármacos especificamente desenhados para uso seguro nesse período tão sensível.

Para aprofundar seu conhecimento, sugerimos a leitura do conteúdo sobre o painel genético para a dislipidemia.

Referências:

Joanna Lewek, Agata Bielecka-Dąbrowa, Peter P Toth, Maciej Banach, Dyslipidaemia management in pregnant patients: a 2024 update, European Heart Journal Open, Volume 4, Issue 3, May 2024, oeae032, https://doi.org/10.1093/ehjopen/oeae032

Bittencourt MS. Estatinas na Gestação – Novas Recomendações do Food and Drug Administration. Arq. Bras. Cardiol. 2022;119(1):1-2.

Farias DR, Franco-Sena AB, Vilela A, Lepsch J, Mendes RH, Kac G. Lipid changes throughout pregnancy according to pre-pregnancy BMI: results from a prospective cohort. BJOG. 2016 Mar;123(4):570-8. doi: 10.1111/1471-0528.13293. Epub 2015 Feb 2. PMID: 25639335.

Rodrigues IC, Grandi C, Simões VMF, Batista RFL, Rodrigues LS, Cardoso VC. Metabolic profile during pregnancy in BRISA birth cohorts of Ribeirão Preto and São Luís, Brazil. Braz J Med Biol Res. 2020 Dec 7;54(1):e10253. doi: 10.1590/1414-431X202010253. PMID: 33295536; PMCID: PMC7727101.

Carreira NP, de Lima MC, Sartorelli DS, Crivellenti LC. Relationship between diet quality and biochemical profile in Brazilian overweight pregnant women. Nutrition. 2023 Sep;113:112056. doi: 10.1016/j.nut.2023.112056. Epub 2023 Apr 29. PMID: 37354652.

Svendsen K, Christensen JJ, Igland J, Krogh HW, Mundal LJ, Jacobs DR Jr, Bogsrud MP, Holven KB, Retterstøl K. Risk of adverse pregnancy outcomes and impact of statin use in pregnant women with familial hypercholesterolemia. Atherosclerosis. 2025 Sep;408:120442. doi: 10.1016/j.atherosclerosis.2025.120442. Epub 2025 Jul 10. PMID: 40669098.

The post Atualizações clínicas sobre o manejo da dislipidemia na gestação appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/feed/ 0 5097
Aumento expressivo da obesidade pediátrica grave e suas complicações metabólicas https://blog.sabin.com.br/medicos/aumento-da-obesidade-pediatrica-grave/ https://blog.sabin.com.br/medicos/aumento-da-obesidade-pediatrica-grave/#respond Thu, 19 Mar 2026 19:32:58 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=4940 Nas últimas décadas, a obesidade pediátrica evoluiu de um problema emergente para uma emergência clínica global, agravada pelo aumento de casos classificados como obesidade extremamente grave. Dados recentes do estudo de Münte et al. (2025), publicado no JAMA Network Open, apontam para um crescimento relativo de 253,1% na prevalência de obesidade em classes extremas (4 […]

The post Aumento expressivo da obesidade pediátrica grave e suas complicações metabólicas appeared first on Blog Sabin.

]]>
Nas últimas décadas, a obesidade pediátrica evoluiu de um problema emergente para uma emergência clínica global, agravada pelo aumento de casos classificados como obesidade extremamente grave. Dados recentes do estudo de Münte et al. (2025), publicado no JAMA Network Open, apontam para um crescimento relativo de 253,1% na prevalência de obesidade em classes extremas (4 e 5 – NHANES), com taxa de 1,13% em 2023. Adolescentes entre 16 e 18 anos, especialmente negros não hispânicos, apresentaram os maiores índices, evidenciando marcadores sociais de risco e profundas disparidades em saúde. Isso reforça a necessidade de ação clínica imediata e revisão de estratégias de prevenção e manejo da obesidade pediátrica grave.

Na sequência, atualize-se sobre as principais repercussões metabólicas da obesidade grave em pediatria e como a prática clínica pode ser ajustada nesse novo cenário.

Evidências recentes: crescimento da obesidade extrema e implicações clínicas

A nova estratificação de obesidade pediátrica baseada em cinco classes, conforme utilizada no NHANES (2008–2023), introduziu categorias mais precisas para obesidade extrema: Classe 4 (IMC ≥160% e <180% do percentil 95) e Classe 5 (IMC ≥180% do percentil 95). Essa abordagem permitiu avaliar a progressão de casos graves com maior sensibilidade clínica. 

O crescimento acelerado nessas categorias acende um alerta importante: adolescentes com obesidade extrema já apresentam complicações metabólicas precoces, sobrecarregando os sistemas de saúde e ampliando as desigualdades no acesso a cuidados especializados. O estudo destaca o papel da obesidade grave como marcador de risco metabólico e clínico, reforçando o caráter emergencial da triagem e da intervenção precoce.

Repercussões metabólicas da obesidade severa em idade pediátrica

A obesidade pediátrica grave está intimamente ligada a um conjunto de alterações metabólicas com potencial de manifestação ainda na infância e na adolescência. O acúmulo de tecido adiposo visceral, a resistência insulínica precoce e a inflamação crônica de baixo grau compõem o pano de fundo fisiopatológico para a emergência de disfunções orgânicas progressivas. 

Neste tópico, abordamos as principais complicações metabólicas documentadas em adolescentes com obesidade severa, bem como os impactos cardiovasculares e endócrinos que corroboram a necessidade de rastreamento e intervenção precoce.

Complicações metabólicas documentadas

A obesidade extrema associa-se a um amplo espectro de disfunções metabólicas, com destaque para:

  • Doença hepática associada à disfunção metabólica (MASLD): considerada uma das comorbidades prioritárias, com odds ratio (OR) de 6,74, a MASLD representa manifestação precoce e progressiva da disfunção hepática em crianças e adolescentes com obesidade grave, exigindo triagem laboratorial e, quando indicada, avaliação por imagem e escores de fibrose hepática.
  • Alterações da homeostase glicêmica: incluem resistência insulínica grave (OR 8,05) e presença de pré-diabetes ou diabetes tipo 2 (OR 4,94), com prevalência até cinco vezes maior nos casos extremos, reforçando a importância de rastreamento precoce com glicemia de jejum, HbA1c, insulina basal e HOMA-IR.

Risco cardiovascular precoce e disfunção endotelial

Mesmo na ausência de sintomas clínicos evidentes, adolescentes com obesidade grave apresentam marcadores vasculares subclínicos, como o aumento da espessura íntima-média da artéria carótida e rigidez arterial. Esses achados indicam risco cardiovascular precoce, impulsionado pela combinação de inflamação crônica, resistência insulínica e acúmulo de gordura ectópica.

A hipertensão secundária e a disfunção endotelial tornam-se, portanto, eventos não apenas possíveis, mas frequentes em pacientes dessa faixa etária, exigindo triagem ativa e acompanhamento longitudinal.

Distribuição etária e por sexo

A obesidade pediátrica grave apresenta distribuição heterogênea entre faixas etárias e sexos. Crianças entre dois e cinco anos demonstram prevalência mais baixa, com crescimento progressivo em idades escolares e picos entre adolescentes de 12 a 19 anos. 

Entre os meninos, observa-se aumento em torno dos 10 anos, enquanto as meninas apresentam padrão bimodal, com picos entre 12 e 18 anos, possivelmente relacionados a fatores hormonais. O grupo de 16 a 18 anos representa o segmento com maior prevalência de obesidade extrema, aproximando-se de 2% nessa faixa etária.

