Blog Sabin https://blog.sabin.com.br/ Conhecimento aliado ao bem-estar Wed, 15 Apr 2026 19:32:39 +0000 pt-BR hourly 1 https://blog.sabin.com.br/wp-content/uploads/2025/10/cropped-03_simbolo-vermelho-1-32x32.png Blog Sabin https://blog.sabin.com.br/ 32 32 Carga global de câncer: análise das projeções e desafios até 2050 https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/ https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/#respond Fri, 17 Apr 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5133 A oncologia mundial enfrenta um cenário de transformações profundas e desafios estruturais que demandam a reavaliação das estratégias assistenciais. Dados consolidados da atualização do Global Burden of Disease (GBD) 2023 oferecem uma visão padronizada da magnitude e das tendências da especialidade em escala global, permitindo uma compreensão técnica sobre a evolução da carga da doença. […]

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A oncologia mundial enfrenta um cenário de transformações profundas e desafios estruturais que demandam a reavaliação das estratégias assistenciais. Dados consolidados da atualização do Global Burden of Disease (GBD) 2023 oferecem uma visão padronizada da magnitude e das tendências da especialidade em escala global, permitindo uma compreensão técnica sobre a evolução da carga da doença.

O câncer persiste de forma inequívoca como a segunda principal causa de morte no mundo, apresentando um crescimento expressivo no número absoluto de diagnósticos e óbitos registrados desde o início da série histórica em 1990. 

Esse fenômeno não é aleatório; as mudanças demográficas contemporâneas, centradas no envelhecimento e no crescimento populacional, atuam como os principais vetores das projeções para as próximas décadas. Compreender a dinâmica é importante para o planejamento de longo prazo na medicina de precisão e na saúde pública. 

Continue a leitura para analisar as projeções de mortalidade e o impacto das disparidades globais no cenário oncológico.

Transição demográfica e o incremento na mortalidade absoluta

As projeções epidemiológicas indicam um cenário de pressão crescente sobre os sistemas de saúde. Estima-se que, em 2050, o mundo registre aproximadamente 18,6 milhões de óbitos anuais por câncer. Valor que representa um crescimento alarmante de 74,5% em comparação aos índices observados em 2024. 

O salto quantitativo está intrinsecamente ligado à transição demográfica, na qual a maior longevidade expõe a população por períodos mais prolongados a agentes carcinogênicos e processos de senescência celular que favorecem a oncogênese.

O paradoxo das taxas padronizadas por idade

Ao analisar a carga da doença, observa-se um fenômeno estatístico relevante: existe uma redução marginal de 5,6% nas taxas de mortalidade padronizadas por idade. No entanto, essa queda percentual é insuficiente para mitigar o aumento real da carga absoluta impulsionado pela longevidade populacional.

Na prática clínica, isso significa que, embora o manejo individual possa estar evoluindo, o volume total de pacientes terminais e casos complexos continuará a expandir-se. Esse descompasso global evidencia a dificuldade em atingir a meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU): reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis até o ano de 2030.

Disparidades na carga global de câncer e o impacto do IDH

A distribuição da carga oncológica não é uniforme e revela abismos profundos baseados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Enquanto países de alta renda projetam o aumento de 42,8% na mortalidade por câncer, as nações de baixa e média renda enfrentam uma perspectiva muito mais severa, com um crescimento crítico esperado de 90,6%. Essa disparidade acentua a necessidade de políticas de rastreio e tratamento que considerem as limitações econômicas regionais.

A criticidade da razão de mortalidade/incidência (MIR)

A razão de mortalidade/incidência (MIR) serve como um indicador fidedigno da eficácia dos sistemas de saúde. Uma MIR elevada em países de baixo IDH reflete diretamente o déficit estrutural no acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos oncológicos de ponta. 

A vulnerabilidade das populações residentes em áreas com infraestrutura limitada é evidente, prevendo-se que o número de óbitos oncológicos nessas regiões quase triplique nas próximas décadas. Para o médico, esses dados reforçam a urgência de estratégias que transcendam o tratamento hospitalar, focando na equidade do acesso tecnológico.

Perfis epidemiológicos de risco e grupos vulneráveis

A análise detalhada dos grupos afetados revela que a carga de mortalidade é significativamente maior entre homens e na população idosa, com foco especial em indivíduos com 75 anos ou mais. Esse perfil demográfico requer um olhar clínico diferenciado, voltado para a gestão de multimorbidades e fragilidades inerentes ao envelhecimento. 

Além dos fatores biológicos e demográficos, a influência de fatores de risco potencialmente modificáveis permanece como um pilar da oncologia moderna. O tabagismo e o consumo de álcool continuam a exercer um papel preponderante na composição da carga oncológica contemporânea, exigindo intervenções de prevenção primária rigorosas no nível ambulatorial.

O papel do médico no rastreio e estratégias de enfrentamento

Diante das projeções de envelhecimento populacional, torna-se imperativa uma abordagem clínica proativa que conecte a prevenção primária ao diagnóstico precoce. O médico deve utilizar os dados do GBD 2023 para orientar a definição de prioridades assistenciais e o manejo personalizado de pacientes de alto risco, otimizando o uso de recursos diagnósticos e terapêuticos. O foco deve migrar da medicina meramente reativa para uma medicina preditiva e preventiva.

Genômica e painéis genéticos na medicina preventiva

Nesse contexto de antecipação diagnóstica, a genômica assume a função de protagonista. A utilidade dos testes genéticos reside na identificação de variantes patogênicas germinativas, o que permite o rastreamento individualizado muito antes do surgimento de qualquer sinal clínico da doença. 

O emprego de painéis de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) é fundamental para a detecção de síndromes de predisposição hereditária, como as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, além da síndrome de Lynch. A integração da genômica na prática clínica cotidiana possibilita o refinamento do prognóstico e a seleção de terapias alvo-específicas, mitigando de forma substancial o impacto da carga oncológica futura. 

Para aprofundar seu conhecimento sobre as aplicações práticas dessas tecnologias, leia mais sobre a utilidade dos testes genéticos para o câncer.

Referências:

GBD 2023 Cancer Collaborators. The global, regional, and national burden of cancer, 1990-2023, with forecasts to 2050: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. Lancet. 2025 Oct 11;406(10512):1565-1586. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01635-6. Epub 2025 Sep 24. PMID: 41015051; PMCID: PMC12687902.

Shah R, Battisti NML, Brain E, Gnangnon FHR, Kanesvaran R, Mohile S, Noronha V, Puts M, Soto-Perez-de-Celis E, Pilleron S. Updated cancer burden in oldest old: A population-based study using 2022 Globocan estimates. Cancer Epidemiol. 2025 Apr;95:102716. doi: 10.1016/j.canep.2024.102716. Epub 2024 Nov 26. PMID: 39603975.

Bizuayehu HM, Ahmed KY, Kibret GD, et al. Global Disparities of Cancer and Its Projected Burden in 2050. JAMA Netw Open. 2024;7(11):e2443198. doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.43198

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Convulsão: entenda as causas e saiba como agir com segurança https://blog.sabin.com.br/saude/convulsao-o-que-e-causas-e-como-agir-com-seguranca/ https://blog.sabin.com.br/saude/convulsao-o-que-e-causas-e-como-agir-com-seguranca/#respond Tue, 14 Apr 2026 17:55:28 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5127 A convulsão é definida como uma atividade elétrica anormal, excessiva e transitória dos neurônios cerebrais. Esse fenômeno ocorre quando há uma desordem elétrica temporária no cérebro, funcionando como um “curto-circuito” que interrompe o funcionamento habitual do sistema nervoso. Os episódios convulsivos apresentam uma gama variada de manifestações clínicas, que podem incluir desde movimentos involuntários bruscos […]

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A convulsão é definida como uma atividade elétrica anormal, excessiva e transitória dos neurônios cerebrais. Esse fenômeno ocorre quando há uma desordem elétrica temporária no cérebro, funcionando como um “curto-circuito” que interrompe o funcionamento habitual do sistema nervoso. Os episódios convulsivos apresentam uma gama variada de manifestações clínicas, que podem incluir desde movimentos involuntários bruscos e rigidez muscular acentuada até alterações sutis, e quase imperceptíveis, do nível de consciência.

É importante estabelecer a distinção entre um episódio único de convulsão e o diagnóstico de epilepsia. Nem todo indivíduo que apresenta um episódio convulsivo isolado é portador de uma doença crônica; a crise pode ser um evento reativo a um insulto agudo ao sistema nervoso ou a um desequilíbrio metabólico temporário. 

Compreender essas nuances é o primeiro passo para garantir que o suporte adequado seja oferecido no momento da crise. Entenda como identificar os tipos de crise, as origens e o protocolo de segurança.

Identificando os tipos de crise e as origens

A classificação das crises convulsivas é determinada pela forma como a atividade elétrica anormal se inicia e se propaga no parênquima cerebral. As crises de início focal são aquelas em que a descarga elétrica permanece restrita a uma rede neural localizada em apenas um hemisfério cerebral. Já as crises de início generalizado envolvem, desde o princípio, os dois hemisférios de forma simultânea, resultando frequentemente na perda imediata da consciência.

Entre as manifestações mais conhecidas, está a crise tônico-clônica, geralmente associada ao termo popular “convulsão”. Esse tipo de evento é caracterizado por duas fases distintas: a fase tônica, marcada pela rigidez muscular súbita e generalizada; e a fase clônica, composta por movimentos rítmicos e repetitivos de contração e relaxamento (tremores)

Identificar o padrão do movimento é um fator crucial para o relato médico posterior, auxiliando na precisão diagnóstica.

Por que uma convulsão acontece?

A ocorrência de uma convulsão pode ser atribuída a seis categorias principais de etiologias, conforme a classificação clínica.

  • Genéticas: predisposição hereditária que altera o limiar convulsivo.
  • Estruturais: decorrentes de lesões físicas, como traumatismos cranianos, tumores cerebrais ou sequelas de acidentes vasculares cerebrais.
  • Metabólicas: alterações químicas sistêmicas, sendo a hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) um exemplo comum.
  • Infecciosas: processos inflamatórios no sistema nervoso central, como a meningite.
  • Imunológicas: quando o próprio sistema de defesa ataca células cerebrais.
  • Desconhecidas: a causa primária não é identificada mesmo após investigação exaustiva.

Além das causas estruturais ou patológicas, existem fatores externos que atuam como gatilhos, “disparando” crises em indivíduos predispostos. A privação prolongada de sono, a abstinência ou o consumo excessivo de álcool, e o uso de determinados medicamentos que reduzem o limiar convulsivo são desencadeadores que exigem atenção e manejo preventivo.

Guia de primeiros socorros: o que fazer e o que evitar

Diante de um episódio convulsivo, a prioridade absoluta de quem presta socorro deve ser a manutenção da segurança física da pessoa, evitando traumas secundários durante os movimentos involuntários. Manter a calma é indispensável para executar as manobras de proteção de forma eficaz, até que a atividade elétrica cerebral se estabilize.

Passo a passo para o atendimento seguro

O atendimento inicial deve focar em minimizar riscos ambientais. O primeiro passo consiste em proteger a cabeça da pessoa, utilizando algo macio (como uma peça de roupa) para evitar o impacto contra o solo. Deve-se afastar qualquer objeto perigoso, cortante ou duro que esteja ao redor. 

Um ponto relevante é marcar o tempo de duração da crise, pois essa informação é útil para determinar a gravidade do evento. Existem erros comuns, motivados por mitos populares, que podem ser fatais ou causar lesões graves. Confira abaixo.

  • Nunca coloque objetos na boca: moedas, colheres ou panos podem causar asfixia ou quebra de dentes.
  • Não tente segurar a língua: é fisicamente impossível “enrolar a língua” a ponto de engoli-la, e tentar puxá-la pode resultar em mordeduras graves para o socorrista e para o paciente.
  • Não restrinja os movimentos: segurar a pessoa com força para interromper os tremores pode causar fraturas ou luxações.

Após o término das contrações musculares, deve-se colocar a pessoa na “posição de recuperação”, deitando-a de lado. Essa manobra é necessária para garantir que as vias aéreas permaneçam desobstruídas, permitindo a drenagem de saliva ou vômito e facilitando a respiração.

Quando a situação se torna uma emergência médica?

