Blog Sabin https://blog.sabin.com.br/ Conhecimento aliado ao bem-estar Mon, 22 Jun 2026 20:33:24 +0000 pt-BR hourly 1 https://blog.sabin.com.br/wp-content/uploads/2025/10/cropped-03_simbolo-vermelho-1-32x32.png Blog Sabin https://blog.sabin.com.br/ 32 32 Pancreatite aguda: entenda as causas, os sintomas e como prevenir a doença https://blog.sabin.com.br/saude/pancreatite-aguda-como-prevenir/ https://blog.sabin.com.br/saude/pancreatite-aguda-como-prevenir/#respond Tue, 23 Jun 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5184 A pancreatite aguda tem despertado o interesse do público em geral, devido principalmente à ampla repercussão midiática sobre o uso de medicamentos injetáveis voltados ao emagrecimento, como os análogos do receptor de GLP-1. Embora o tema atraia atenção considerável de pacientes e profissionais, pesquisas na área ainda buscam evidências conclusivas que estabeleçam uma relação direta […]

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A pancreatite aguda tem despertado o interesse do público em geral, devido principalmente à ampla repercussão midiática sobre o uso de medicamentos injetáveis voltados ao emagrecimento, como os análogos do receptor de GLP-1.

Embora o tema atraia atenção considerável de pacientes e profissionais, pesquisas na área ainda buscam evidências conclusivas que estabeleçam uma relação direta de causalidade entre essas terapias e a inflamação pancreática. 

O pâncreas é um órgão vital, localizado na região abdominal superior, responsável por funções exócrinas importantes para a digestão e funções endócrinas essenciais para o controle metabólico e glicêmico. Qualquer processo de inflamação súbita nesse parênquima configura um quadro de urgência que exige atenção médica imediata, a fim de evitar a progressão para falência do órgão e complicações sistêmicas. Continue a leitura para compreender melhor a condição. 

O que é pancreatite aguda e quais os seus sinais?

A pancreatite aguda caracteriza-se como um processo inflamatório súbito do pâncreas. Diferentemente da forma crônica, apresenta caráter transitório, embora possa evoluir para quadros graves. A fisiopatologia envolve a ativação precoce de enzimas digestivas dentro do próprio órgão, levando à autodigestão do tecido pancreático. A identificação precoce das manifestações clínicas é crucial para o prognóstico favorável do paciente.

O sintoma clássico (e mais prevalente) é a dor abdominal intensa, localizada na parte superior do abdômen. Essa dor apresenta uma característica semiológica marcante: a irradiação para as costas, frequentemente descrita como uma dor “em faixa”. Além do quadro de dor, o espectro clínico inclui sintomas e sinais secundários de grande relevância diagnóstica:

  • náuseas frequentes e episódios de vômitos que não aliviam a dor;
  • sensibilidade abdominal acentuada ao toque durante o exame físico;
  • distensão abdominal e mal-estar geral súbito.

Principais causas e fatores de risco

A etiologia da pancreatite aguda é multifatorial, porém dois gatilhos principais respondem pela maioria dos casos clínicos registrados. A presença de cálculos biliares (pedra na vesícula) é a causa mais comum, ocorrendo quando um cálculo migra e obstrui o ducto comum, impedindo a drenagem das enzimas pancreáticas. 

Em segundo lugar, o consumo excessivo e prolongado de álcool, que atua como um agente tóxico direto para as células acinares do pâncreas. Existem, ainda, fatores metabólicos e de saúde que elevam significativamente o risco de desenvolvimento da doença, conforme visto a seguir.

  • Hipertrigliceridemia: níveis muito elevados de triglicerídeos no sangue podem desencadear a inflamação.
  • Obesidade e diabetes: condições que alteram o perfil metabólico e sobrecarregam as funções pancreáticas.
  • Estilo de Vida: o tabagismo é um componente agravante e independente para doenças pancreáticas.
  • Outros componentes: o uso de determinados medicamentos, infecções virais ou bacterianas e a predisposição genética também figuram como causas menos frequentes, mas clinicamente relevantes de pancreatite aguda.

O uso de medicamentos para emagrecer e o pâncreas

No cenário contemporâneo, a análise sobre os agonistas do receptor de GLP-1 (conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras) é necessária para evitar alarmismos infundados. Evidências científicas atuais indicam que o risco de pancreatite associado a esses fármacos é considerado baixo. Até o momento, não há nexo causal comprovado que sustente a interrupção desses tratamentos em larga escala por medo de inflamação pancreática.