Contexto brasileiro: panorama da obesidade pediátrica nacional

No Brasil, o avanço da obesidade pediátrica segue tendência semelhante. Dados nacionais apontam que o excesso de peso afeta mais de 25% dos adolescentes entre cinco e 19 anos, e cerca de 9,5% das crianças menores de cinco anos têm obesidade. Entre 2013 e 2023, o número de internações por complicações da obesidade aumentou em 430%, enquanto os diagnósticos de diabetes tipo 2 cresceram 225% no mesmo período. 

O fenômeno reflete a transição nutricional acelerada, com aumento do consumo de ultraprocessados, sedentarismo e desigualdade no acesso a alimentos saudáveis. Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, concentram os maiores índices, porém o crescimento ocorre em todas as áreas do país, indicando a urgência de ações nacionais integradas.

Estratégias clínicas de rastreamento e estratificação de risco

Diante da complexidade clínica da obesidade pediátrica grave, o rastreamento metabólico sistemático e a correta estratificação de risco são etapas fundamentais para nortear decisões terapêuticas e prognósticas. A identificação precoce de alterações laboratoriais e fenotípicas permite intervenções mais precisas, reduz a progressão de comorbidades e auxilia na definição de encaminhamentos especializados. 

A seguir, são apresentadas as recomendações atuais para investigação metabólica e ferramentas clínicas para avaliação de gravidade e priorização de cuidados.

Avaliação metabólica de rotina recomendada

A triagem clínica deve ser iniciada em todos os pacientes com IMC ≥ percentil 95, com atenção redobrada nos casos classificados como obesidade extrema. Para garantir maior clareza diagnóstica e alinhamento com as diretrizes de avaliação metabólica na obesidade pediátrica, recomenda-se organizar os exames laboratoriais em eixos funcionais.

  • Rastreamento de diabetes tipo 2 e resistência insulínica: glicemia de jejum, insulina basal, cálculo do HOMA-IR e hemoglobina glicada (HbA1c) devem ser solicitados rotineiramente para avaliação da homeostase glicêmica. A presença de valores alterados em múltiplos parâmetros sugere disfunção significativa e justifica intervenções intensificadas.
  • Rastreamento de dislipidemias: o perfil lipídico completo, incluindo colesterol total, HDL-C, LDL-C e triglicerídeos, é crucial para a detecção precoce de alterações lipídicas, altamente prevalentes em adolescentes com obesidade grave.
  • Rastreamento de MASLD (doença hepática associada à disfunção metabólica): a dosagem de ALT e AST constitui o primeiro passo na triagem hepática, com ferritina como marcador adicional para inflamação e risco de fibrose, embora não seja um marcador primário. Em casos com suspeita clínica ou laboratorial de envolvimento hepático, recomenda-se complementação com ultrassonografia abdominal, elastografia hepática e aplicação de escores de fibrose, como o FIB-4 e o NAFLD Fibrosis Score, ajustados para a faixa etária pediátrica.

Além dos exames laboratoriais, a avaliação clínica deve incluir a pesquisa de sinais físicos, como acantose nigricans, aferição da pressão arterial, medida da circunferência abdominal e investigação de história familiar de doenças metabólicas. Casos com FIB-4 elevado, FibroScan ≥ F2 ou relação AST/ALT >1 devem ser encaminhados para avaliação especializada em hepatologia pediátrica

Cabe ressaltar que o seguimento ambulatorial pode variar de três a seis meses para pacientes em uso de farmacoterapia, ou de seis a 12 meses para aqueles sob abordagem conservadora, conforme gravidade e evolução clínica.

Ferramentas de classificação fenotípica

Distinção fenotípica

Diferenciar a obesidade com disfunção metabólica (MDO) da obesidade metabólica saudável (MHO) é relevante para a priorização de recursos terapêuticos intensivos. O fenótipo MDO, predominante na população pediátrica com obesidade grave, é definido pela presença de comorbidades metabólicas, como resistência insulínica grave, dislipidemias, MASLD e hipertensão. 

Já o MHO, embora sem manifestações metabólicas evidentes no momento da triagem, não deve ser considerado isento de risco, exigindo seguimento longitudinal. Essa distinção permite estratificar os pacientes segundo o grau de urgência clínica, favorecendo intervenções escalonadas e evitando abordagens generalistas.

Algoritmos de risco

Ferramentas clínicas, como o FIB-4 e o NAFLD Fibrosis Score, ajustadas para a idade pediátrica, têm se consolidado como instrumentos úteis na estratificação de risco hepático não invasiva. Esses escores, quando elevados, ajudam a identificar precocemente pacientes com suspeita de fibrose hepática significativa, indicando a necessidade de intervenções farmacológicas mais precoces ou encaminhamento especializado para hepatologia, gastroenterologia pediátrica ou cirurgia bariátrica, conforme a gravidade e a resposta terapêutica anterior. A incorporação desses algoritmos à rotina clínica amplia a precisão diagnóstica e contribui para um cuidado mais direcionado e eficiente.

Abordagem terapêutica multidisciplinar e individualizada

O manejo da obesidade pediátrica grave deve ser conduzido por equipe multiprofissional, incluindo endocrinologista pediátrico, nutricionista, educador físico e psicólogo. 

A base do tratamento continua sendo a modificação intensiva do estilo de vida, com foco em alimentação equilibrada, atividade física supervisionada e reeducação familiar. Intervenções comportamentais com 26 horas de contato demonstram redução substancial de IMC e melhora de comorbidades, por exemplo.

Ainda, a farmacoterapia com agonistas de GLP-1, como a semaglutida, pode ser considerada em adolescentes ≥12 anos, com IMC ≥ percentil 95 e pelo menos duas comorbidades, após seis meses de falha terapêutica não farmacológica. A seleção deve seguir critérios rigorosos de segurança, com triagem para histórico de MEN2 e avaliação da função renal. A cirurgia bariátrica, por sua vez, é reservada a casos refratários de obesidade grau III, com avaliação multidisciplinar completa.

Prevenção e políticas públicas: foco em infância e ambiente familiar

A prevenção deve começar o mais cedo possível, com ações direcionadas à gestação e aos primeiros mil dias de vida. As políticas públicas devem reforçar o aleitamento materno, limitar a exposição a alimentos ultraprocessados e assegurar o acesso a refeições saudáveis nas escolas. 

Os programas de educação alimentar e nutricional, somados à capacitação familiar sobre sono, atividade física e uso de telas, também compõem a base da pirâmide preventiva.

Implicações para a prática clínica

De modo geral, a obesidade pediátrica extrema representa um marcador precoce de gravidade metabólica e risco cardiovascular futuro. 

Diante da tendência ascendente e da complexidade clínica envolvida, médicos devem atuar com vigilância ampliada, realizando triagem precoce e encaminhamento oportuno. 

A integração entre unidades de saúde, escolas e políticas públicas será imprescindível para conter o avanço da obesidade em crianças e adolescentes no Brasil, melhorando os números atuais e a saúde populacional. 

Continue aprofundando a sua prática clínica nas mais recentes diretrizes! Confira também nosso conteúdo sobre Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD).

Referências:

Grossman DC, Bibbins-Domingo K, Curry SJ, et al. Screening for obesity in children and adolescents: US Preventive Services Task Force recommendation statement. JAMA. 2017 Jun 20;317(23):2417-2426. doi: 10.1001/jama.2017.6803.