Embora a maioria das crises terminam espontaneamente em poucos minutos, certas situações requerem o acionamento imediato do serviço de emergência (SAMU ou Bombeiros):

  • Crises que duram mais de cinco minutos (estado de mal epiléptico).
  • Dificuldade respiratória após a crise.
  • Traumas físicos aparentes ocorridos durante a queda ou os movimentos.
  • Quando a pessoa não recupera a consciência entre dois episódios seguidos.

Diagnóstico e a vida após o primeiro episódio

Após a estabilização do paciente, uma avaliação médica detalhada é obrigatória. O médico conduzirá uma história clínica minuciosa e exames físicos para tentar determinar a origem exata da atividade anormal. Compreender o que ocorreu antes, durante e depois do evento é fundamental para o raciocínio diagnóstico.

O período imediatamente posterior à crise é chamado de estado “pós-ictal”. Nesse intervalo, é comum que o indivíduo apresente-se confuso, com sonolência profunda, dor de cabeça ou até agitação. O estado é o tempo necessário para que o cérebro “reinicie” suas funções após a descarga excessiva. 

Para a classificação correta e a definição do tratamento, exames complementares (como eletroencefalograma e neuroimagem) são solicitados, conforme as recomendações internacionais do American College of Radiology e da ILAE (International League Against Epilepsy).

Prevenção e manejo: como reduzir o risco de novas crises

A prevenção de novos episódios se baseia no diagnóstico da causa e no reconhecimento de gatilhos específicos que diminuem o limiar convulsivo de cada paciente. O manejo médico adequado é a estratégia mais eficaz para o controle a longo prazo.

Com diagnóstico preciso e acompanhamento médico regular, a grande maioria das pessoas que apresenta uma convulsão pode manter uma excelente qualidade de vida e segurança em suas atividades cotidianas. O conhecimento sobre a condição remove o medo do desconhecido e permite um convívio social pleno

Para aprofundar seu conhecimento sobre a saúde do sistema nervoso e as novas tecnologias de cuidado, leia nosso conteúdo sobre a detecção precoce de doenças neurodegenerativas.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial. 

Referências:

Expert Panel on Neurological Imaging; Lee RK, Burns J, Ajam AA, Broder JS, Chakraborty S, Chong ST, et al. ACR Appropriateness Criteria® Seizures and Epilepsy. J Am Coll Radiol. 2021;18(5S):S189-S206. doi: 10.1016/j.jacr.2021.01.018

Cohen MS, Cohen J, Timsit JF. Severe Hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2021;384(14):1321-1331. doi: 10.1056/NEJMcp2024526

Thijs RD, Surges R, O’Brien TJ, Sander JW. Epilepsy in adults. Lancet. 2019 Feb 16;393(10172):689-701. doi: 10.1016/S0140-6736(18)32596-0. Epub 2019 Jan 24. PMID: 30686584.

Hewett Brumberg EK, Douma MJ, Alibertis K, Charlton NP, Goldman MP, Harper-Kirksey K, et al. 2024 American Heart Association and American Red Cross Guidelines for First Aid. Circulation. 2024;150(18):e1150-e1212. doi: 10.1161/CIR.0000000000001281

Hsu M, Shah A, Jordan A, Gold MS, Hill KP. Therapeutic Use of Cannabis and Cannabinoids: A Review. JAMA. 2026;335(4):345–359. doi:10.1001/jama.2025.19433

Martimbianco ALC, Silva RB, Cruz Latorraca CO, de Toledo IP, Pacheco RL, Colpani V, Riera R. Cannabis derivatives and their synthetic analogs for treatment-resistant epilepsy: A systematic review and meta-analysis. Epilepsy Res. 2025 Aug;214:107559. doi: 10.1016/j.eplepsyres.2025.107559. Epub 2025 Apr 18. PMID: 40267856.

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Entenda como andar de bicicleta pode reduzir o risco de Alzheimer https://blog.sabin.com.br/autocuidado/andar-de-bicicleta-pode-ajudar-na-prevencao-do-alzheimer/ https://blog.sabin.com.br/autocuidado/andar-de-bicicleta-pode-ajudar-na-prevencao-do-alzheimer/#respond Wed, 08 Apr 2026 19:15:57 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5119 A doença de Alzheimer representa um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade, com uma prevalência que cresce proporcionalmente ao envelhecimento da população global. Caracterizada por um processo neurodegenerativo progressivo, a condição requer estratégias multidisciplinares que vão além das intervenções farmacológicas. Nesse cenário, a relação entre a atividade física regular e a preservação da […]

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A doença de Alzheimer representa um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade, com uma prevalência que cresce proporcionalmente ao envelhecimento da população global. Caracterizada por um processo neurodegenerativo progressivo, a condição requer estratégias multidisciplinares que vão além das intervenções farmacológicas. Nesse cenário, a relação entre a atividade física regular e a preservação da saúde cerebral ganha destaque, especialmente o ciclismo. 

Estudos recentes, como os publicados na revista médica JAMA Network Open, trazem evidências robustas de que indivíduos que utilizam a bicicleta como meio de transporte ou forma de lazer apresentam um risco consideravelmente menor de desenvolver a doença. Esse impacto positivo reforça a importância do exercício aeróbico como pilar para a manutenção das funções cognitivas ao longo da vida. Continue a leitura para compreender os mecanismos biológicos e as evidências que sustentam a prática.

O que é a doença de Alzheimer e por que ela preocupa tanto?

O Alzheimer é uma patologia neurodegenerativa que se manifesta inicialmente por meio de perdas graduais de memória recente, evoluindo para o comprometimento de funções executivas, linguagem e orientação espacial. Biologicamente, a doença é marcada pelo acúmulo de placas da proteína beta-amiloide e emaranhados da proteína tau no tecido cerebral, processos que levam à morte neuronal e à atrofia de áreas críticas do cérebro. A condição não afeta apenas o paciente, mas também — e profundamente — a dinâmica familiar, exigindo uma rede de cuidados complexa e contínua.

Entre os principais fatores de risco, o envelhecimento é o mais predominante, porém não o único. Elementos genéticos desempenham papel relevante, com destaque para a presença do gene APOE ε4, que aumenta a suscetibilidade ao desenvolvimento da doença. Além da genética, o estilo de vida, incluindo sedentarismo, dieta inadequada e presença de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, são determinantes cruciais. Compreender esses riscos é o primeiro passo para estabelecer estratégias de prevenção eficazes.

Novos caminhos para prevenir e tratar o Alzheimer

A ciência tem avançado rapidamente para além das abordagens convencionais no manejo do Alzheimer. Atualmente, o entendimento da doença foca em intervenções precoces e terapias biológicas inovadoras. O desenvolvimento de anticorpos monoclonais voltados contra as proteínas anti-amiloide e as terapias anti-tau representam uma fronteira promissora, buscando reduzir os depósitos cerebrais que causam a neurodegeneração.

Paralelamente, a detecção precoce tornou-se um foco central. Exames de sangue inovadores que medem o biomarcador p-tau217 permitem identificar alterações cerebrais anos antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos, possibilitando intervenções quando o tecido cerebral ainda está preservado. 

Novas hipóteses também investigam a origem da doença sob a ótica da neuroinflamação e do sistema imunológico, sugerindo que o Alzheimer pode ter componentes de uma resposta autoimune exacerbada ou inflamação crônica. O futuro do cuidado reside na combinação de terapias genéticas com intervenções personalizadas no estilo de vida, transformando a visão de que o declínio cognitivo é um destino inevitável.

Como o exercício físico pode proteger o cérebro?

A neuroproteção oferecida pelo exercício físico ocorre através de mecanismos fisiológicos diretos. Durante a atividade, ocorre um aumento substancial na circulação sanguínea sistêmica, o que melhora a oxigenação cerebral e o aporte de nutrientes para os neurônios. Esse fluxo otimizado auxilia na remoção de resíduos metabólicos tóxicos, contribuindo para um ambiente cerebral mais saudável.

Um dos efeitos mais notáveis da prática regular é observado no hipocampo, a região do cérebro fundamental para a formação de novas memórias e para a aprendizagem. O estudo da JAMA indica que modos de deslocamento ativos, principalmente o ciclismo, estão associados a um maior volume de hipocampo, área que é frequentemente afetada precocemente pela doença de Alzheimer. Esse aumento de volume sugere um potencial efeito protetor sobre a estrutura cerebral, alinhado à hipótese de que a atividade física regular contribui para a manutenção da integridade neuronal ao longo do tempo​.

Por que o ciclismo se destaca entre as atividades físicas?

O ciclismo é classificado como uma atividade aeróbica de baixo impacto, o que o torna ideal para a prática prolongada sem sobrecarga excessiva das articulações. O estudo de coorte publicado na JAMA acompanhou 479.723 pessoas e estabeleceu uma correlação direta entre o hábito de pedalar e a redução do risco de Alzheimer e outras formas de demência

A modalidade exige não apenas esforço cardiovascular, como também coordenação motora e equilíbrio, estimulando diversas áreas do sistema nervoso central simultaneamente. Além dos benefícios cognitivos diretos, o ciclismo promove o controle de peso e a saúde cardiovascular, fatores que estão intrinsecamente ligados à saúde cerebral. 

O bem-estar emocional gerado pela liberação de endorfinas e a diminuição do estresse também são pontos importantes, visto que a saúde mental equilibrada é um fator protetivo contra o declínio cognitivo. A praticidade de integrar a bicicleta ao cotidiano, seja como transporte ou lazer, facilita a manutenção da constância necessária para colher esses benefícios.

Existe idade certa para começar? E para quem já tem Alzheimer?

A premissa da reserva cognitiva sugere que, quanto mais cedo se inicia a prática de exercícios, maior é o acúmulo de benefícios e a proteção contra o desgaste futuro. No entanto, o grupo de adultos acima de 50 anos é o que apresenta resultados mais expressivos em termos de prevenção imediata. Meta-análises demonstram que o exercício físico é uma ferramenta eficaz mesmo para idosos que já apresentam comprometimento cognitivo leve, ajudando a estabilizar a função mental.

Para indivíduos diagnosticados, o ciclismo sob supervisão profissional pode ser um aliado valioso. Embora os efeitos na reversão da doença sejam modestos, a prática ajuda a manter a funcionalidade motora, melhora a qualidade do sono e promove o bem-estar geral. O movimento, portanto, deve ser incentivado em todos os estágios da vida, adaptando-se às capacidades individuais de cada paciente.

A intensidade e a duração do exercício fazem diferença?

A relação entre atividade física e prevenção do Alzheimer segue o conceito de dose-resposta: quanto maior a regularidade e a adequação da intensidade, mais significativos são os efeitos protetores. Surpreendentemente, evidências apontam que apenas 30 minutos semanais de ciclismo de alta intensidade já podem desencadear respostas neuroprotetoras observáveis.

A prática deve respeitar a condição física, a idade e o histórico clínico de cada pessoa. A transição de um estilo de vida sedentário para um ativo deve ser progressiva, priorizando a consistência a longo prazo, em vez de esforços exaustivos esporádicos. O equilíbrio entre intensidade e segurança é o que garante que o exercício atue como um verdadeiro agente de saúde.

Histórico familiar e genética: o ciclismo também ajuda nesses casos?

Muitas pessoas acreditam que a predisposição genética, como a presença do gene APOE ε4, torna o Alzheimer inevitável. Contudo, a ciência demonstra que o estilo de vida pode modificar a expressão desses riscos. 

A prática regular de ciclismo e outras atividades aeróbicas têm o potencial de reduzir o impacto de fatores genéticos e ambientais, retardando o surgimento dos sintomas em indivíduos suscetíveis. O exercício atua como um modulador epigenético, ajudando o organismo a lidar melhor com as vulnerabilidades herdadas e oferecendo uma camada adicional de defesa para o cérebro.

Como incluir o ciclismo na rotina e cuidar da saúde cerebral?

Adotar o ciclismo como hábito requer planejamento simples, mas eficaz. Para iniciantes, recomenda-se a busca por locais seguros, como parques e ciclovias, minimizando riscos de acidentes. A substituição de trajetos curtos, que usualmente são feitos por meios de transportes convencionais, pelo transporte ativo (bicicleta) é uma das formas mais eficientes de tornar a prática regular sem sobrecarregar a agenda.