Entretanto, a vigilância clínica permanece indispensável. Antes do início dos tratamentos farmacológicos para perda de peso, é preciso reforçar a importância da monitorização rigorosa em pacientes que já apresentam histórico de doenças biliares, dislipidemias severas ou outros fatores de risco preexistentes. O diagnóstico correto deve sempre prevalecer sobre suposições baseadas apenas no uso do medicamento.

O Sabin Diagnóstico e Saúde oferece, em seu portfólio, o exame Perfil Genético GLP-1: Semaglutida e Tirzepatida, que avalia variantes genéticas associadas à eficácia e à tolerância a esses fármacos, fornecendo informações que podem auxiliar os profissionais de saúde na definição de estratégias terapêuticas mais individualizadas.

Como é feito o diagnóstico da pancreatite?

O diagnóstico da pancreatite aguda é estabelecido por médicos através da combinação criteriosa de pilares clínicos e laboratoriais. O protocolo geralmente requer o preenchimento de critérios específicos baseados no histórico do paciente, exame físico e exames complementares.

Os exames de sangue, embora não específicos, desempenham um papel relevante, em particular a dosagem sérica das enzimas amilase e lipase. Durante uma crise aguda, os níveis dessas enzimas no sangue elevam-se de maneira expressiva, muitas vezes atingindo três vezes ou mais o valor de referência normal.

Adicionalmente, os exames de imagem são fundamentais para avaliar a extensão da inflamação e identificar possíveis complicações, como necrose ou coleções líquidas. Abaixo, as modalidades utilizadas.

  • Ultrassonografia abdominal: frequentemente utilizada para identificar cálculos biliares.
  • Tomografia computadorizada (TC) com contraste: o padrão-ouro para avaliar a gravidade da inflamação e a presença de lesões estruturais no órgão.
  • Ressonância magnética: útil em casos nos quais a visualização por outros métodos é inconclusiva.

Tratamento inicial e avaliação de risco

O manejo inicial foca no suporte clínico e na estabilização hemodinâmica do paciente. O tratamento é conduzido com a reposição rigorosa de líquidos e eletrólitos, por via intravenosa, para manter a perfusão orgânica. O controle da dor é prioridade, utilizando analgesia adequada, enquanto recomenda-se um breve período de repouso do órgão (jejum ou dieta controlada).

O objetivo central nessa fase é a identificação da causa subjacente e a estratificação de risco precoce. Avaliar a gravidade do quadro logo nas primeiras horas permite definir o nível de assistência necessário, visando reduzir drasticamente as chances de deterioração clínica e complicações sistêmicas.

Formas de prevenção e cuidados com a saúde

A prevenção da pancreatite aguda está intrinsecamente ligada ao manejo de doenças de base e à adoção de hábitos saudáveis. O controle rigoroso do perfil lipídico, especialmente a gestão adequada do colesterol e dos triglicerídeos, é uma medida preventiva primária. Pacientes com diagnóstico de cálculos na vesícula devem seguir acompanhamento médico para avaliar a necessidade de intervenção cirúrgica antes que ocorra a migração do cálculo para o ducto pancreático.

Confira algumas mudanças estruturais no estilo de vida, primordiais para reduzir a sobrecarga inflamatória no organismo.

  • Cessação do tabagismo: eliminar o cigarro protege o parênquima pancreático.
  • Abstinência ou moderação severa de álcool: reduz o risco de danos tóxicos diretos.
  • Manutenção de peso adequado: a adoção de uma alimentação saudável e a prática regular de exercícios físicos minimizam substancialmente o risco de distúrbios metabólicos e diabetes.

A compreensão desses fatores e a busca por diagnóstico especializado ao primeiro sinal de dor abdominal persistente são os melhores caminhos para a preservação da saúde pancreática. Aproveite para aprofundar seus conhecimentos sobre outras condições que afetam o sistema digestivo e saiba o que é a cirrose hepática.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

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Szatmary P, Grammatikopoulos T, Cai W, Huang W, Mukherjee R, Halloran C, Beyer G, Sutton R. Acute Pancreatitis: Diagnosis and Treatment. Drugs. 2022 Aug;82(12):1251-1276. doi: 10.1007/s40265-022-01766-4. Epub 2022 Sep 8. PMID: 36074322; PMCID: PMC9454414.