Koebnick C, Smith N, Coleman KJ, Getahun D, Reynolds K, Quinn VP, Porter AH, Der-Sarkissian JK, Jacobsen SJ. Prevalence of extreme obesity in a multiethnic cohort of children and adolescents. J Pediatr. 2010 Jul;157(1):26-31.e2. doi: 10.1016/j.jpeds.2010.01.025. Epub 2010 Mar 19. PMID: 20303506; PMCID: PMC5545973.

Münte E, Zhang X, Khurana A, Hartmann P. Prevalence of Extremely Severe Obesity and Metabolic Dysfunction Among US Children and Adolescents. JAMA Netw Open. 2025;8(7):e2521170. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.21170

Li L, Sun F, Du J, Li Z, Chen T, Shi X. Behavior-change lifestyle interventions for the treatment of obesity in children and adolescents: A scoping review. Ann N Y Acad Sci. 2025 Jan;1543(1):31-41. doi: 10.1111/nyas.15278. Epub 2024 Dec 23. PMID: 39714879; PMCID: PMC11776450.

Cardel MI, Atkinson MA, Taveras EM, Holm JC, Kelly AS. Obesity Treatment Among Adolescents: A Review of Current Evidence and Future Directions. JAMA Pediatr. 2020 Jun 1;174(6):609-617. doi: 10.1001/jamapediatrics.2020.0085. PMID: 32202626; PMCID: PMC7483247.

Spanholi MW, Matsuo LH, Roberto DMT, et al. Trends in the prevalence of obesity, overweight, and thinness among schoolchildren aged 7-14 years from southern Brazil (2002-2019). Am J Hum Biol. 2024 Apr;36(4):e24013. doi: 10.1002/ajhb.24013.

Farias DR, Anjos LA, Berti TL, Alves-Santos NH, Andrade PG, de Freitas MB, Lepsch J, Oliveira N, Lacerda EMA, Carneiro LBV, Schincaglia RM, Normando P, de Castro IRR, Kac G. Prevalence and determinants of wasting and overweight in Brazilian children between 6 and 59 months: Brazilian National Survey on Child Nutrition (ENANI-2019). Br J Nutr. 2025 Mar 14;133(5):674-683. doi: 10.1017/S0007114525000297. Epub 2025 Feb 13. PMID: 39940100.

Preda A, Carbone F, Tirandi A, Montecucco F, Liberale L. Obesity phenotypes and cardiovascular risk: From pathophysiology to clinical management. Rev Endocr Metab Disord. 2023 Oct;24(5):901-919. doi: 10.1007/s11154-023-09813-5. Epub 2023 Jun 26. PMID: 37358728; PMCID: PMC10492705.

Sociedade Brasileira de Pediatria. Departamento Científico de Nutrologia. Manual de avaliação nutricional da criança e do adolescente. 2ª ed. atualizada. São Paulo: SBP; 2021.

The post Aumento expressivo da obesidade pediátrica grave e suas complicações metabólicas appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/aumento-da-obesidade-pediatrica-grave/feed/ 0 4940
Hiperaldosteronismo primário: nova diretriz recomenda maior triagem para hipertensos https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-para-o-hiperaldosteronismo-primario/ https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-para-o-hiperaldosteronismo-primario/#respond Fri, 13 Mar 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5032 O hiperaldosteronismo primário (HAP) é reconhecido como a causa mais prevalente de hipertensão secundária. Atinge entre 5% e 14% dos pacientes na atenção primária, e até 30% nos centros de referência, mantendo-se, no entanto, amplamente subdiagnosticado. Mesmo em pacientes com níveis pressóricos semelhantes aos da hipertensão essencial, o HAP está associado ao maior risco de […]

The post Hiperaldosteronismo primário: nova diretriz recomenda maior triagem para hipertensos appeared first on Blog Sabin.

]]>
O hiperaldosteronismo primário (HAP) é reconhecido como a causa mais prevalente de hipertensão secundária. Atinge entre 5% e 14% dos pacientes na atenção primária, e até 30% nos centros de referência, mantendo-se, no entanto, amplamente subdiagnosticado. Mesmo em pacientes com níveis pressóricos semelhantes aos da hipertensão essencial, o HAP está associado ao maior risco de eventos cardiovasculares, incluindo acidente vascular cerebral, fibrilação atrial, doença arterial coronariana e disfunção renal.

A nova diretriz da Endocrine Society (2025) propõe mudanças significativas no rastreio da condição, recomendando triagem ampliada para todos os hipertensos, sempre que viável, com o intuito de permitir intervenções precoces e específicas. O documento, desenvolvido com base na metodologia GRADE, foca em aplicabilidade clínica, decisões compartilhadas e custo-efetividade.

Continue a leitura para se atualizar sobre a diretriz e as novidades relacionadas.

Importância da triagem ampliada

Historicamente associada à presença de hipocalemia, a triagem para o hiperaldosteronismo primário atual deve ultrapassar esse critério. Segundo a diretriz, a maioria dos pacientes com HAP é normocalêmica, o que reforça a necessidade de triagem mesmo na ausência de alterações do potássio sérico. A recomendação é que todos os indivíduos com hipertensão sejam considerados para triagem, conforme a disponibilidade de recursos e a capacidade assistencial. 

Estudos demonstram que indivíduos com HAP têm risco 2,5 vezes maior de AVC, 3,5 vezes maior de fibrilação atrial e o dobro de risco de doença renal, em comparação aos hipertensos essenciais. Assim, ao permitir o início de terapias direcionadas, sejam farmacológicas ou cirúrgicas, o diagnóstico precoce proporciona melhor controle pressórico, menor carga medicamentosa e redução da morbimortalidade.

Caminho diagnóstico do hiperaldosteronismo primário

De modo geral, o diagnóstico do hiperaldosteronismo primário inicia-se com a dosagem de aldosterona plasmática e atividade de renina, seguida pelo cálculo da razão aldosterona/renina (RAR). A coleta deve ser realizada pela manhã, com o paciente em posição sentada, sem restrição de sódio. 

Um resultado sugestivo inclui aldosterona ≥10 ng/dL com renina suprimida (PRA ≤1 ng/mL/h), e RAR superior a 20 por imunoensaio ou 15 por LC-MS/MS. Nos casos em que a suspeita clínica é intermediária, os testes confirmatórios são recomendados. 

Entre os mais utilizados, estão o teste de supressão com solução salina intravenosa e os testes com furosemida, tanto por via oral quanto intravenosa. Já o teste com captopril, tradicionalmente usado, vem sendo progressivamente abandonado, dada sua menor sensibilidade. É importante notar que a confirmação pode ser dispensada quando há RAR francamente elevada associada à hipocalemia.

Uma vez confirmada a produção autônoma de aldosterona, procede-se à avaliação de imagem, sendo a tomografia das adrenais o exame inicial. Para definir se o quadro é unilateral (potencialmente curável por cirurgia) ou bilateral (tratável com medicação), a amostragem venosa adrenal (AVA) permanece como o padrão-ouro. A exceção fica para pacientes jovens com adenoma típico unilateral e hipocalemia. Em portadores de adenoma adrenal, a realização do teste de supressão com dexametasona 1 mg overnight é indicada para excluir secreção autônoma de cortisol, que pode coexistir com o HAP e influenciar a conduta terapêutica.

Estratégias terapêuticas no HAP confirmado

A conduta terapêutica no HAP deve ser individualizada de acordo com a lateralização da produção de aldosterona e a elegibilidade do paciente para cirurgia.