A constância é mais importante do que a performance atlética. É vital ouvir o corpo e, em casos de condições de saúde preexistentes, buscar acompanhamento médico para ajustar a carga de esforço. Ao transformar a bicicleta em uma ferramenta de mobilidade e prazer, a melhora na qualidade de vida e na longevidade cerebral torna-se uma consequência natural do movimento.

Cuidar do cérebro também passa pelo movimento

A compreensão de que a doença de Alzheimer não é uma fatalidade inevitável é libertadora. As escolhas feitas no dia a dia, sobretudo no que diz respeito ao nível de atividade física, têm um peso determinante na trajetória da saúde cognitiva. O estilo de vida ativo é uma das intervenções mais potentes e acessíveis disponíveis para a prevenção da neurodegeneração. Iniciar ou manter a prática de exercícios, mesmo de forma leve e progressiva, é um investimento direto na preservação da memória e da autonomia. Para entender mais sobre como a ciência pode auxiliar na identificação precoce de riscos,conheça as inovações na detecção de doenças neurodegenerativas.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

Hou C, Zhang Y, Zhao F, et al. Active Travel Mode and Incident Dementia and Brain Structure. JAMA Netw Open. 2025;8(6):e2514316. doi:10.1001/jamanetworkopen.2025.14316

Yu F, Vock DM, Zhang L, Salisbury D, Nelson NW, Chow LS, Smith G, Barclay TR, Dysken M, Wyman JF. Cognitive Effects of Aerobic Exercise in Alzheimer’s Disease: A Pilot Randomized Controlled Trial. J Alzheimers Dis. 2021;80(1):233-244. doi: 10.3233/JAD-201100. PMID: 33523004; PMCID: PMC8075384.

Yang SY, Shan CL, Qing H, Wang W, Zhu Y, Yin MM, Machado S, Yuan TF, Wu T. The Effects of Aerobic Exercise on Cognitive Function of Alzheimer’s Disease Patients. CNS Neurol Disord Drug Targets. 2015;14(10):1292-7. doi: 10.2174/1871527315666151111123319. PMID: 26556080.

Tari AR, Walker TL, Huuha AM, Sando SB, Wisloff U. Neuroprotective mechanisms of exercise and the importance of fitness for healthy brain ageing. Lancet. 2025 Mar 29;405(10484):1093-1118. doi: 10.1016/S0140-6736(25)00184-9. PMID: 40157803.

Erickson KI, Hillman C, Stillman CM, Ballard RM, Bloodgood B, Conroy DE, Macko R, Marquez DX, Petruzzello SJ, Powell KE; FOR 2018 PHYSICAL ACTIVITY GUIDELINES ADVISORY COMMITTEE*. Physical Activity, Cognition, and Brain Outcomes: A Review of the 2018 Physical Activity Guidelines. Med Sci Sports Exerc. 2019 Jun;51(6):1242-1251. doi: 10.1249/MSS.0000000000001936. PMID: 31095081; PMCID: PMC6527141.

Park SY, Setiawan VW, White LR, Wu AH, Cheng I, Haiman CA, Wilkens LR, Le Marchand L, Lim U. Modifying effects of race and ethnicity and APOE on the association of physical activity with risk of Alzheimer’s disease and related dementias. Alzheimers Dement. 2023 Feb;19(2):507-517. doi: 10.1002/alz.12677. Epub 2022 Apr 27. PMID: 35476309; PMCID: PMC9810117.

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Neutropenia febril: atualizações clínicas no manejo terapêutico https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/ https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/#respond Fri, 03 Apr 2026 12:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5113 A neutropenia febril (NF) permanece como uma das emergências infecciosas mais críticas no cenário oncológico, especialmente em pacientes com neoplasias hematológicas ou em uso de quimioterapia mielossupressora. A condição, caracterizada pela presença simultânea de febre e neutropenia, está fortemente associada a risco elevado de infecções graves, internações prolongadas e mortalidade precoce, além de impactar a […]

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A neutropenia febril (NF) permanece como uma das emergências infecciosas mais críticas no cenário oncológico, especialmente em pacientes com neoplasias hematológicas ou em uso de quimioterapia mielossupressora. A condição, caracterizada pela presença simultânea de febre e neutropenia, está fortemente associada a risco elevado de infecções graves, internações prolongadas e mortalidade precoce, além de impactar a continuidade e a efetividade do tratamento antineoplásico.

Nos últimos anos, observou-se uma mudança significativa no panorama epidemiológico das infecções relacionadas à neutropenia febril, com aumento da incidência de bactérias multirresistentes, alterações no perfil microbiológico institucional e necessidade de revisão das práticas tradicionais de manejo. Como resposta a esse cenário, a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) publicou, em 2024, um novo consenso nacional com diretrizes atualizadas para a condução de pacientes com neutropenia febril.

Este conteúdo reúne os principais pontos do novo consenso, abordando avaliação inicial, antibioticoterapia, estratificação de risco — com ferramentas como MASCC e CISNE — e medidas preventivas e diagnósticas individualizadas, focando na realidade brasileira. Acompanhe!

O que é neutropenia febril e qual sua relevância clínica?

Os principais contextos clínicos que predispõem à NF incluem esquemas de quimioterapia altamente mielossupressores, neoplasias hematológicas, transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) e tumores sólidos tratados com regimes intensivos.

A condição é definida pela presença de febre: temperatura oral ≥38,3°C, em uma única medida; ou ≥38,0°C, mantida por pelo menos uma hora em um paciente com contagem absoluta de neutrófilos (CAN) <500 células/μL; ou <1.000 células/μL, com expectativa de queda para <500 células/μL nas próximas 48 horas. A febre pode ser o único sinal de infecção em pacientes neutropênicos, devido à resposta inflamatória limitada. 

Neutropenia febril é considerada uma emergência oncológica, pois o risco de infecção grave e mortalidade é elevado, sobretudo quando a neutropenia é profunda e prolongada. O manejo deve ser imediato, com avaliação clínica e início precoce de antibióticos de amplo espectro, conforme recomendado pelas sociedade citada.

Diante do potencial para desfechos graves, a identificação precoce da NF e a estruturação de fluxos clínicos para sua abordagem imediata são essenciais.

Perfil dos pacientes mais afetados e fatores de risco

Idosos, pacientes com comorbidades, como insuficiência renal ou diabetes, estado funcional prejudicado (ECOG ≥2) e histórico prévio de NF também compõem um grupo de risco elevado. Em adultos, a profundidade da neutropenia e a presença de dispositivos invasivos agravam ainda mais o risco de complicações infecciosas. E em crianças, a incidência varia conforme o tipo de câncer e fase do tratamento, sendo mais frequente durante protocolos de indução e consolidação.

Por isso, os grupos de pacientes particularmente vulneráveis à neutropenia febril incluem aqueles com leucemias agudas, linfomas agressivos, submetidos a TCTH e portadores de tumores sólidos em esquemas quimioterápicos combinados.

Novas recomendações para avaliação inicial antes da antibioticoterapia

Antes da administração empírica de antibióticos, recomenda-se a coleta de, no mínimo, dois conjuntos de hemoculturas de sítios anatômicos diferentes: um de punção periférica em cada braço (se possível); ou, se houver cateter venoso central, um de veia periférica e um do lúmen do cateter. Essa coleta deve ser feita idealmente sem atrasar o início do tratamento em casos graves. 

A abordagem aumenta a sensibilidade para detecção de bacteremia e permite distinguir entre infecção verdadeira e contaminação, além de identificar infecções relacionadas ao cateter.

Exames de imagem devem ser indicados com base na sintomatologia, tomografia de tórax para sintomas respiratórios, tomografia abdominal para dor localizada e outros exames dirigidos ao foco clínico.A anamnese deve incluir histórico de internações recentes, uso de antimicrobianos nos últimos três meses, colonização por patógenos multirresistentes e comorbidades. Essa abordagem diagnóstica inicial é importante para a escolha racional do tratamento antimicrobiano, reduzindo o risco de uso desnecessário e contribuindo para a contenção da resistência microbiana.

Início da antibioticoterapia empírica: o que mudou?

O novo consenso recomenda o início da antibioticoterapia empírica nas primeiras horas após a identificação da febre, preferencialmente por monoterapia com cefepime ou piperacilina-tazobactam, que oferecem cobertura eficaz contra Pseudomonas aeruginosa.

O uso de carbapenêmicos deve ser restrito a situações de instabilidade hemodinâmica, colonização por enterobactérias produtoras de ESBL/CRE, infecções documentadas por esses agentes ou falha terapêutica de esquemas de primeira linha.

A inclusão de cobertura para agentes gram-positivos anti-MRSA (como vancomicina) deve ser restrita a situações específicas, infecções de cateter, lesões de pele, colonização documentada ou choque séptico sem foco definido. A estratégia de escalonamento com base em cultura, melhora clínica e marcadores laboratoriais deve ser priorizada para promover o uso racional de antibióticos.

Estratificação de risco e viabilidade de manejo ambulatorial

A estratificação de risco é a etapa central na decisão entre hospitalização e tratamento ambulatorial. O escore MASCC é amplamente utilizado e permite estimar o risco de complicações em pacientes com câncer (hematológicos ou não). Contudo, pode superestimar a segurança em casos de neutropenia leve.

Outro escore é o CISNE, o qual foi desenvolvido especificamente para pacientes com tumores sólidos e estabilidade clínica, sendo mais sensível na detecção de pacientes aptos ao tratamento ambulatorial. Apesar de pouco difundido no Brasil, seu uso pode aprimorar a seleção de casos de baixo risco.

Pacientes clinicamente estáveis, com suporte familiar, acesso a serviços de saúde e bom entendimento das orientações, podem ser tratados em casa com antibióticos orais, como amoxicilina-clavulanato associada à ciprofloxacina, ou moxifloxacino isoladamente. O monitoramento rigoroso é obrigatório para garantir segurança e resposta terapêutica adequada.

Papel da profilaxia com G-CSF: quem deve receber?

O uso de fatores estimuladores de colônias de granulócitos (G-CSF) é indicado como profilaxia primária, principalmente para prevenir episódios de neutropenia febril em pacientes sob esquemas com risco ≥20%. 

Para regimes com risco intermediário (10–20%), a profilaxia primária é indicada apenas se houver fatores agravantes, como idade avançada, comorbidades ou histórico de neutropenia febril.

A profilaxia secundária é indicada para pacientes que já apresentaram sintomas de neutropenia febril ou neutropenia grau 3/4 em ciclos anteriores, quando a redução de dose comprometeria o controle da doença.

No Brasil, estão disponíveis formulações de curta e longa duração (como filgrastim e pegfilgrastim, respectivamente), além de biossimilares com eficácia comparável e custo reduzido. Entre as inovações futuras, estão moléculas como o trilaciclib, que reduz a mielossupressão quando administrado antes da quimioterapia, e a plinabulina, com potencial efeito imunomodulador. Ambos ainda em avaliação e não disponíveis para uso clínico no país.

Diretrizes atualizadas para manejo pediátrico

Em pacientes pediátricos de baixo risco, a nova diretriz permite a interrupção da antibioticoterapia empírica após 48 horas de hemoculturas negativas, mesmo sem recuperação da ANC, desde que o paciente esteja afebril por pelo menos 24 horas e clinicamente estável. Essa conduta reduz exposição a antibióticos, tempo de internação e risco de resistência, sem aumento de infecções, readmissões ou mortalidade.

Por outro lado, em pacientes de alto risco sem profilaxia antifúngica, a introdução de antifúngicos preemptivos é recomendada com base em achados clínicos, laboratoriais e radiológicos. Nesses casos, a adesão a protocolos estruturados mostrou expressiva redução da mortalidade e melhora nos desfechos oncológicos em centros especializados.

Novas abordagens diagnósticas e suporte laboratorial

O uso do FDG-PET/CT tem ganhado espaço na investigação de febre persistente, sem foco definido em pacientes neutropênicos. O exame pode identificar inflamações ocultas ou infecções não detectáveis em exames convencionais.

Biomarcadores, como galactomanana, beta-D-glucana, antígenos de Candida e Cryptococcus, ajudam na identificação precoce de infecções fúngicas invasivas. Testes moleculares e tecnologias de sequenciamento genético de DNA livre circulante estão sendo estudados como ferramentas para identificar patógenos em tempo hábil.