Lee, Linda S. MD, FACG; Gardner, Timothy B. MD, MS, FACG. Pancreatic Cysts and Pancreatitis in the Older Adult. The American Journal of Gastroenterology 120():p S27-S33, October 2025. | DOI: 10.14309/ajg.0000000000003641.04

Bálint ER, Fűr G, Kiss L, Németh DI, Soós A, Hegyi P, Szakács Z, Tinusz B, Varjú P, Vincze Á, Erőss B, Czimmer J, Szepes Z, Varga G, Rakonczay Z Jr. Assessment of the course of acute pancreatitis in the light of aetiology: a systematic review and meta-analysis. Sci Rep. 2020 Oct 21;10(1):17936. doi: 10.1038/s41598-020-74943-8. PMID: 33087766; PMCID: PMC7578029.

Pratley R, Saeed ZI, Casu A. Incretin mimetics and acute pancreatitis: enemy or innocent bystander? Curr Opin Gastroenterol. 2024 Sep 1;40(5):404-412. doi: 10.1097/MOG.0000000000001057. Epub 2024 Jul 4. PMID: 38967917.

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Vírus Nipah: entenda o que é a doença e qual a situação atual https://blog.sabin.com.br/saude/virus-nipah-sintomas-e-formas-de-transmissao/ https://blog.sabin.com.br/saude/virus-nipah-sintomas-e-formas-de-transmissao/#respond Thu, 28 May 2026 20:49:55 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5172 O vírus Nipah (NiV) é um agente infeccioso zoonótico com elevado potencial de letalidade, classificado na família Paramyxoviridae, gênero Henipavirus. Desde sua descoberta, em 1998, em um surto ocorrido na Malásia, o NiV vem sendo monitorado globalmente por autoridades de saúde, devido à sua capacidade de causar doenças graves em humanos, incluindo encefalites e pneumonias.  […]

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O vírus Nipah (NiV) é um agente infeccioso zoonótico com elevado potencial de letalidade, classificado na família Paramyxoviridae, gênero Henipavirus. Desde sua descoberta, em 1998, em um surto ocorrido na Malásia, o NiV vem sendo monitorado globalmente por autoridades de saúde, devido à sua capacidade de causar doenças graves em humanos, incluindo encefalites e pneumonias. 

A origem do vírus é atribuída ao contato entre humanos e animais silvestres, mais especificamente morcegos do gênero Pteropus, considerados os principais reservatórios. Esses morcegos frugívoros carregam o NiV em seu organismo sem apresentarem sinais de adoecimento, o que torna a identificação e o controle ainda mais desafiadores em áreas com grande biodiversidade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o vírus Nipah como um patógeno prioritário para pesquisa e desenvolvimento de medidas preventivas, dado seu potencial epidêmico e a ausência de terapias específicas ou vacinas disponíveis. Embora a maioria dos casos, até agora, esteja restrita ao sul da Ásia, especialmente Bangladesh e Índia, o alerta internacional se mantém justamente pelo risco associado ao surgimento de novos surtos em locais com práticas culturais e ecológicas semelhantes. 

A comunicação clara e baseada em dados técnicos é importante para tranquilizar a população e evitar interpretações alarmistas sobre o real cenário da doença. Continue a leitura para entender a situação atual do vírus.Dinâmica de transmissão: como o vírus chega aos humanos

A principal forma de transmissão do vírus Nipah ocorre a partir do contato direto com fluidos corporais de animais infectados, sendo os morcegos os principais vetores naturais

Em muitos casos, os surtos tiveram início após a ingestão de seiva de tamareira crua, contaminada por secreções ou urina de morcegos, prática comum em algumas regiões rurais do sudeste asiático. Esse tipo de exposição alimentar representa uma porta de entrada direta do vírus no organismo humano, sem que haja uma mediação por outro hospedeiro. 

Além disso, suínos podem atuar como hospedeiros intermediários, como se observou no surto original da Malásia, o que aumenta o risco de transmissão em contextos de criação animal intensiva.

A transmissão entre pessoas também é possível, sobretudo quando há contato próximo e prolongado com pacientes sintomáticos. Essa forma de contágio é particularmente relevante em ambientes hospitalares e domiciliares, onde o uso inadequado ou a ausência de equipamentos de proteção individual (EPIs) favorece a disseminação. 

Pacientes com manifestações respiratórias graves apresentam maior carga viral, tornando-se fontes mais potentes de infecção. No entanto, vale destacar que, atualmente, a transmissão sustentada de pessoa a pessoa é considerada limitada, o que tem contribuído para a contenção dos surtos em áreas geográficas pontuais.