Nos casos bilaterais ou naqueles em que a cirurgia não é uma opção, a terapia de primeira linha consiste na administração de antagonistas de receptor mineralocorticoide (ARM)

A espironolactona, por exemplo, é amplamente utilizada pela sua eficácia e custo reduzido, embora possa causar efeitos adversos hormonais. Quando há intolerância, pode-se optar por eplerenona ou finerenona, que apresentam maior seletividade pelos receptores mineralocorticoides e menor ação nos receptores de androgênio e progesterona. Durante o tratamento, a elevação da renina plasmática é um marcador útil de eficácia, refletindo bloqueio adequado da ação da aldosterona.

Para pacientes com HAP unilateral confirmado, a adrenalectomia laparoscópica é a abordagem de escolha. No pós-operatório, recomenda-se o monitoramento de cortisol para detecção precoce de insuficiência adrenal transitória.

Abordagens no HAP resistente

Quando a hipertensão persiste mesmo com ARM em doses usuais, o paciente deve ser avaliado quanto à adesão ao tratamento, ingestão de sódio e resposta laboratorial. A diretriz recomenda titulação agressiva dos ARM, respeitando limites de segurança em relação à função renal e ao potássio.

A restrição de sódio (<5 g/dia) deve ser reforçada como parte do manejo, ainda que frequentemente negligenciada. A amilorida, por exemplo, pode ser considerada em situações de contraindicação ao uso de ARM, embora não substitua seu efeito de forma equivalente.

Se, mesmo após essas intervenções, a pressão arterial permanecer elevada, deve-se reavaliar a hipótese de doença adrenal unilateral não previamente detectada e considerar repetição da AVA como parte do estudo diagnóstico.

Monitoramento e seguimento

O seguimento do paciente com hiperaldosteronismo primário é uma etapa fundamental para garantir controle clínico e segurança terapêutica. Orienta-se monitorar pressão arterial, eletrólitos, função renal e renina plasmática após dois a três meses do início ou ajuste da dose de ARM e, então, anualmente.

Durante o tratamento, pode haver uma queda transitória da taxa de filtração glomerular, especialmente em pacientes com hiperfiltração preexistente. Esse achado deve ser interpretado como sinal de bloqueio eficaz da aldosterona, e não como lesão renal aguda.

Após a adrenalectomia, o acompanhamento deve se estender por pelo menos 12 meses, com foco na avaliação da resposta pressórica, eletrólitos, cortisol e sinais de possível recidiva.

Lacunas e perspectivas futuras

Apesar do avanço conceitual e clínico das novas recomendações, algumas lacunas permanecem. Ainda faltam ensaios clínicos randomizados que sustentem com robustez o impacto da triagem universal em desfechos clínicos. Ademais, a falta de padronização da RAR entre diferentes métodos laboratoriais é um desafio técnico que compromete a reprodutibilidade dos resultados.

Há também incertezas quanto aos pontos de corte ideais da RAR em populações especiais, como idosos, pacientes com doença renal crônica ou sob uso de medicamentos que interferem no eixo renina-aldosterona. E, mesmo promissores, os inibidores da aldosterona sintase não estão amplamente disponíveis, carecendo de estudos de longo prazo.

Por fim, a diretriz enfatiza a importância de uma abordagem multidisciplinar, baseada em decisões compartilhadas, e incentiva a pesquisa translacional sobre os mecanismos da secreção autônoma de aldosterona e novas estratégias terapêuticas.

Continue se atualizando! Entenda também sobre o diagnóstico do infarto agudo do miocárdio.

Referências:

Monticone S, Burrello J, Tizzani D, et al. Prevalence and clinical manifestations of primary aldosteronism encountered in primary care practice. J Am Coll Cardiol. 2017;69(14):1811-20. doi:10.1016/j.jacc.2017.01.052.

Hundemer GL, Leung AA, Kline GA, Brown JM, Turcu AF, Vaidya A. Biomarkers to Guide Medical Therapy in Primary Aldosteronism. Endocr Rev. 2024 Jan 4;45(1):69-94. doi: 10.1210/endrev/bnad024. PMID: 37439256; PMCID: PMC10765164.

Adler GK, Stowasser M, Correa RR, et al. Primary aldosteronism: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2025;110(9):2453‑95. doi:10.1210/clinem/dgaf284.

Kobayashi M, Pitt B, Ferreira JP, Rossignol P, Girerd N, Zannad F. Aldosterone-targeted therapies: early implementation in resistant hypertension and chronic kidney disease. Eur Heart J. 2025 Jul 14;46(27):2618-2642. doi: 10.1093/eurheartj/ehaf225. PMID: 40214750; PMCID: PMC12257296.

Yip L, Duh Q, Wachtel H, et al. American Association of Endocrine Surgeons Guidelines for Adrenalectomy: Executive Summary. JAMA Surg. 2022;157(10):870–877. doi:10.1001/jamasurg.2022.3544

The post Hiperaldosteronismo primário: nova diretriz recomenda maior triagem para hipertensos appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-para-o-hiperaldosteronismo-primario/feed/ 0 5032
Vigilância genômica: impacto clínico, laboratorial e epidemiológico https://blog.sabin.com.br/medicos/vigilancia-genomica-na-pratica-clinica/ https://blog.sabin.com.br/medicos/vigilancia-genomica-na-pratica-clinica/#respond Fri, 06 Mar 2026 19:26:26 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5017 A vigilância genômica consolidou-se como uma ferramenta estratégica na medicina contemporânea, com impacto direto na prática clínica, no diagnóstico laboratorial e na vigilância epidemiológica. O avanço das tecnologias de sequenciamento e da bioinformática permitiu que a análise do material genético de patógenos deixasse de ser restrita à pesquisa acadêmica e passasse a integrar, de forma […]

The post Vigilância genômica: impacto clínico, laboratorial e epidemiológico appeared first on Blog Sabin.

]]>
A vigilância genômica consolidou-se como uma ferramenta estratégica na medicina contemporânea, com impacto direto na prática clínica, no diagnóstico laboratorial e na vigilância epidemiológica. O avanço das tecnologias de sequenciamento e da bioinformática permitiu que a análise do material genético de patógenos deixasse de ser restrita à pesquisa acadêmica e passasse a integrar, de forma progressiva, a rotina dos sistemas de saúde.

Nesse cenário, a vigilância genômica se destaca pela capacidade de detectar precocemente variantes de preocupação, monitorar padrões de transmissão, identificar mecanismos de resistência e subsidiar decisões clínicas e sanitárias. A integração entre dados genômicos, informações epidemiológicas e achados clínicos amplia a precisão das estratégias de contenção, racionaliza o uso de terapias e fortalece a resposta a surtos e epidemias. A seguir, exploramos como essa abordagem é estruturada e aplicada na prática clínica.

O que caracteriza a vigilância genômica em saúde?

A vigilância genômica em saúde é caracterizada pela análise sistemática e contínua do material genético de vírus, bactérias e outros microrganismos de interesse clínico e epidemiológico. Diferentemente da testagem diagnóstica convencional, essa abordagem permite acompanhar a evolução genética dos patógenos ao longo do tempo e em diferentes contextos geográficos.