Esses avanços possibilitam orientar de forma mais precisa a necessidade de terapias antifúngicas e antibacterianas, diminuindo a exposição a antimicrobianos de amplo espectro e suas complicações.

Impacto da neutropenia febril em pacientes idosos

Os pacientes idosos enfrentam desafios particulares no manejo da neutropenia febril, como maior carga de comorbidades, menor reserva fisiológica, risco elevado de toxicidades hematológicas e polifarmácia. São características que aumentam a chance de complicações infecciosas e hospitalizações prolongadas.

A profilaxia com G-CSF é especialmente relevante nesse grupo, conferindo maior adesão ao tratamento quimioterápico e redução do risco de interrupções terapêuticas. A avaliação multidisciplinar e o cuidado centrado na pessoa idosa são fundamentais para decisões terapêuticas seguras e efetivas.

Tendências futuras e recomendações práticas

As diretrizes atuais reforçam a necessidade de antibioticoterapia empírica mais criteriosa, baseada em evidência microbiológica local e resposta clínica. A ampliação do tratamento ambulatorial, quando bem selecionado, promove desfechos favoráveis com menor impacto ecológico.

Ferramentas como FDG-PET/CT, testes moleculares e biomarcadores permitirão decisões mais personalizadas. Novas moléculas, como trilaciclib e plinabulina, ainda estão em fase de avaliação, mas apontam para um futuro de maior precisão terapêutica.

É importante que profissionais de saúde se mantenham atualizados quanto às recomendações clínicas, adaptando suas condutas à realidade epidemiológica e às condições de acesso da instituição onde atuam.Para aprofundar seus conhecimentos sobre o papel dos neutrófilos em doenças autoimunes, confira nosso conteúdo sobre anticorpos anticitoplasma de neutrófilos (ANCA).

Referências:

Nucci M, Arrais-Rodrigues C, Bergamasco MD, et al. Management of febrile neutropenia: consensus of the Brazilian Association of Hematology, Blood Transfusion and Cell Therapy – ABHH. Hematol Transfus Cell Ther. 2024. In press.

Taplitz RA, Kennedy EB, Bow EJ, Crews J, Gleason C, Hawley DK, Langston AA, Nastoupil LJ, Rajotte M, Rolston KV, Strasfeld L, Flowers CR. Antimicrobial Prophylaxis for Adult Patients With Cancer-Related Immunosuppression: ASCO and IDSA Clinical Practice Guideline Update. J Clin Oncol. 2018 Oct 20;36(30):3043-3054. doi: 10.1200/JCO.18.00374. Epub 2018 Sep 4. PMID: 30179565.

Qian ET, Casey JD, Wright A, et al. Cefepime vs piperacillin-tazobactam in adults hospitalized with acute infection: the ACORN randomized clinical trial. JAMA. 2023;330(16):1557–67. doi:10.1001/jama.2023.20583. PMID: 37837651. PMCID: PMC10576861.

Boccia R, Glaspy J, Crawford J, Aapro M. Chemotherapy-Induced Neutropenia and Febrile Neutropenia in the US: A Beast of Burden That Needs to Be Tamed? Oncologist. 2022 Aug 5;27(8):625-636. doi: 10.1093/oncolo/oyac074. PMID: 35552754; PMCID: PMC9355811.

Contejean A, Maillard A, Canouï E, Kernéis S, Fantin B, Bouscary D, Parize P, Garcia-Vidal C, Charlier C. Advances in antibacterial treatment of adults with high-risk febrile neutropenia. J Antimicrob Chemother. 2023 Sep 5;78(9):2109-2120. doi: 10.1093/jac/dkad166. Erratum in: J Antimicrob Chemother. 2023 Nov 6;78(11):2784. doi: 10.1093/jac/dkad304. PMID: 37259598.

Minisini A, Spazzapan S, Crivellari D, Aapro M, Biganzoli L. Incidence of febrile neutropenia and neutropenic infections in elderly patients receiving anthracycline-based chemotherapy for breast cancer without primary prophylaxis with colony-stimulating factors. Crit Rev Oncol Hematol. 2005 Feb;53(2):125-31. doi: 10.1016/j.critrevonc.2004.11.003. PMID: 15661563.

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Coto umbilical: principais cuidados e sinais de alerta https://blog.sabin.com.br/saude/cuidados-com-o-coto-umbilical-e-os-sinais-de-alerta/ https://blog.sabin.com.br/saude/cuidados-com-o-coto-umbilical-e-os-sinais-de-alerta/#respond Tue, 31 Mar 2026 14:21:40 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5108 Logo após o nascimento, o bebê inicia uma fase de adaptação fora do útero materno. Um dos sinais visíveis dessa transição é o coto umbilical, a pequena parte do cordão umbilical que permanece presa ao corpo do recém-nascido após o corte feito na sala de parto. Embora seja uma estrutura temporária, o coto requer atenção […]

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Logo após o nascimento, o bebê inicia uma fase de adaptação fora do útero materno. Um dos sinais visíveis dessa transição é o coto umbilical, a pequena parte do cordão umbilical que permanece presa ao corpo do recém-nascido após o corte feito na sala de parto. Embora seja uma estrutura temporária, o coto requer atenção cuidadosa por parte dos pais e cuidadores, para garantir uma cicatrização segura e evitar infecções.

Nas primeiras semanas de vida, o organismo do bebê está se ajustando a uma nova realidade, e o coto umbilical é um exemplo claro desse processo. Por isso, compreender como ele evolui e quais cuidados são necessários é fundamental para proteger a saúde do recém-nascido e evitar complicações. Siga a leitura para saber mais sobre o assunto.

O que é o coto umbilical e como ele evolui nos primeiros dias de vida?

O coto umbilical é o segmento remanescente do cordão umbilical, responsável por nutrir e oxigenar o bebê durante a gestação. Após o parto, o cordão é clampeado e cortado, e o pedaço que fica ligado ao abdômen do bebê forma o que conhecemos como coto.

Nos primeiros dias de vida, o coto passa por um processo natural de transformação. Inicialmente, ele tem um aspecto úmido, brilhante e gelatinoso. Com o tempo, vai escurecendo, secando e encolhendo, processo conhecido como mumificação. A queda espontânea do coto geralmente acontece entre o quinto e o décimo quinto dia de vida, deixando no local a futura cicatriz umbilical: o umbigo.

Durante essa fase, é comum que os pais fiquem apreensivos com a aparência do coto, especialmente se ele escurecer ou apresentar crostas. No entanto, essas alterações fazem parte do processo natural de cicatrização e não devem causar alarme, desde que não estejam acompanhadas de sinais de infecção.

Quais são os cuidados recomendados com o coto umbilical?

Cuidar do coto umbilical não exige muitos recursos, mas atenção. A recomendação atual para bebês saudáveis é o chamado cuidado seco, que consiste em manter o coto sempre limpo, seco e exposto ao ar. Isso significa evitar cobri-lo com fraldas, faixas ou curativos e também não aplicar produtos como álcool, pomadas, mercúrio ou receitas caseiras, que podem irritar a pele e retardar a queda.

Caso haja sujeira aparente no coto, como urina ou fezes, a limpeza deve ser feita com água morna e sabão neutro. Após a higiene, é importante secar bem a região com uma toalha limpa e deixar o coto ao ar livre. Posicionar a fralda abaixo do umbigo ajuda a evitar o acúmulo de umidade e facilita a ventilação da área.

Cabe ressaltar que práticas populares, como colocar moedas, cintas ou compressas sobre o umbigo, não têm eficácia comprovada e podem ser prejudiciais à saúde do bebê. Essas ações, mesmo que motivadas por crenças familiares ou culturais, devem ser evitadas. Em algumas situações específicas, como partos domiciliares ou em ambientes com risco aumentado de infecção, o profissional de saúde pode orientar o uso de antissépticos. Fora desses casos, o cuidado seco é seguro, eficaz e suficiente para a maioria dos recém-nascidos.

Quando o coto umbilical representa um sinal de alerta?

Apesar de, na maioria dos casos, o coto umbilical evoluir sem problemas, é essencial estar atento a possíveis sinais de alerta que indicam infecção ou outras complicações. 

A infecção do coto umbilical é chamada de onfalite, e seu reconhecimento precoce pode evitar consequências mais graves. Os sinais locais que merecem atenção incluem vermelhidão ao redor do umbigo, secreção purulenta (amarelada ou esverdeada), odor desagradável, inchaço, endurecimento da pele próxima ao coto, dor ao toque ou sangramento persistente. A presença de qualquer um desses sintomas deve ser motivo para procurar atendimento médico imediatamente.

Além dos sinais visíveis no local, o bebê pode apresentar sintomas sistêmicos, que sugerem uma infecção generalizada ou sepse neonatal. Entre eles, estão: febre, temperatura corporal muito baixa (hipotermia), sonolência excessiva, irritabilidade, recusa para mamar, icterícia (coloração amarelada da pele ou dos olhos), respiração rápida, dificuldade para respirar, coloração azulada da pele (cianose) e até convulsões. Tudo isso configura emergência e necessidade de pronto atendimento médico.

Esses sintomas indicam que a infecção pode ter ultrapassado o coto e atingido outros órgãos, necessitando de avaliação médica urgente e tratamento adequado. Nenhuma dessas manifestações deve ser ignorada, mesmo que o bebê pareça calmo ou sem febre. Vale destacar que bebês recém-nascidos são mais vulneráveis a infecções e que alterações sutis podem rapidamente evoluir. Portanto, o acompanhamento com o pediatra nos primeiros dias e semanas é crucial.

O cuidado com o coto é simples, porém importante

O coto umbilical é uma estrutura transitória, mas que demanda cuidados nos primeiros dias de vida do bebê. Com medidas simples de higiene e observação diária, é possível garantir uma cicatrização adequada e prevenir infecções.

Evitar práticas antigas sem comprovação científica, manter a região seca e limpa, e saber identificar os sinais de alerta são atitudes que protegem a saúde do recém-nascido. Em caso de dúvida, alteração no aspecto do umbigo ou comportamento incomum do bebê, a melhor conduta é sempre buscar orientação de um profissional de saúde.A informação correta é uma aliada poderosa para os pais nesse momento tão especial e delicado que é o início da vida. Quer saber mais sobre os primeiros cuidados com o bebê e a importância da triagem neonatal? Acesse o conteúdo relacionado ao Teste do Pezinho.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

López-Medina MD, López-Araque AB, Linares-Abad M, López-Medina IM. Umbilical cord separation time, predictors and healing complications in newborns with dry care. PLoS One. 2020 Jan 10;15(1):e0227209. doi: 10.1371/journal.pone.0227209. PMID: 31923218; PMCID: PMC6953818.

O’Donnell KA, Glick PL, Caty MG. Pediatric umbilical problems. Pediatr Clin North Am. 1998 Aug;45(4):791-9. doi: 10.1016/s0031-3955(05)70045-6. PMID: 9728186.

Kaplan RL. Omphalitis: Clinical Presentation and Approach to Evaluation and Management. Pediatr Emerg Care. 2023 Mar 1;39(3):188-189. doi: 10.1097/PEC.0000000000002918. PMID: 36853079.

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Atualizações clínicas sobre o manejo da dislipidemia na gestação https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/ https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/#respond Fri, 27 Mar 2026 14:10:59 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5097 A dislipidemia na gestação representa um desafio crescente na prática clínica, especialmente diante do aumento da prevalência de distúrbios metabólicos em mulheres em idade fértil. Em 2024, o European Heart Journal publicou uma atualização relevante sobre o tema, enfatizando a necessidade de um novo olhar sobre o manejo da dislipidemia durante a gravidez. Apesar dos […]

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A dislipidemia na gestação representa um desafio crescente na prática clínica, especialmente diante do aumento da prevalência de distúrbios metabólicos em mulheres em idade fértil. Em 2024, o European Heart Journal publicou uma atualização relevante sobre o tema, enfatizando a necessidade de um novo olhar sobre o manejo da dislipidemia durante a gravidez. Apesar dos avanços no tratamento em populações não grávidas, o cenário gestacional permanece limitado, em grande parte por conta da exclusão rotineira de gestantes em ensaios clínicos. 

Nesse contexto, a individualização do cuidado, aliada à avaliação rigorosa de risco-benefício e à abordagem multidisciplinar, torna-se imprescindível para garantir a segurança materno-fetal. Prossiga na leitura para se atualizar sobre condutas terapêuticas seguras e recomendações mais recentes no manejo da dislipidemia na gestação.

Panorama epidemiológico e fisiopatológico

Ao longo da gravidez, é esperado um aumento fisiológico nos níveis de colesterol total, LDL-C e triglicerídeos, sobretudo no terceiro trimestre. A adaptação metabólica visa atender às demandas do feto em crescimento e é mediada por alterações hormonais, principalmente devido ao aumento de estrogênio e progesterona. Contudo, em mulheres com dislipidemia prévia, como hipercolesterolemia familiar (HF) ou hipertrigliceridemia primária, essa elevação pode ultrapassar os limites fisiológicos, aumentando o risco de eventos adversos.

Os perfis lipídicos anormais na gestação estão associados a complicações obstétricas relevantes, incluindo pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, parto prematuro e pancreatite aguda. Além disso, o risco de eventos cardiovasculares maternos também se eleva. Por isso, o rastreamento em gestantes com antecedentes familiares de dislipidemia grave ou histórico pessoal de eventos cardiovasculares deve ser considerado desde o início do pré-natal.

Perfis lipídicos e desfechos específicos: o contexto brasileiro

Alguns estudos brasileiros revelam que o IMC pré-gestacional exerce influência significativa sobre o perfil lipídico da gestante. Mulheres com sobrepeso ou obesidade tendem a apresentar maiores concentrações de triglicerídeos e LDL-C, e níveis reduzidos de HDL-C. Além disso, padrões alimentares ricos em fast food e açúcares simples estão associados a piores desfechos metabólicos durante a gestação.

Essas alterações impactam diretamente o feto: níveis elevados de LDL-C e triglicerídeos e aumento mais lento do HDL-C foram relacionados ao nascimento de recém-nascidos grandes para a idade gestacional (LGA), o que pode predispor a distúrbios metabólicos na vida adulta. Curiosamente, há também correlação entre baixos níveis de HDL-C e aumento de sintomas depressivos em gestantes, sugerindo implicações psicossociais ainda pouco exploradas.

Atualizações no manejo terapêutico

O estudo reforça que o manejo da dislipidemia na gestação não sofreu mudanças expressivas nas últimas décadas. Em virtude da contraindicação formal da maioria dos hipolipemiantes, as estratégias não farmacológicas permanecem como o eixo central do tratamento. Isso inclui orientação nutricional individualizada, prática de atividade física segura, controle do ganho de peso e suporte psicológico.

O manejo pré-concepcional ganha destaque como momento oportuno para intervenção. Em mulheres com dislipidemia conhecida, esse período permite o uso de terapias atualmente contraindicadas na gestação, além de possibilitar ajustes metabólicos prévios à concepção. Ainda assim, há urgência na produção de evidências de alta qualidade para subsidiar diretrizes mais seguras e eficazes para esse grupo populacional.

Terapias farmacológicas: o que será permitido e o que será restrito na gestação

O uso de terapias farmacológicas para o manejo da dislipidemia na gestação continua limitado, em particular pela ausência de evidências robustas de segurança para a maioria dos agentes hipolipemiantes. 

Dessa forma, a indicação de medicamentos deve ser cuidadosamente avaliada, considerando o perfil de risco materno, os potenciais efeitos sobre o desenvolvimento fetal e a gravidade da dislipidemia. 

Em geral, o tratamento farmacológico é reservado a situações específicas, nas quais o risco cardiovascular materno ou as complicações metabólicas superam os riscos potenciais associados à exposição medicamentosa.

Alternativas de uso excepcional (sob estrito risco-benefício)

Dentre as poucas opções farmacológicas consideradas durante a gestação, os sequestrantes de ácidos biliares permanecem como a única classe com segurança estabelecida para uso materno, sendo amplamente aceitos na prática clínica.

Em situações clínicas específicas e de alto risco, ezetimiba e fenofibrato podem ser avaliados como alternativas de uso excepcional, desde que sob análise criteriosa de risco-benefício individualizado e com acompanhamento multiprofissional rigoroso. Mesmo assim, a escassez de evidências robustas sobre sua segurança em gestantes exige extrema cautela.

Os ácidos graxos ômega-3 também podem ser utilizados com moderação em determinados casos, embora faltem dados conclusivos sobre sua segurança durante a lactação, o que reforça a necessidade de vigilância clínica contínua.

Fármacos contraindicados ou de uso controverso

As estatinas seguem formalmente contraindicadas no decorrer da gestação, com base em dados de estudos pré-clínicos e observacionais que indicam risco potencial de malformações fetais. No entanto, revisões sistemáticas recentes e relatos de casos clínicos vêm discutindo novas perspectivas para pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigótica grave (HFHo) ou com risco cardiovascular materno muito elevado.

Nesses casos excepcionais, a manutenção da terapia com estatinas pode ser considerada, sempre sob avaliação individual criteriosa, com apoio de comitês multidisciplinares e vigilância clínica intensiva. A decisão deve ponderar o risco de descontinuação da medicação, principalmente mulheres com história de eventos cardiovasculares prévios ou LDL-C persistentemente elevados, frente aos potenciais riscos teóricos ao feto.

Agentes mais recentes, como os inibidores de PCSK9, bempedoico, inclisiran, evinacumab e olezarsen, ainda não possuem dados de segurança em gestantes e, portanto, devem ser restritos ao uso pré-concepcional ou retomados apenas no pós-parto. A niacina continua não recomendada, dado seu baixo benefício cardiovascular e possíveis riscos materno-fetais.

Critérios de intervenção farmacológica e de emergência: indo além do estilo de vida

Embora as mudanças no estilo de vida sejam o pilar fundamental do tratamento das dislipidemias, existem cenários clínicos de alta complexidade, nos quais dieta e atividade física isoladas tornam-se insuficientes. 

Em situações de risco metabólico extremo ou predisposição genética severa, a intervenção médica deve ser imediata e agressiva para prevenir desfechos fatais. O manejo dessas condições exige um equilíbrio criterioso entre a segurança do paciente e a necessidade de terapias avançadas, muitas vezes exigindo suporte tecnológico hospitalar e uma abordagem interdisciplinar coordenada.

Hipertrigliceridemia grave

Quando os níveis de triglicerídeos ultrapassam 1.000 mg/dL, há risco elevado de pancreatite aguda e outras complicações graves. Nesses casos, pode ser necessário adotar estratégias mais intensivas, como jejum temporário, nutrição parenteral e, em situações críticas, aférese lipídica, sempre com suporte multiprofissional e em ambiente hospitalar com expertise.

Hipercolesterolemia familiar homozigótica

Essa condição representa alto risco cardiovascular para a mãe. Em casos selecionados, a continuação da terapia hipolipemiante pode ser indicada durante a gestação. 

A aférese lipídica surge como alternativa terapêutica segura, embora de acesso limitado. A avaliação deve envolver equipe multidisciplinar, incluindo cardiologia, obstetrícia, genética, endocrinologia e nutrição, sempre com foco no manejo pré-concepcional como forma de reduzir riscos na gestação.

Repercussões do perfil lipídico materno na saúde fetal

A dislipidemia materna influencia diretamente o crescimento e o desenvolvimento fetal. Além do risco de LGA, chamam atenção possíveis implicações na programação metabólica do feto, o que pode predispor à obesidade, dislipidemia e resistência insulínica na vida adulta. Do ponto de vista obstétrico, há maior incidência de síndrome hipertensiva gestacional, diabetes gestacional e parto prematuro.

Mesmo gestantes assintomáticas com alterações no perfil lipídico devem ser monitoradas rigorosamente. A vigilância clínica estruturada, com acompanhamento longitudinal, é essencial para prevenir complicações e garantir desfechos positivos.

Riscos da descontinuação abrupta de terapias hipolipemiantes

Interromper terapias hipolipemiantes sem avaliação adequada pode expor gestantes de alto risco a eventos cardiovasculares graves. Um exemplo clássico são pacientes com histórico de infarto agudo do miocárdio em uso crônico de estatinas. Nesses casos, a decisão deve ser compartilhada entre equipe médica e paciente, com definição de protocolos claros de continuidade terapêutica e monitoramento clínico constante. O planejamento terapêutico deve ser feito ainda no período pré-concepcional, evitando ajustes emergenciais durante a gestação.

Conclusão e perspectivas: a importância do manejo pré-concepcional

O manejo da dislipidemia na gestação exige uma abordagem baseada em individualização rigorosa do risco, estratégias não farmacológicas como pilar terapêutico e atuação multidisciplinar integrada. O período pré-concepcional se destaca como janela crítica de oportunidade para intervenção segura, especialmente em mulheres com HF ou hipertrigliceridemia grave.

Apesar dos avanços recentes, a literatura ainda carece de ensaios clínicos envolvendo gestantes, o que limita a robustez das recomendações atuais. A inclusão de mulheres grávidas em estudos prospectivos deve ser prioridade nas próximas décadas, bem como o desenvolvimento de fármacos especificamente desenhados para uso seguro nesse período tão sensível.

Para aprofundar seu conhecimento, sugerimos a leitura do conteúdo sobre o painel genético para a dislipidemia.

Referências:

Joanna Lewek, Agata Bielecka-Dąbrowa, Peter P Toth, Maciej Banach, Dyslipidaemia management in pregnant patients: a 2024 update, European Heart Journal Open, Volume 4, Issue 3, May 2024, oeae032, https://doi.org/10.1093/ehjopen/oeae032

Bittencourt MS. Estatinas na Gestação – Novas Recomendações do Food and Drug Administration. Arq. Bras. Cardiol. 2022;119(1):1-2.

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Anemia: entenda o que é e como cuidar da forma correta https://blog.sabin.com.br/saude/o-que-e-anemia-e-como-cuidar/ https://blog.sabin.com.br/saude/o-que-e-anemia-e-como-cuidar/#respond Tue, 24 Mar 2026 13:55:02 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5093 A anemia é uma condição frequente que pode afetar pessoas em qualquer fase da vida. Caracteriza-se pela redução da concentração de hemoglobina no sangue, o que compromete a capacidade de transporte de oxigênio pelo organismo. Embora não seja uma doença em si, a anemia é um sinal de alerta que exige atenção médica, pois pode […]

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A anemia é uma condição frequente que pode afetar pessoas em qualquer fase da vida. Caracteriza-se pela redução da concentração de hemoglobina no sangue, o que compromete a capacidade de transporte de oxigênio pelo organismo. Embora não seja uma doença em si, a anemia é um sinal de alerta que exige atenção médica, pois pode indicar a presença de deficiências nutricionais, doenças crônicas, distúrbios hereditários ou outras alterações hematológicas.

Os impactos da anemia vão além do cansaço constante. A condição pode influenciar o rendimento escolar e o crescimento e desenvolvimento neurológico das crianças, até mesmo aumentar o risco de complicações em gestantes e idosos. Identificar os sinais precocemente e buscar a causa correta são etapas importantes para um tratamento eficaz e prevenção de desfechos mais graves. 

Continue a leitura e conheça os principais tipos de anemia, suas causas e como cada tipo é acompanhado e tratado.

O que é anemia?

A anemia é definida pela redução nos níveis de hemoglobina no sangue, que pode variar de acordo com a idade, o sexo e o estado fisiológico da pessoa. A hemoglobina é a proteína dos glóbulos vermelhos responsável por transportar oxigênio dos pulmões para os tecidos. Quando a quantidade está abaixo do ideal, o corpo entra em estado de alerta, devido à menor oxigenação dos órgãos.

A condição costuma ser silenciosa nas fases iniciais, mas pode evoluir com sinais de fadiga, fraqueza e queda do desempenho físico e cognitivo. Identificar a causa da anemia é essencial para a condução do tratamento, já que pode estar relacionada desde a má alimentação até doenças genéticas ou inflamatórias.

Quais são os tipos mais comuns de anemia?

A anemia pode se manifestar de diferentes formas, dependendo da causa e dos mecanismos envolvidos na redução da hemoglobina ou dos glóbulos vermelhos. 

Reforçando o que já foi dito, é preciso compreender que cada tipo de anemia tem uma causa e um tratamento específico.