A aplicação transcende a simples detecção de agentes infecciosos, possibilitando o rastreamento de mutações, a reconstrução de cadeias de transmissão e a avaliação do impacto dessas alterações sobre transmissibilidade, virulência, escape imunológico e resposta a tratamentos. Dessa forma, a vigilância genômica se consolida como instrumento indispensável para análise de risco, notificação qualificada e formulação de políticas públicas baseadas em evidências moleculares.

Quais são as etapas técnicas da vigilância genômica?

A implementação da vigilância genômica requer um fluxo técnico estruturado, que integra etapas laboratoriais e analíticas com alto grau de complexidade e padronização.

Fluxo laboratorial

O fluxo analítico inicia-se com a triagem e a seleção de amostras clínicas, geralmente provenientes da rotina diagnóstica, priorizando critérios como carga viral, qualidade da amostra e relevância epidemiológica. Em seguida, realiza-se a extração de RNA ou DNA, conforme o agente investigado, e o preparo de bibliotecas genômicas para sequenciamento.

O sequenciamento pode ser realizado por tecnologias de nova geração (NGS) ou de terceira geração, permitindo a obtenção de genomas completos ou quase completos. A etapa subsequente inclui a análise bioinformática, na qual parâmetros como cobertura genômica, profundidade de leitura e limiar de detecção de variantes impactam diretamente a acurácia dos resultados. A classificação de linhagens e variantes utiliza pipelines padronizados, como Pangolin e Nextclade, e os dados são integrados a plataformas internacionais, como o GISAID.

Requisitos laboratoriais e operacionais

A vigilância genômica demanda infraestrutura laboratorial compatível, usualmente em ambientes de biossegurança nível 2 ou 3, além de equipes especializadas em biologia molecular e bioinformática. A rastreabilidade dos dados, o controle de qualidade interno e a conformidade com diretrizes de organismos internacionais, como OMS e CDC, são requisitos para a confiabilidade das análises.

Adicionalmente, projetos de vigilância genômica requerem governança de dados, interoperabilidade com sistemas de vigilância epidemiológica e capacidade de resposta rápida. Quando aplicável, especialmente em contextos de pesquisa ou vigilância ampliada, é necessária a aprovação por comitês de ética em pesquisa, garantindo conformidade regulatória e segurança jurídica.

Como os dados genômicos apoiam a prática médica?

Os dados gerados pela vigilância genômica oferecem suporte direto à prática médica ao permitir a correlação entre características genéticas dos patógenos e manifestações clínicas observadas. Informações sobre variantes específicas podem ser associadas a alterações na transmissibilidade, no período de incubação e na gravidade dos quadros clínicos.

O conhecimento prévio da variante viral ou do perfil de resistência bacteriana influencia condutas clínicas, como a escolha de antivirais, antibióticos ou terapias com anticorpos monoclonais. Além disso, a vigilância genômica subsidia decisões relacionadas a isolamento hospitalar, manejo de contatos e controle de surtos institucionais, contribuindo para a segurança de pacientes e profissionais de saúde.

Em quais cenários a vigilância genômica é indispensável?

A vigilância genômica torna-se indispensável em contextos nos quais a dinâmica de transmissão e a evolução dos patógenos exigem respostas rápidas e baseadas em evidências moleculares.

Pandemias, epidemias e surtos hospitalares

Durante a pandemia de covid-19, a vigilância genômica viabilizou a detecção em tempo real de variantes como delta e ômicron, orientando ajustes vacinais, políticas de contenção e avaliação de escape imunológico. Esse modelo passou a ser referência para o enfrentamento de futuras emergências sanitárias.

Em ambientes hospitalares, a vigilância genômica desempenha papel central na investigação de surtos nosocomiais, sobretudo aqueles causados por microrganismos multirresistentes. O rastreamento clonal permite identificar fontes de infecção, rotas de disseminação e implementar medidas de contenção mais eficazes.

Doenças endêmicas e emergentes

A aplicação da genômica também é fundamental no monitoramento de doenças endêmicas e emergentes, como arboviroses (dengue, zika e chikungunya), influenza, monkeypox, tuberculose e HIV. A identificação de linhagens virais e bacterianas com maior potencial patogênico ou escape terapêutico contribui para o aprimoramento das estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Qual o papel da vigilância genômica na contenção da resistência antimicrobiana?

A vigilância genômica é uma aliada estratégica no enfrentamento da resistência antimicrobiana, ao facilitar a identificação de genes e elementos móveis associados à resistência, como β-lactamases, carbapenemases e o gene MCR-1. Esses dados fornecem subsídios para a escolha racional de antimicrobianos e para a elaboração de protocolos hospitalares mais eficazes.

O monitoramento molecular contínuo ajuda a prevenir a disseminação de clones epidêmicos multirresistentes, reduzindo impactos clínicos e custos assistenciais, além de apoiar políticas públicas de uso racional de antimicrobianos.

Quem realiza a vigilância genômica no Brasil?

No Brasil, a vigilância genômica é conduzida por uma rede integrada que inclui a Rede Genômica Fiocruz, os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs), o Instituto Adolfo Lutz e universidades. Paralelamente, laboratórios privados têm assumido uma importância cada vez maior nesse ecossistema.

O Sabin Diagnóstico e Saúde, por exemplo, desenvolveu iniciativas de vigilância genômica integradas a dados públicos e privados, com foco em vírus respiratórios e multirresistência. A atuação conjunta com o Instituto Todos Pela Saúde (ITpS) fortalece a centralização, a interoperabilidade e o uso estratégico dos dados genômicos no país.

Quais desafios e perspectivas para o Brasil?

Entre os principais desafios, estão o subfinanciamento, a baixa cobertura de sequenciamento em algumas regiões, a regionalização insuficiente das capacidades laboratoriais e a escassez de profissionais especializados em bioinformática. Superar esses gargalos envolve investimento contínuo e políticas estruturantes.

As perspectivas são promissoras, com a ampliação de redes integradas, o avanço das tecnologias de sequenciamento em tempo real e a consolidação da vigilância genômica como política permanente — não apenas como resposta a períodos pandêmicos.

Por que investir em vigilância genômica?

Investir em vigilância genômica significa impulsionar a soberania sanitária, promover vigilância proativa e avançar na medicina baseada em evidências moleculares. Sua consolidação como rotina assistencial e de saúde pública implica uma integração entre clínica, laboratório, epidemiologia e ciência de dados. Para aprofundar o tema e compreender melhor as aplicações das tecnologias de sequenciamento, acesse nosso conteúdo sobre os exames genéticos por NGS.

Referências:

Matsumura Y, Yamamoto M, Gomi R, Tsuchido Y, Shinohara K, Noguchi T, Nagao M. Integrating whole-genome sequencing into antimicrobial resistance surveillance: methodologies, challenges, and perspectives. Clin Microbiol Rev. 2025 Dec 11;38(4):e0014022. doi: 10.1128/cmr.00140-22. Epub 2025 Dec 11. PMID: 40910632; PMCID: PMC12697206.

Bludau A, Jack A, Fischer N, Dreesman J, Drosten C, Egelkamp R, Ehlkes L, Feil F, Grundhoff A, Grundmann H, Kreuzer P, Monazahian M, Overesch I, Schmitt D, Tröger M, von Reiswitz A, Weber J, Dilthey A, Hornberg C, Reuter S, Scheithauer S. Use of integrated genomic surveillance by local public health authorities: Recommendations based on a mixed-methods study of current adoption, applications and success factors, Germany, 2023. Euro Surveill. 2025 Apr;30(13):2400508. doi: 10.2807/1560-7917.ES.2025.30.13.2400508. PMID: 40183123; PMCID: PMC11969963.