Anemia ferropriva

Tipo mais frequente, a anemia ferropriva é causada pela deficiência de ferro no organismo. Pode surgir por baixa ingestão na dieta, dificuldade na absorção intestinal ou perdas sanguíneas crônicas, como menstruações intensas ou sangramentos gastrointestinais.

Os sintomas incluem palidez, fadiga, tontura, unhas frágeis e queda de cabelo. Os grupos de risco incluem crianças pequenas, adolescentes, idosos, gestantes, mulheres em idade fértil e pessoas em situação de vulnerabilidade nutricional.

Anemia por deficiência de vitamina B12 ou folato

A vitamina B12 e o folato são fundamentais para a formação dos glóbulos vermelhos. A deficiência pode causar anemia macrocítica, com células maiores e menos funcionais. 

Os principais afetados são idosos, alcoólatras, pessoas com doenças intestinais ou que seguem dietas muito restritivas, como veganos. Também é, às vezes, associada a alterações autoimunes. Além dos sintomas gerais de anemia, pode haver alterações neurológicas, como formigamento, dificuldades de concentração e equilíbrio e alterações de memória.

Anemia de doença crônica

Presente em doenças inflamatórias, infecciosas ou neoplásicas, essa forma de anemia ocorre em virtude da redução da produção de glóbulos vermelhos pela medula óssea e ao aproveitamento inadequado do ferro. É comum em pacientes com doenças renais crônicas, lúpus, artrite reumatoide ou câncer.

Anemias hereditárias

Causadas por alterações genéticas, como anemia falciforme e talassemias, essas condições acometem a estrutura ou produção da hemoglobina. São diagnosticadas geralmente na infância e requerem acompanhamento contínuo, com exceção da talassemia minor. Em alguns casos, o tratamento pode envolver transfusões regulares ou terapias mais avançadas.

Quais são os principais sintomas da anemia?

Os sintomas mais comuns incluem cansaço progressivo, palidez da pele e mucosas, fraqueza muscular, dor de cabeça, tonturas e sensação de falta de ar ao realizar esforços. Em idosos, podem surgir confusão mental, desmaios e agravamento de doenças cardiovasculares.

Nas crianças, a anemia pode afetar o aprendizado, o crescimento e o comportamento. Nas gestantes, aumenta o risco de parto prematuro, baixo peso do bebê e complicações no parto.

Como é feito o diagnóstico da anemia?

A investigação começa com o hemograma completo, que revela alterações nos níveis de hemoglobina, hematócrito e no tamanho e coloração dos glóbulos vermelhos (VCM, CHCM). A contagem de reticulócitos é imprescindível para rastrear possíveis causas.

Exames laboratoriais básicos

O hemograma é o exame inicial. Ele fornece uma visão geral da condição dos glóbulos vermelhos e orienta os próximos passos. A análise de reticulócitos informa sobre a atividade da medula.

Exames específicos

Conforme a suspeita clínica, o médico pode solicitar exames como:

  • Ferritina, ferro sérico, transferrina e saturação de transferrina, úteis na identificação da deficiência de ferro.
  • Vitamina B12 e folato: dosagens importantes em anemias macrocíticas (VCM maior que o valor de referência).
  • Curva de fragilidade osmótica, indicada em casos suspeitos de esferocitose hereditária.
  • Dosagem de enzimas eritrocitárias (G6PD, piruvato quinase), avaliam causas enzimáticas de hemólise.
  • Exames da medula óssea, recomendados quando há suspeita de falência medular, infiltração por doenças ou anemias refratárias.
  • Investigação de sangramentos ocultos, especialmente em adultos com anemia ferropriva sem causa evidente.

Quem tem mais risco de ter anemia?

Alguns grupos populacionais são mais suscetíveis:

  • Crianças pequenas, gestantes e mulheres em idade fértil, principalmente por conta da alta demanda de ferro.
  • Idosos e alcoólatras, com maior risco de deficiência de vitamina B12 e folato.
  • Pessoas com doenças intestinais crônicas, que interferem na absorção de nutrientes.
  • Pacientes com doenças crônicas ou inflamatórias, como lúpus, insuficiência renal e câncer.
  • Indivíduos com doenças genéticas, como talassemia e anemia falciforme.
  • Pessoas com dietas restritivas ou insegurança alimentar, sobretudo em regiões de baixa renda.

Em muitos casos, os fatores de risco se sobrepõem, o que exige uma avaliação médica completa e personalizada.

Como prevenir a anemia?

A prevenção depende da causa. Embora algumas anemias não sejam evitáveis (como as hereditárias), outras podem ser prevenidas com medidas simples.

Alimentação rica em ferro e vitaminas

A dieta tem papel central na prevenção das anemias nutricionais. Alimentos como carnes vermelhas, fígado, feijão, vegetais verde-escuros e cereais fortificados são excelentes fontes de ferro. A vitamina C (presente em frutas cítricas) melhora a absorção do ferro vegetal. Vitamina B12 é encontrada em alimentos de origem animal, como carnes, ovos e leite. O folato está presente em vegetais folhosos, feijão, lentilha e abacate.

Importante: pacientes com anemia falciforme ou talassemia não devem receber suplementos de ferro sem confirmação laboratorial, em razão do risco de sobrecarga de ferro.

Acompanhamento médico e exames regulares

Consultas regulares e realização periódica de exames, como o hemograma, são determinantes para detectar precocemente qualquer alteração. Gestantes devem realizar o acompanhamento pré-natal, e crianças precisam passar por avaliações de rotina com o pediatra.

Essas medidas são cruciais nos casos de anemia por deficiência de ferro, em que a detecção precoce garante tratamento eficaz e evita complicações.

Quais são os riscos da anemia não tratada?

Quando a anemia não é identificada e tratada adequadamente, o transporte de oxigênio para os tecidos do corpo fica comprometido, o que pode gerar uma série de complicações. Entre os principais riscos, estão a insuficiência cardíaca, as arritmias e a maior propensão a infecções de repetição, devido à fragilidade do sistema imunológico. 

Além disso, a pessoa pode apresentar uma baixa significativa no desempenho físico e mental, com impactos diretos na qualidade de vida, no trabalho e nas atividades cotidianas. Em idosos, a anemia não tratada está associada a um risco aumentado de hospitalizações, quedas e perda de funcionalidade.

Nas crianças, a condição pode prejudicar o desenvolvimento neurológico, a atenção, a memória e o rendimento escolar, com efeitos a longo prazo sobre o aprendizado. 

Já nas gestantes, os riscos envolvem parto prematuro, nascimento de bebês com baixo peso e aumento da mortalidade perinatal. Diante de tantas possíveis consequências, o diagnóstico precoce, a investigação da causa e o tratamento adequado da anemia são indispensáveis para evitar complicações graves e preservar a saúde em todas as fases da vida.

Quando procurar ajuda médica?

Sinais como fadiga constante, fraqueza, palidez e falta de ar ao se esforçar devem servir de alerta. Tonturas, desmaios, palpitações ou agravamento de doenças preexistentes também justificam avaliação médica.

Populações de risco precisam manter exames em dia, pois mesmo sem sintomas aparentes, a anemia pode estar presente. Quanto antes for diagnosticada, mais eficaz será o tratamento e menores serão as chances de complicações. Cuide da saúde e entenda por que é importante fazer exames de check-up médico.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

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Aumento expressivo da obesidade pediátrica grave e suas complicações metabólicas https://blog.sabin.com.br/medicos/aumento-da-obesidade-pediatrica-grave/ https://blog.sabin.com.br/medicos/aumento-da-obesidade-pediatrica-grave/#respond Thu, 19 Mar 2026 19:32:58 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=4940 Nas últimas décadas, a obesidade pediátrica evoluiu de um problema emergente para uma emergência clínica global, agravada pelo aumento de casos classificados como obesidade extremamente grave. Dados recentes do estudo de Münte et al. (2025), publicado no JAMA Network Open, apontam para um crescimento relativo de 253,1% na prevalência de obesidade em classes extremas (4 […]

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Nas últimas décadas, a obesidade pediátrica evoluiu de um problema emergente para uma emergência clínica global, agravada pelo aumento de casos classificados como obesidade extremamente grave. Dados recentes do estudo de Münte et al. (2025), publicado no JAMA Network Open, apontam para um crescimento relativo de 253,1% na prevalência de obesidade em classes extremas (4 e 5 – NHANES), com taxa de 1,13% em 2023. Adolescentes entre 16 e 18 anos, especialmente negros não hispânicos, apresentaram os maiores índices, evidenciando marcadores sociais de risco e profundas disparidades em saúde. Isso reforça a necessidade de ação clínica imediata e revisão de estratégias de prevenção e manejo da obesidade pediátrica grave.

Na sequência, atualize-se sobre as principais repercussões metabólicas da obesidade grave em pediatria e como a prática clínica pode ser ajustada nesse novo cenário.

Evidências recentes: crescimento da obesidade extrema e implicações clínicas

A nova estratificação de obesidade pediátrica baseada em cinco classes, conforme utilizada no NHANES (2008–2023), introduziu categorias mais precisas para obesidade extrema: Classe 4 (IMC ≥160% e <180% do percentil 95) e Classe 5 (IMC ≥180% do percentil 95). Essa abordagem permitiu avaliar a progressão de casos graves com maior sensibilidade clínica. 

O crescimento acelerado nessas categorias acende um alerta importante: adolescentes com obesidade extrema já apresentam complicações metabólicas precoces, sobrecarregando os sistemas de saúde e ampliando as desigualdades no acesso a cuidados especializados. O estudo destaca o papel da obesidade grave como marcador de risco metabólico e clínico, reforçando o caráter emergencial da triagem e da intervenção precoce.

Repercussões metabólicas da obesidade severa em idade pediátrica

A obesidade pediátrica grave está intimamente ligada a um conjunto de alterações metabólicas com potencial de manifestação ainda na infância e na adolescência. O acúmulo de tecido adiposo visceral, a resistência insulínica precoce e a inflamação crônica de baixo grau compõem o pano de fundo fisiopatológico para a emergência de disfunções orgânicas progressivas. 

Neste tópico, abordamos as principais complicações metabólicas documentadas em adolescentes com obesidade severa, bem como os impactos cardiovasculares e endócrinos que corroboram a necessidade de rastreamento e intervenção precoce.

Complicações metabólicas documentadas

A obesidade extrema associa-se a um amplo espectro de disfunções metabólicas, com destaque para:

  • Doença hepática associada à disfunção metabólica (MASLD): considerada uma das comorbidades prioritárias, com odds ratio (OR) de 6,74, a MASLD representa manifestação precoce e progressiva da disfunção hepática em crianças e adolescentes com obesidade grave, exigindo triagem laboratorial e, quando indicada, avaliação por imagem e escores de fibrose hepática.
  • Alterações da homeostase glicêmica: incluem resistência insulínica grave (OR 8,05) e presença de pré-diabetes ou diabetes tipo 2 (OR 4,94), com prevalência até cinco vezes maior nos casos extremos, reforçando a importância de rastreamento precoce com glicemia de jejum, HbA1c, insulina basal e HOMA-IR.

Risco cardiovascular precoce e disfunção endotelial

Mesmo na ausência de sintomas clínicos evidentes, adolescentes com obesidade grave apresentam marcadores vasculares subclínicos, como o aumento da espessura íntima-média da artéria carótida e rigidez arterial. Esses achados indicam risco cardiovascular precoce, impulsionado pela combinação de inflamação crônica, resistência insulínica e acúmulo de gordura ectópica.

A hipertensão secundária e a disfunção endotelial tornam-se, portanto, eventos não apenas possíveis, mas frequentes em pacientes dessa faixa etária, exigindo triagem ativa e acompanhamento longitudinal.

Distribuição etária e por sexo

A obesidade pediátrica grave apresenta distribuição heterogênea entre faixas etárias e sexos. Crianças entre dois e cinco anos demonstram prevalência mais baixa, com crescimento progressivo em idades escolares e picos entre adolescentes de 12 a 19 anos. 

Entre os meninos, observa-se aumento em torno dos 10 anos, enquanto as meninas apresentam padrão bimodal, com picos entre 12 e 18 anos, possivelmente relacionados a fatores hormonais. O grupo de 16 a 18 anos representa o segmento com maior prevalência de obesidade extrema, aproximando-se de 2% nessa faixa etária.

Contexto brasileiro: panorama da obesidade pediátrica nacional

No Brasil, o avanço da obesidade pediátrica segue tendência semelhante. Dados nacionais apontam que o excesso de peso afeta mais de 25% dos adolescentes entre cinco e 19 anos, e cerca de 9,5% das crianças menores de cinco anos têm obesidade. Entre 2013 e 2023, o número de internações por complicações da obesidade aumentou em 430%, enquanto os diagnósticos de diabetes tipo 2 cresceram 225% no mesmo período. 

O fenômeno reflete a transição nutricional acelerada, com aumento do consumo de ultraprocessados, sedentarismo e desigualdade no acesso a alimentos saudáveis. Regiões Sul e Sudeste, por exemplo, concentram os maiores índices, porém o crescimento ocorre em todas as áreas do país, indicando a urgência de ações nacionais integradas.

Estratégias clínicas de rastreamento e estratificação de risco

Diante da complexidade clínica da obesidade pediátrica grave, o rastreamento metabólico sistemático e a correta estratificação de risco são etapas fundamentais para nortear decisões terapêuticas e prognósticas. A identificação precoce de alterações laboratoriais e fenotípicas permite intervenções mais precisas, reduz a progressão de comorbidades e auxilia na definição de encaminhamentos especializados. 

A seguir, são apresentadas as recomendações atuais para investigação metabólica e ferramentas clínicas para avaliação de gravidade e priorização de cuidados.

Avaliação metabólica de rotina recomendada

A triagem clínica deve ser iniciada em todos os pacientes com IMC ≥ percentil 95, com atenção redobrada nos casos classificados como obesidade extrema. Para garantir maior clareza diagnóstica e alinhamento com as diretrizes de avaliação metabólica na obesidade pediátrica, recomenda-se organizar os exames laboratoriais em eixos funcionais.

  • Rastreamento de diabetes tipo 2 e resistência insulínica: glicemia de jejum, insulina basal, cálculo do HOMA-IR e hemoglobina glicada (HbA1c) devem ser solicitados rotineiramente para avaliação da homeostase glicêmica. A presença de valores alterados em múltiplos parâmetros sugere disfunção significativa e justifica intervenções intensificadas.
  • Rastreamento de dislipidemias: o perfil lipídico completo, incluindo colesterol total, HDL-C, LDL-C e triglicerídeos, é crucial para a detecção precoce de alterações lipídicas, altamente prevalentes em adolescentes com obesidade grave.
  • Rastreamento de MASLD (doença hepática associada à disfunção metabólica): a dosagem de ALT e AST constitui o primeiro passo na triagem hepática, com ferritina como marcador adicional para inflamação e risco de fibrose, embora não seja um marcador primário. Em casos com suspeita clínica ou laboratorial de envolvimento hepático, recomenda-se complementação com ultrassonografia abdominal, elastografia hepática e aplicação de escores de fibrose, como o FIB-4 e o NAFLD Fibrosis Score, ajustados para a faixa etária pediátrica.

Além dos exames laboratoriais, a avaliação clínica deve incluir a pesquisa de sinais físicos, como acantose nigricans, aferição da pressão arterial, medida da circunferência abdominal e investigação de história familiar de doenças metabólicas. Casos com FIB-4 elevado, FibroScan ≥ F2 ou relação AST/ALT >1 devem ser encaminhados para avaliação especializada em hepatologia pediátrica

Cabe ressaltar que o seguimento ambulatorial pode variar de três a seis meses para pacientes em uso de farmacoterapia, ou de seis a 12 meses para aqueles sob abordagem conservadora, conforme gravidade e evolução clínica.

Ferramentas de classificação fenotípica

Distinção fenotípica

Diferenciar a obesidade com disfunção metabólica (MDO) da obesidade metabólica saudável (MHO) é relevante para a priorização de recursos terapêuticos intensivos. O fenótipo MDO, predominante na população pediátrica com obesidade grave, é definido pela presença de comorbidades metabólicas, como resistência insulínica grave, dislipidemias, MASLD e hipertensão. 

Já o MHO, embora sem manifestações metabólicas evidentes no momento da triagem, não deve ser considerado isento de risco, exigindo seguimento longitudinal. Essa distinção permite estratificar os pacientes segundo o grau de urgência clínica, favorecendo intervenções escalonadas e evitando abordagens generalistas.

Algoritmos de risco

Ferramentas clínicas, como o FIB-4 e o NAFLD Fibrosis Score, ajustadas para a idade pediátrica, têm se consolidado como instrumentos úteis na estratificação de risco hepático não invasiva. Esses escores, quando elevados, ajudam a identificar precocemente pacientes com suspeita de fibrose hepática significativa, indicando a necessidade de intervenções farmacológicas mais precoces ou encaminhamento especializado para hepatologia, gastroenterologia pediátrica ou cirurgia bariátrica, conforme a gravidade e a resposta terapêutica anterior. A incorporação desses algoritmos à rotina clínica amplia a precisão diagnóstica e contribui para um cuidado mais direcionado e eficiente.

Abordagem terapêutica multidisciplinar e individualizada

O manejo da obesidade pediátrica grave deve ser conduzido por equipe multiprofissional, incluindo endocrinologista pediátrico, nutricionista, educador físico e psicólogo. 

A base do tratamento continua sendo a modificação intensiva do estilo de vida, com foco em alimentação equilibrada, atividade física supervisionada e reeducação familiar. Intervenções comportamentais com 26 horas de contato demonstram redução substancial de IMC e melhora de comorbidades, por exemplo.

Ainda, a farmacoterapia com agonistas de GLP-1, como a semaglutida, pode ser considerada em adolescentes ≥12 anos, com IMC ≥ percentil 95 e pelo menos duas comorbidades, após seis meses de falha terapêutica não farmacológica. A seleção deve seguir critérios rigorosos de segurança, com triagem para histórico de MEN2 e avaliação da função renal. A cirurgia bariátrica, por sua vez, é reservada a casos refratários de obesidade grau III, com avaliação multidisciplinar completa.

Prevenção e políticas públicas: foco em infância e ambiente familiar

A prevenção deve começar o mais cedo possível, com ações direcionadas à gestação e aos primeiros mil dias de vida. As políticas públicas devem reforçar o aleitamento materno, limitar a exposição a alimentos ultraprocessados e assegurar o acesso a refeições saudáveis nas escolas. 

Os programas de educação alimentar e nutricional, somados à capacitação familiar sobre sono, atividade física e uso de telas, também compõem a base da pirâmide preventiva.

Implicações para a prática clínica

De modo geral, a obesidade pediátrica extrema representa um marcador precoce de gravidade metabólica e risco cardiovascular futuro. 

Diante da tendência ascendente e da complexidade clínica envolvida, médicos devem atuar com vigilância ampliada, realizando triagem precoce e encaminhamento oportuno. 

A integração entre unidades de saúde, escolas e políticas públicas será imprescindível para conter o avanço da obesidade em crianças e adolescentes no Brasil, melhorando os números atuais e a saúde populacional. 

Continue aprofundando a sua prática clínica nas mais recentes diretrizes! Confira também nosso conteúdo sobre Doença Hepática Esteatótica Associada à Disfunção Metabólica (MASLD).

Referências:

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Gordura no fígado: como prevenir a esteatose hepática https://blog.sabin.com.br/saude/gordura-no-figado-como-prevenir-a-esteatose-hepatica/ https://blog.sabin.com.br/saude/gordura-no-figado-como-prevenir-a-esteatose-hepatica/#respond Tue, 17 Mar 2026 21:07:02 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5062 A esteatose hepática ou doença hepática gordurosa é uma condição caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura no interior dos hepatócitos, que são as principais células do fígado. Embora o órgão possua naturalmente uma pequena quantidade de gordura, o excesso pode desencadear um processo inflamatório. O grande perigo da condição é que ela pode evoluir silenciosamente […]

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A esteatose hepática ou doença hepática gordurosa é uma condição caracterizada pelo acúmulo anormal de gordura no interior dos hepatócitos, que são as principais células do fígado. Embora o órgão possua naturalmente uma pequena quantidade de gordura, o excesso pode desencadear um processo inflamatório. O grande perigo da condição é que ela pode evoluir silenciosamente para doenças hepáticas graves, como a esteatohepatite (inflamação com lesão celular), fibrose (cicatrização) e, finalmente, cirrose ou câncer de fígado.

A comunidade médica internacional alterou a nomenclatura oficial para “doença hepática esteatótica”. A atualização é necessária para contextualizar que o problema não é apenas a gordura isolada, mas sim as causas metabólicas que levam a esse estoque excessivo, como a resistência à insulina e a obesidade.

A boa notícia é que a prevenção se baseia principalmente em mudanças sustentáveis no estilo de vida e em um acompanhamento médico rigoroso, especialmente para quem já possui fatores de risco. Continue a leitura para saber como se prevenir. 

O que é a esteatose hepática?

A esteatose hepática nada mais é do que o acúmulo de lipídeos, sobretudo triglicerídeos, em mais de 5% das células do fígado. Imagine o fígado como uma usina de processamento: quando recebe mais combustível (gorduras e açúcares) do que consegue processar ou exportar, ele começa a estocar esse excedente em suas próprias células.

Essa condição é multifatorial, o que significa que várias causas podem agir ao mesmo tempo. Ela está fortemente associada à obesidade, à resistência à insulina, ao diabetes tipo 2 e ao consumo de álcool, além de haver uma forte predisposição genética envolvida. 

Um ponto importante que precisamos ressaltar é que, mesmo sendo assintomática (sem sintomas aparentes), a esteatose representa um risco real de progressão para quadros mais graves e, por isso, merece atenção precoce para evitar que o fígado sofra lesões permanentes. 

A doença hepática gordurosa não associada ao consumo de álcool é considerada a principal doença crônica do fígado no mundo inteiro e será objeto dos tópicos discutidos a seguir.

Quem tem mais risco de desenvolver esteatose?

A doença hepática gordurosa não alcoólica é um problema de saúde pública, que acomete cerca de 20% a 40% da população, tendo sua prevalência consideravelmente aumentada entre os indivíduos obesos e diabéticos. 

Dados do maior estudo epidemiológico latino-americano sobre saúde do adulto (ELSA-Brasil) mostraram uma prevalência de 35% de esteatose hepática entre os participantes, com predomínio entre homens, obesos, com baixa escolaridade e baixos níveis de atividade física.

Apesar de qualquer indivíduo ter o risco de desenvolver a condição, certos grupos apresentam maior vulnerabilidade. Pessoas com obesidade, sobrepeso, diabetes tipo 2 e a chamada síndrome metabólica são os principais afetados.

A síndrome metabólica é definida com base em um conjunto de fatores, que incluem: pressão alta, dislipidemia, glicemia de jejum alterada e aumento da circunferência abdominal. 

Estudos apontam que variantes genéticas estão relacionadas a um maior risco de acúmulo de gordura hepática, o que explica por que algumas pessoas com Índice de Massa Corporal (IMC) normal também podem ter gordura no fígado. Ademais, o risco aumenta com a idade, particularmente em homens adultos e idosos. 

Outro grupo de atenção são os pacientes com doenças cardíacas, hipertensão, dislipidemia e aqueles com hepatite C (especificamente o genótipo 3). Infelizmente, devido ao aumento da obesidade infantil, crianças e adolescentes estão igualmente vulneráveis, apresentando uma prevalência crescente dessa condição.

Por que prevenir a esteatose é importante?

A prevenção é a ferramenta mais poderosa, porque a evolução da esteatose para doenças mais graves pode ter um grande impacto na qualidade de vida dos indivíduos. Dados revelam que entre 15% e 40% das pessoas que têm apenas gordura isolada podem acabar desenvolvendo esteatohepatite, que é quando a gordura começa a inflamar e, conforme a evolução, destruir as células do fígado.

A partir desse estágio de inflamação, até 20% a 30% dos casos podem evoluir para fibrose avançada em um período de oito a 10 anos. Precisamos diferenciar a fibrose da cirrose: na fibrose, o fígado apresenta tecido cicatricial, mas ainda tem áreas saudáveis, e a estrutura do órgão está preservada. A cirrose representa uma fase final do processo fibrótico, com franca desorganização da arquitetura do fígado, presença de nódulos de regeneração e acentuada perda funcional hepática.