Armstrong GL, MacCannell DR, Taylor J, Carleton HA, Neuhaus EB, Bradbury RS, et al. Pathogen genomics in public health. N Engl J Med. 2019;381(26):2569–2580. doi:10.1056/NEJMra1816168.

Baker KS, Jauneikaite E, Hopkins KL, Lo SW, Sánchez-Busó L, Getino M, Howden BP, Holt KE, Musila LA, Hendriksen RS, Amoako DG, Aanensen DM, Okeke IN, Egyir B, Nunn JG, Midega JT, Feasey NA, Peacock SJ; SEDRIC Genomics Surveillance Working Group. Genomics for public health and international surveillance of antimicrobial resistance. Lancet Microbe. 2023 Dec;4(12):e1047-e1055. doi: 10.1016/S2666-5247(23)00283-5. Epub 2023 Nov 14. PMID: 37977162.

Tosta S, Moreno K, Schuab G, Fonseca V, Segovia FMC, Kashima S, Elias MC, Sampaio SC, Ciccozzi M, Alcantara LCJ, Slavov SN, Lourenço J, Cella E, Giovanetti M. Global SARS-CoV-2 genomic surveillance: What we have learned (so far). Infect Genet Evol. 2023 Mar;108:105405. doi: 10.1016/j.meegid.2023.105405. Epub 2023 Jan 18. PMID: 36681102; PMCID: PMC9847326.

Robishaw JD, Alter SM, Solano JJ, Shih RD, DeMets DL, Maki DG, Hennekens CH. Genomic surveillance to combat COVID-19: challenges and opportunities. Lancet Microbe. 2021 Sep;2(9):e481-e484. doi: 10.1016/S2666-5247(21)00121-X. Epub 2021 Jul 27. PMID: 34337584; PMCID: PMC8315763.

Akande OW, Carter LL, Abubakar A, Achilla R, Barakat A, Gumede N, et al. Strengthening pathogen genomic surveillance for health emergencies: insights from the World Health Organization’s regional initiatives. Front Public Health. 2023;11:1146730. doi:10.3389/fpubh.2023.1146730. PMID:37361158.

The post Vigilância genômica: impacto clínico, laboratorial e epidemiológico appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/vigilancia-genomica-na-pratica-clinica/feed/ 0 5017
Vacinação contra HPV reduz casos de câncer de colo de útero no Brasil https://blog.sabin.com.br/medicos/hpv-vacinacao-reduz-cancer-de-colo-de-utero/ https://blog.sabin.com.br/medicos/hpv-vacinacao-reduz-cancer-de-colo-de-utero/#respond Fri, 27 Feb 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=4994 Um estudo brasileiro publicado na revista científica The Lancet Global Health reforça a eficácia da vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) como estratégia de prevenção primária ao câncer de colo de útero.  A análise demonstrou redução de até 58% na incidência da doença em mulheres vacinadas na adolescência, além de queda de 67% nas lesões […]

The post Vacinação contra HPV reduz casos de câncer de colo de útero no Brasil appeared first on Blog Sabin.

]]>
Um estudo brasileiro publicado na revista científica The Lancet Global Health reforça a eficácia da vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) como estratégia de prevenção primária ao câncer de colo de útero. 

A análise demonstrou redução de até 58% na incidência da doença em mulheres vacinadas na adolescência, além de queda de 67% nas lesões intraepiteliais cervicais de alto grau (NIC3). O estudo analisou registros referentes a dados de mais de 60 milhões de mulheres ao ano, trazendo, pela primeira vez, evidências de um país em desenvolvimento, que ratificam o impacto positivo da vacinação já evidenciado em países de alta renda.

A faixa etária avaliada no estudo (20 a 24 anos) não corresponde ao público-alvo habitual dos programas de rastreamento. No entanto, os efeitos protetores observados nessa população corroboram a relevância da imunização em faixas etárias mais precoces, especialmente entre nove e 14 anos, quando o organismo apresenta resposta imunológica mais robusta e duradoura. Essa evidência coloca a vacinação como ferramenta indispensável na prevenção do câncer cervical, sobretudo se iniciada precocemente, com resposta imune mais eficiente no início da adolescência. 

A eficácia na redução das lesões cervicais de alto grau, após a implantação do programa de vacinação no Brasil evidenciada pelo estudo, foi semelhante à obtida na Suécia para mulheres vacinadas em idade semelhante. Contudo, o impacto foi menos pronunciado do que a redução observada no programa da Inglaterra, onde maiores coberturas vacinais foram alcançadas. Nesse contexto, ressalta-se o papel estratégico das equipes de saúde na recomendação ativa da vacina, na abordagem das barreiras socioculturais e na promoção de práticas preventivas com base em evidências.

Estudo brasileiro mostra impacto direto da vacinação na incidência do câncer cervical

A pesquisa analisou dados nacionais do Sistema Único de Saúde (SUS), coletados entre 2019 e 2023, a partir de diversas fontes, como registros de internação hospitalar, ambulatoriais e de tratamento oncológico (APAC/Oncologia). Foram comparadas duas coortes de mulheres: nascidas entre 1994 e 1998 (pré-vacinação); e entre 2001 e 2003 (pós-vacinação).

O estudo identificou uma redução de 58% nos casos de câncer cervical invasivo e de 67% nas lesões precursoras de alto grau (NIC3) entre as mulheres vacinadas. A metodologia incluiu análises de sensibilidade para confirmar a consistência dos achados, que se mostraram robustos mesmo quando ajustados para diferentes fontes de informação e desfechos clínicos. Trata-se do primeiro estudo nacional em larga escala que demonstra, com base em dados reais, a efetividade da vacinação contra o HPV na população.

Gardasil® utilizada no PNI brasileiro

A vacina contra o HPV utilizada pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) desde 2014 é a Gardasil® quadrivalente, que protege contra os subtipos 6, 11, 16 e 18. Os tipos 16 e 18, de alto risco oncogênico, são responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo uterino. 

O esquema recomendado atualmente é de dose única para jovens de nove a 14 anos, conforme recomendação feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2022, adotada também em diversos países. Para grupos específicos, como pessoas vivendo com HIV, vítimas de violência sexual e pacientes com papilomatose respiratória recorrente, o esquema permanece em três doses.

Diversos estudos nacionais e internacionais confirmam a eficácia da Gardasil®, de modo geral, a vacina apresenta um perfil de segurança bem estabelecido, com eventos adversos geralmente leves, como dor local e febre transitória. A farmacovigilância brasileira segue monitorando rigorosamente os dados de segurança e eventos relacionados à aplicação.

Gardasil® disponível no Sabin

O Sabin Diagnóstico e Saúde oferece uma versão ampliada da vacina, a Gardasil 9®, que abrange nove subtipos do vírus (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), incluindo os que mais frequentemente estão associados ao desenvolvimento do câncer de colo de útero, além de outros tipos de câncer, como os de vulva, vagina, ânus e pênis, e verrugas genitais. 

É indicada para mulheres e homens de nove a 45 anos, e o número de doses e intervalos é recomendado de acordo com a idade do paciente e histórico de imunização.

Vacinação precoce: prevenção primária antes da triagem

A vacinação contra o HPV tem sua máxima efetividade quando realizada antes da exposição ao vírus, o que justifica a indicação para adolescentes de nove a 14 anos. Nesse grupo etário, observa-se melhor padrão de resposta imunológica.