Em estágio de cirrose, o risco de descompensação hepática e carcinoma hepatocelular (câncer de fígado) aumenta drasticamente, elevando a mortalidade. Além disso, a esteatohepatite está ligada a um maior risco de infartos, derrames e comprometimento renal.

Quais hábitos ajudam a prevenir a esteatose?

Para prevenir ou até reverter a esteatose nas suas fases iniciais, as evidências atuais recomendam estratégias cujo foco é a adoção de estilo de vida saudável. Dessa forma, uma vez feito o diagnóstico de doença gordurosa do fígado não alcoólica, modificações no estilo de vida e tratamento das condições metabólicas de base são indicadas para todos os pacientes. 

Os pilares para o tratamento preventivo da esteatose hepática se baseiam na alimentação saudável, prática regular de exercícios físicos, controle do peso corporal e moderação no consumo de bebidas alcoólicas, que serão detalhados a seguir. 

Alimentação saudável e equilibrada

O que colocamos no prato dita a saúde do fígado. Dietas pobres em gorduras saturadas e açúcares refinados, porém ricas em fibras, vegetais e proteínas magras, favorecem o órgão. Um destaque especial deve ser dado à dieta mediterrânea, que prioriza azeite de oliva, peixes, castanhas e vegetais, sendo muito eficaz na redução da inflamação hepática e na melhora da sensibilidade à insulina. O passo mais importante aqui é reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados, refrigerantes e qualquer bebida açucarada.

Prática regular de exercícios físicos

O movimento ajuda o corpo a consumir o estoque de gordura do fígado. A meta ideal é realizar pelo menos 150 minutos semanais de exercícios físicos moderados. É interessante notar que tanto os exercícios aeróbicos (como caminhar e correr) quanto os de resistência (como musculação) são promissores, inclusive para pessoas que ainda não conseguiram uma perda de peso substancial.

Controle de peso e composição corporal

Não se trata apenas de estética, mas de saúde celular. A perda de 5% a 10% do peso corporal já é capaz de reverter a esteatose e reduzir a inflamação do fígado de maneira substancial. Para quem tem sobrepeso ou obesidade, o ideal é buscar um acompanhamento multidisciplinar com nutricionistas e médicos para garantir que a perda de peso seja saudável e sustentável.

Moderação no consumo de álcool

O álcool é altamente tóxico para o fígado. Mesmo em pacientes cuja gordura tem origem metabólica (como no diabetes), o consumo excessivo de álcool atua como um fator de risco agravante. Para quem já possui fatores de risco, a recomendação médica mais segura é evitar o álcool completamente para não sobrecarregar ainda mais as células hepáticas.

Como é feito o diagnóstico precoce?

Como vimos até aqui, a doença gordurosa não alcoólica do fígado pode variar desde uma simples esteatose hepática até a esteatohepatite, com ou sem fibrose e cirrose. A maioria dos casos de gordura no fígado pode ser detectada em exames de rotina, o que reforça a necessidade do check-up periódico.

Métodos de imagem

Métodos de imagem compreendem os melhores meios para se identificar a esteatose hepática. A ultrassonografia abdominal é um método prático, acessível e indolor para a identificação da presença de gordura no fígado, principalmente quando essa gordura excede 30% do órgão.  

Contudo, ela tem limitações em casos muito leves (presença de gordura entre 5% e 30%). Para esses casos, a ressonância magnética, em especial com a técnica de Fração de Gordura por Densidade de Prótons (MRI-PDFF), é mais eficiente e precisa, embora de custo mais elevado. A elastografia é um outro exame de imagem não invasivo, que permite avaliar a rigidez ou o grau de dureza do fígado. Ela é potencialmente relevante para detectar e quantificar cicatrizes (fibrose) e cirrose.

Exames laboratoriais e índices

No sangue, o médico avalia enzimas como TGO, TGP e GGT; se estiverem alteradas, podem indicar lesão nas células do fígado. Existe também uma ferramenta chamada Fatty Liver Index (FLI), que usa dados como o IMC, a medida da cintura e exames de triglicerídeos para calcular o risco de gordura no fígado. Vale lembrar: diabéticos tipo 2 devem fazer esse rastreamento de forma periódica, mesmo que não sintam nada.

O que fazer se você tem fatores de risco?

Se você tem histórico na família, convive com a obesidade ou o diabetes, a orientação é prática: não ignore o risco. O monitoramento constante é a única forma de assegurar que o fígado permaneça saudável.

Recomendamos que você agende consultas com um clínico geral, hepatologista ou endocrinologista. Esses profissionais solicitarão exames de imagem e laboratoriais regulares para acompanhar a situação. Ressaltamos que as mudanças precoces no estilo de vida são extremamente eficazes e podem evitar que a doença progrida para fases irreversíveis.

A importância do cuidado contínuo

Cuidar do fígado é uma jornada contínua que depende de escolhas conscientes todos os dias. A prevenção da esteatose exige alimentação saudável, movimento e, claro, assistência médica de qualidade.

Um estilo de vida equilibrado protege o seu fígado, mas também blinda o seu coração e melhora a sua qualidade de vida como um todo. Manter hábitos saudáveis é o melhor investimento que você pode fazer para garantir um futuro com mais disposição e saúde. 

Deseja saber mais sobre como monitorar a saúde do seu fígado?Confira nosso conteúdo sobre os principais exames para avaliar a saúde do fígado.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

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O hiperaldosteronismo primário (HAP) é reconhecido como a causa mais prevalente de hipertensão secundária. Atinge entre 5% e 14% dos pacientes na atenção primária, e até 30% nos centros de referência, mantendo-se, no entanto, amplamente subdiagnosticado. Mesmo em pacientes com níveis pressóricos semelhantes aos da hipertensão essencial, o HAP está associado ao maior risco de eventos cardiovasculares, incluindo acidente vascular cerebral, fibrilação atrial, doença arterial coronariana e disfunção renal.

A nova diretriz da Endocrine Society (2025) propõe mudanças significativas no rastreio da condição, recomendando triagem ampliada para todos os hipertensos, sempre que viável, com o intuito de permitir intervenções precoces e específicas. O documento, desenvolvido com base na metodologia GRADE, foca em aplicabilidade clínica, decisões compartilhadas e custo-efetividade.

Continue a leitura para se atualizar sobre a diretriz e as novidades relacionadas.

Importância da triagem ampliada

Historicamente associada à presença de hipocalemia, a triagem para o hiperaldosteronismo primário atual deve ultrapassar esse critério. Segundo a diretriz, a maioria dos pacientes com HAP é normocalêmica, o que reforça a necessidade de triagem mesmo na ausência de alterações do potássio sérico. A recomendação é que todos os indivíduos com hipertensão sejam considerados para triagem, conforme a disponibilidade de recursos e a capacidade assistencial. 

Estudos demonstram que indivíduos com HAP têm risco 2,5 vezes maior de AVC, 3,5 vezes maior de fibrilação atrial e o dobro de risco de doença renal, em comparação aos hipertensos essenciais. Assim, ao permitir o início de terapias direcionadas, sejam farmacológicas ou cirúrgicas, o diagnóstico precoce proporciona melhor controle pressórico, menor carga medicamentosa e redução da morbimortalidade.

Caminho diagnóstico do hiperaldosteronismo primário

De modo geral, o diagnóstico do hiperaldosteronismo primário inicia-se com a dosagem de aldosterona plasmática e atividade de renina, seguida pelo cálculo da razão aldosterona/renina (RAR). A coleta deve ser realizada pela manhã, com o paciente em posição sentada, sem restrição de sódio. 

Um resultado sugestivo inclui aldosterona ≥10 ng/dL com renina suprimida (PRA ≤1 ng/mL/h), e RAR superior a 20 por imunoensaio ou 15 por LC-MS/MS. Nos casos em que a suspeita clínica é intermediária, os testes confirmatórios são recomendados. 

Entre os mais utilizados, estão o teste de supressão com solução salina intravenosa e os testes com furosemida, tanto por via oral quanto intravenosa. Já o teste com captopril, tradicionalmente usado, vem sendo progressivamente abandonado, dada sua menor sensibilidade. É importante notar que a confirmação pode ser dispensada quando há RAR francamente elevada associada à hipocalemia.

Uma vez confirmada a produção autônoma de aldosterona, procede-se à avaliação de imagem, sendo a tomografia das adrenais o exame inicial. Para definir se o quadro é unilateral (potencialmente curável por cirurgia) ou bilateral (tratável com medicação), a amostragem venosa adrenal (AVA) permanece como o padrão-ouro. A exceção fica para pacientes jovens com adenoma típico unilateral e hipocalemia. Em portadores de adenoma adrenal, a realização do teste de supressão com dexametasona 1 mg overnight é indicada para excluir secreção autônoma de cortisol, que pode coexistir com o HAP e influenciar a conduta terapêutica.

Estratégias terapêuticas no HAP confirmado

A conduta terapêutica no HAP deve ser individualizada de acordo com a lateralização da produção de aldosterona e a elegibilidade do paciente para cirurgia.

Nos casos bilaterais ou naqueles em que a cirurgia não é uma opção, a terapia de primeira linha consiste na administração de antagonistas de receptor mineralocorticoide (ARM)

A espironolactona, por exemplo, é amplamente utilizada pela sua eficácia e custo reduzido, embora possa causar efeitos adversos hormonais. Quando há intolerância, pode-se optar por eplerenona ou finerenona, que apresentam maior seletividade pelos receptores mineralocorticoides e menor ação nos receptores de androgênio e progesterona. Durante o tratamento, a elevação da renina plasmática é um marcador útil de eficácia, refletindo bloqueio adequado da ação da aldosterona.

Para pacientes com HAP unilateral confirmado, a adrenalectomia laparoscópica é a abordagem de escolha. No pós-operatório, recomenda-se o monitoramento de cortisol para detecção precoce de insuficiência adrenal transitória.

Abordagens no HAP resistente

Quando a hipertensão persiste mesmo com ARM em doses usuais, o paciente deve ser avaliado quanto à adesão ao tratamento, ingestão de sódio e resposta laboratorial. A diretriz recomenda titulação agressiva dos ARM, respeitando limites de segurança em relação à função renal e ao potássio.

A restrição de sódio (<5 g/dia) deve ser reforçada como parte do manejo, ainda que frequentemente negligenciada. A amilorida, por exemplo, pode ser considerada em situações de contraindicação ao uso de ARM, embora não substitua seu efeito de forma equivalente.

Se, mesmo após essas intervenções, a pressão arterial permanecer elevada, deve-se reavaliar a hipótese de doença adrenal unilateral não previamente detectada e considerar repetição da AVA como parte do estudo diagnóstico.

Monitoramento e seguimento

O seguimento do paciente com hiperaldosteronismo primário é uma etapa fundamental para garantir controle clínico e segurança terapêutica. Orienta-se monitorar pressão arterial, eletrólitos, função renal e renina plasmática após dois a três meses do início ou ajuste da dose de ARM e, então, anualmente.

Durante o tratamento, pode haver uma queda transitória da taxa de filtração glomerular, especialmente em pacientes com hiperfiltração preexistente. Esse achado deve ser interpretado como sinal de bloqueio eficaz da aldosterona, e não como lesão renal aguda.

Após a adrenalectomia, o acompanhamento deve se estender por pelo menos 12 meses, com foco na avaliação da resposta pressórica, eletrólitos, cortisol e sinais de possível recidiva.

Lacunas e perspectivas futuras

Apesar do avanço conceitual e clínico das novas recomendações, algumas lacunas permanecem. Ainda faltam ensaios clínicos randomizados que sustentem com robustez o impacto da triagem universal em desfechos clínicos. Ademais, a falta de padronização da RAR entre diferentes métodos laboratoriais é um desafio técnico que compromete a reprodutibilidade dos resultados.

Há também incertezas quanto aos pontos de corte ideais da RAR em populações especiais, como idosos, pacientes com doença renal crônica ou sob uso de medicamentos que interferem no eixo renina-aldosterona. E, mesmo promissores, os inibidores da aldosterona sintase não estão amplamente disponíveis, carecendo de estudos de longo prazo.

Por fim, a diretriz enfatiza a importância de uma abordagem multidisciplinar, baseada em decisões compartilhadas, e incentiva a pesquisa translacional sobre os mecanismos da secreção autônoma de aldosterona e novas estratégias terapêuticas.

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Referências:

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