O estudo brasileiro citado anteriormente demonstrou impacto significativo da vacinação mesmo antes da faixa etária convencional de triagem, enfatizando a importância da prevenção primária. A imunização no início da adolescência representa uma estratégia promissora para diminuir a incidência e a mortalidade por câncer cervical.

Desigualdades regionais e desafios da cobertura vacinal

A grande extensão territorial do país, as diferentes taxas de urbanização, as desigualdades socioeconômicas, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde, entre outros fatores sociais, contribuem para cenários distintos entre as regiões brasileiras. Essa heterogeneidade reflete diretamente na adesão da vacinação contra o HPV.

Por essa razão, estratégias de busca ativa, campanhas locais, parcerias com escolas e ações comunitárias são essenciais para ampliar o alcance da vacinação, principalmente em áreas de maior vulnerabilidade.

Vale destacar que políticas públicas consideram essas disparidades ao definir metas e distribuir recursos, visando não apenas à cobertura nacional, mas à equidade sanitária.

Resistência à vacina contra o HPV é uma barreira que precisa ser superada

Desde a introdução da vacina contra o HPV no Brasil, em 2014, a hesitação vacinal tem sido um obstáculo à cobertura ideal. Isso está relacionado a fatores culturais, percepções sobre a sexualidade na adolescência, crenças religiosas e à circulação de informações imprecisas, que ainda influenciam a decisão de muitos pais.

A literatura evidencia que profissionais de saúde continuam sendo as principais fontes confiáveis para famílias e adolescentes, com impacto direto na adesão ao calendário vacinal. Sendo assim, a abordagem empática, baseada em evidências, é uma estratégia importante para superar barreiras e esclarecer dúvidas de maneira ética e responsável.

Algumas campanhas do Ministério da Saúde (MS) têm buscado mitigar a desinformação, sendo os profissionais de saúde protagonistas no enfrentamento da resistência à vacina, particularmente nos cenários de maior proximidade com a comunidade — como o ambiente escolar e as unidades básicas de saúde.

O protagonismo dos profissionais da saúde na eliminação do câncer cervical

A OMS estabeleceu uma meta ambiciosa para a eliminação do câncer de colo de útero como problema de saúde pública até 2030, baseada em três pilares:

  • 90% das meninas vacinadas até os 15 anos;
  • 70% das mulheres triadas com um teste de alta performance até os 35 anos e novamente até os 45 anos;
  • 90% das precursoras e das lesões invasivas tratadas oportunamente.

Mas para que esse objetivo seja alcançado, faz-se necessário uma atuação coordenada e intersetorial entre médicos de diferentes especialidades. Além disso, a articulação entre autoridades e profissionais de saúde e a sociedade é crucial para consolidar a vacinação como uma ferramenta acessível, eficaz e segura na proteção das próximas gerações, garantindo, assim, o cumprimento das metas estabelecidas pela OMS.

Continue aprofundando seu conhecimento sobre rastreamento e genética aplicada ao câncer: leia sobre a utilidade dos testes genéticos para o câncer.

Referências:

Pan American Health Organization (PAHO). End cervical cancer [Internet]. Washington, D.C.: PAHO; c2023 [cited 2025 Nov 14]. Available from: https://www.paho.org/en/end-cervical-cancer

Cerqueira-Silva T, Barral-Netto M, Boaventura VS, et al. Effect of Brazil’s national human papillomavirus vaccination programme on the incidence of cervical cancer and cervical intraepithelial neoplasia grade 3 in women aged 20–24 years: a population-based study. Lancet Glob Health. 2025;11(10):e1715–22.

The post Vacinação contra HPV reduz casos de câncer de colo de útero no Brasil appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/hpv-vacinacao-reduz-cancer-de-colo-de-utero/feed/ 0 4994
Diagnóstico domiciliar da apneia do sono com Biologix® https://blog.sabin.com.br/medicos/diagnostico-da-apneia-do-sono-com-biologix/ https://blog.sabin.com.br/medicos/diagnostico-da-apneia-do-sono-com-biologix/#respond Fri, 13 Feb 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=4971 A apneia do sono é um distúrbio respiratório comum e amplamente subdiagnosticado, com estimativas que apontam prevalência de até 17% entre adultos de meia-idade. Os episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono comprometem a oxigenação e afetam profundamente a qualidade do sono e a saúde geral. Apesar da […]

The post Diagnóstico domiciliar da apneia do sono com Biologix® appeared first on Blog Sabin.

]]>
A apneia do sono é um distúrbio respiratório comum e amplamente subdiagnosticado, com estimativas que apontam prevalência de até 17% entre adultos de meia-idade. Os episódios recorrentes de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono comprometem a oxigenação e afetam profundamente a qualidade do sono e a saúde geral.

Apesar da alta prevalência, o diagnóstico da apneia do sono ainda enfrenta diversas barreiras logísticas e clínicas. A polissonografia convencional, método padrão-ouro para diagnóstico, é limitada por alta demanda, custos e necessidade de realização em ambiente laboratorial. Esse cenário favorece a subnotificação, o atraso no início do tratamento e a piora das comorbidades associadas.

O Biologix® representa uma inovação tecnológica voltada ao diagnóstico domiciliar da apneia do sono, por meio de um sensor vestível, totalmente sem fio, conectado a um aplicativo móvel. Um dos diferenciais do Sabin é disponibilizar o exame pela venda via e-commerce, com um modelo logístico que inclui entrega e retirada do dispositivo diretamente na residência do paciente. A solução, inicialmente disponível para moradores de Brasília/DF, oferece maior comodidade, praticidade e adesão ao rastreamento da apneia, sem necessidade de pedido médico.

Para conhecer mais sobre como essa tecnologia pode otimizar o rastreamento da apneia do sono em sua prática clínica, siga a leitura e aprofunde-se nos critérios de indicação, dados fornecidos pelo exame e aplicabilidades do Biologix®.

A apneia do sono e seu impacto clínico

A apneia do sono é definida pela cessação ou redução do fluxo aéreo durante o sono, geralmente associada à queda da saturação de oxigênio e microdespertares. A seguir, sua classificação.

  • Apneia obstrutiva do sono (AOS): causada por colapso das vias aéreas superiores.
  • Apneia central: falha na ativação neuromuscular da respiração.
  • Apneia mista: combinação de fatores obstrutivos e centrais.

A fisiopatologia envolve aumento da resistência das vias aéreas, redução do tônus muscular faríngeo e hipersensibilidade dos quimiorreceptores. Essas alterações promovem hipoxemia intermitente, fragmentação do sono e ativação simpática.

Entre os principais fatores de risco para a AOS, estão obesidade — presente em até 90% dos casos —, idade acima de 40 anos, sexo masculino, além de alterações anatômicas, como retrognatia e hipertrofia de amígdalas ou adenoides. Também se destacam o histórico familiar e síndromes genéticas, como síndrome de Down e acromegalia. O subdiagnóstico é preocupante, já que muitos pacientes não relatam sintomas clássicos ou não os associam ao sono. 

Os sintomas mais comuns incluem sonolência diurna excessiva, fadiga crônica, déficit cognitivo, cefaleia matinal e ronco intenso. Por isso, a identificação precoce desses sinais é importante para reduzir o risco de complicações cardiovasculares, metabólicas e neuropsiquiátricas, que frequentemente acompanham a evolução da doença.

Comorbidades associadas à apneia do sono: do risco metabólico ao impacto cardiovascular

A apneia do sono está fortemente associada a diversas comorbidades que afetam múltiplos sistemas do organismo. As mais relevantes são as doenças metabólicas — como obesidade, diabetes tipo 2, dislipidemias e síndrome metabólica — e as doenças cardiovasculares, incluindo hipertensão arterial sistêmica, insuficiência cardíaca congestiva, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e arritmias. A intermitência hipóxica, típica dos episódios de apneia, associada à ativação autonômica crônica, induz alterações hemodinâmicas, inflamatórias e metabólicas, que favorecem o surgimento e a progressão desses quadros clínicos.

Em idosos, por exemplo, a apneia do sono está usualmente relacionada à presença de arritmias cardíacas e insuficiência cardíaca. Já em adultos jovens, a condição contribui para o desenvolvimento precoce de hipertensão arterial e disfunções metabólicas. 

Existe, ainda, uma associação consolidada com transtornos psiquiátricos, especialmente depressão, ansiedade e dificuldades de atenção e concentração, o que agrava ainda mais o impacto funcional da doença. No público pediátrico, observa-se a presença de distúrbios do neurodesenvolvimento, hipertrofia adenotonsilar, déficit de crescimento e, em casos mais severos, hipertensão pulmonar. Esse amplo espectro de comorbidades reforça a importância da identificação e do manejo precoce da apneia do sono como medida estratégica de prevenção de desfechos clínicos graves e redução da carga assistencial.

Biologix®: tecnologia e parâmetros avaliados

O Biologix® é um exame inovador, baseado em tecnologia vestível, que realiza uma polissonografia simplificada de forma totalmente domiciliar e sem fios. O paciente recebe em casa um sensor digital a ser utilizado no dedo durante o sono, por no mínimo 4 horas, em conexão com um smartphone com internet via aplicativo exclusivo.

A análise contempla diversos parâmetros essenciais para diagnóstico e acompanhamento, os quais incluem:

  • Oximetria de pulso (SpO2).
  • Índice de dessaturação de oxigênio (IDO).
  • Carga hipóxica.
  • Análise do ronco.
  • Sono estimado.
  • Frequência cardíaca.
  • Gráfico de movimentação.
  • Índice de hipoxemia.

A robustez dos dados permite não apenas o diagnóstico preciso da apneia obstrutiva do sono, mas também o monitoramento longitudinal da resposta ao tratamento, sendo ideal para seguimento de pacientes em uso de CPAP, sob intervenção cirúrgica ou em processo de emagrecimento.

Benefícios clínicos do Biologix® para médico e paciente

A adoção do Biologix® na prática médica traz vantagens valiosas em termos de logística assistencial e adesão ao diagnóstico. Trata-se de um exame 100% domiciliar, em que o paciente agenda a realização, recebe o sensor em sua residência e é orientado presencialmente por um profissional do Sabin sobre o uso correto do dispositivo. 

Todo o processo é conduzido com o apoio do aplicativo Biologix®, que fornece orientações detalhadas, possibilita o preenchimento dos dados clínicos e o acompanhamento do exame em tempo real, conferindo mais autonomia ao paciente. Outro diferencial é que, após o uso, o sensor não precisa ser devolvido fisicamente, pois a própria equipe do Sabin realiza a retirada do dispositivo no dia seguinte, de forma prática e segura.

Esses elementos contribuem para a eliminação de barreiras logísticas típicas da polissonografia convencional, como a necessidade de deslocamento até clínicas especializadas e as restrições para agendamento. Isso se traduz em maior agilidade diagnóstica, permitindo que o tratamento seja iniciado mais precocemente, com impacto direto no controle da apneia e na melhora do prognóstico clínico. Além disso, a escalabilidade do modelo viabiliza a aplicação do Biologix® em estratégias de rastreio populacional, contribuindo para a medicina personalizada e para a prevenção de desfechos clínicos adversos ligados à apneia do sono.

Quando indicar o exame Biologix® na prática clínica?

O exame Biologix® pode ser indicado em diversas situações clínicas. É particularmente útil diante da suspeita de apneia do sono em pacientes que apresentam sintomas como ronco habitual, sonolência diurna excessiva, fadiga persistente e cefaleia matinal. Também pode ser empregado na avaliação da resposta terapêutica após intervenções como uso de CPAP, cirurgias ou mudanças significativas de peso corporal

Outra indicação é o rastreamento em pacientes com hipertensão arterial resistente ao tratamento, obesidade ou presença de síndrome metabólica, considerando a forte associação entre esses quadros clínicos e a apneia obstrutiva do sono.

Um aspecto que amplia seu alcance é o fato de o exame poder ser realizado mesmo sem solicitação médica formal, o que favorece a triagem precoce de casos moderados e graves, que, de outro modo, poderiam permanecer sem diagnóstico. No entanto, é preciso ressaltar que o Biologix® não substitui a polissonografia completa em contextos clínicos mais complexos, como em suspeitas de apneia central, presença de doenças neuromusculares ou de patologias pulmonares crônicas. Nesses casos, a avaliação especializada por médico do sono é imprescindível. 

Considerações éticas, segurança e termo de responsabilidade

A realização do Biologix® envolve assinatura de termo de responsabilidade, no qual o paciente se compromete com o uso adequado e a devolução do equipamento em bom estado.

Na entrega do sensor, a equipe Sabin fornece instruções presenciais detalhadas, além de disponibilizar suporte remoto.

Todos os dados clínicos são tratados com sigilo, proteção e adequação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), garantindo segurança e confidencialidade.

O futuro com a tecnologia no diagnóstico de distúrbios do sono

A medicina moderna caminha para modelos assistenciais mais digitais, acessíveis e personalizados. Assim, o diagnóstico domiciliar de distúrbios do sono, como o proporcionado pelo Biologix®, representa um avanço substancial.

A combinação entre tecnologia vestível, conectividade e algoritmos robustos de análise promove maior acesso ao diagnóstico precoce, reduz fila de espera e favorece uma abordagem centrada no paciente, sobretudo em doenças crônicas e de alta prevalência.

Plataformas como o Biologix® reforçam o papel da inovação tecnológica no cuidado em saúde e estabelecem novos paradigmas para a prática clínica baseada em dados. Quer se atualizar sobre outras soluções digitais para a sua prática médica? Acesse: Conheça a nova plataforma tecnológica do Sabin.

Referências:

Park DY, Kim JS, Park B, Kim HJ. Risk factors and clinical prediction formula for the evaluation of obstructive sleep apnea in Asian adults. PLoS One. 2021 Feb 2;16(2):e0246399. doi: 10.1371/journal.pone.0246399. PMID: 33529265; PMCID: PMC7853448.

Hua-Huy T, Rouhani S, Nguyen XY, Luchon L, Meurice JC, Dinh-Xuan AT. Cardiovascular comorbidities in obstructive sleep apnoea according to age: a sleep clinic population study. Aging Clin Exp Res. 2015 Oct;27(5):611-9. doi: 10.1007/s40520-015-0318-3. Epub 2015 Jan 25. PMID: 25618197.

Veasey SC, Rosen IM. Obstructive sleep apnea in adults. N Engl J Med. 2019 Apr 10;380(15):1442-1449. doi:10.1056/NEJMcp1816152.

The post Diagnóstico domiciliar da apneia do sono com Biologix® appeared first on Blog Sabin.

]]>
https://blog.sabin.com.br/medicos/diagnostico-da-apneia-do-sono-com-biologix/feed/ 0 4971