Manifestações clínicas e o impacto sistêmico da infecção

O período de incubação do vírus Nipah varia entre quatro e 14 dias, com média de 9,5 dias, e os sintomas iniciais são frequentemente inespecíficos. A doença começa de forma semelhante a outras infecções virais, com febre persistente, dor de cabeça intensa, dores musculares e episódios de vômito. Esses sintomas podem ser confundidos com quadros gripais ou gastrointestinais, o que dificulta a suspeita clínica nos estágios iniciais e atrasa o diagnóstico definitivo. À medida que a doença avança, muitos pacientes evoluem rapidamente para formas graves, exigindo internação e suporte intensivo.

H3 – Complicações neurológicas e respiratórias graves

A complicação mais temida da infecção pelo NiV é a encefalite aguda, inflamação no cérebro que pode se manifestar com sinais de confusão mental, convulsões, desorientação e, em casos severos, coma. 

O envolvimento do sistema nervoso central é uma das principais causas de óbito nos surtos registrados até o presente. O comprometimento pulmonar também é frequente, com evolução para a síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA) e quadros de pneumonia atípica. Essas manifestações exigem cuidados intensivos e, muitas vezes, ventilação mecânica. 

Mesmo entre os sobreviventes, há relatos de sequelas neurológicas duradouras, como alterações cognitivas, motoras e comportamentais, o que reforça a gravidade do vírus e seu impacto na qualidade de vida a longo prazo.

Diagnóstico laboratorial e manejo clínico

Em virtude da alta letalidade e do risco biológico do vírus, o diagnóstico do NiV requer laboratórios com nível máximo de biossegurança (BSL-4). A técnica mais utilizada para confirmar a presença do vírus é a RT-PCR, capaz de detectar material genético viral em diferentes amostras biológicas, como sangue, líquor e urina

Em situações nas quais o paciente já ultrapassou o período agudo, testes sorológicos podem auxiliar na identificação de anticorpos produzidos em resposta à infecção. O acesso limitado a esses recursos laboratoriais em regiões endêmicas representa um desafio à confirmação rápida dos casos e ao controle dos surtos.

Quanto ao tratamento, por ora, não existe nenhum antiviral específico aprovado para o vírus Nipah. O manejo clínico é inteiramente baseado em suporte, com foco na estabilização hemodinâmica, controle da febre, suporte respiratório e prevenção de complicações secundárias. O prognóstico é reservado, principalmente em pacientes que evoluem com manifestações neurológicas e respiratórias simultâneas.

Panorama epidemiológico: a situação na Índia e em Bangladesh

Bangladesh registra surtos recorrentes de Nipah desde 2001, com maior frequência entre os meses mais frios do ano, sugerindo influência sazonal na disseminação do vírus. 

A Índia também notificou casos, em especial no estado de Kerala, onde as autoridades de saúde realizaram ações rápidas para contenção. O que se observa é um padrão de surtos localizados e relativamente contidos, apesar da alta taxa de mortalidade, variando entre 40% e 75%, de acordo com a virulência da cepa e a resposta assistencial disponível. Esses índices, mesmo que alarmantes, devem ser interpretados com cautela, pois refletem contextos de baixa estrutura hospitalar e diagnóstica.

A OMS reconhece o potencial epidêmico do vírus, mas enfatiza que, no momento, o risco de uma pandemia é baixo, dado o padrão limitado de transmissão entre pessoas. Os fatores que têm evitado uma expansão global incluem a ausência de transmissibilidade sustentada, o foco em regiões rurais com baixo fluxo populacional e as respostas rápidas dos sistemas locais de saúde. Assim, embora seja importante manter a vigilância e investir em pesquisa, não há motivo para pânico generalizado.

Estratégias de prevenção e controle

A prevenção da infecção pelo vírus Nipah está diretamente ligada a mudanças comportamentais e medidas de biossegurança. Evitar o consumo de alimentos que possam ter sido contaminados por animais, como frutas parcialmente comidas por morcegos e seiva crua de tamareira, é uma recomendação básica em áreas endêmicas. Lavar cuidadosamente frutas e verduras, especialmente em regiões rurais, reduz o risco de ingestão acidental do vírus. A vigilância ativa de populações de morcegos e suínos, associada ao monitoramento ambiental, é essencial para identificar precocemente possíveis focos de infecção.

Em ambientes de saúde, o uso rigoroso de EPIs por profissionais e cuidadores é indispensável para evitar a propagação da doença. O isolamento de pacientes sintomáticos, o controle de visitas e o treinamento das equipes sobre biossegurança são medidas já implementadas com sucesso em surtos anteriores. Entretanto, ainda não há vacina disponível para uso em humanos, o que reforça a importância da prevenção primária. 

A comunicação clara, baseada em evidências científicas, é a melhor aliada para garantir que a população compreenda os riscos reais, sem recorrer a interpretações alarmistas ou desinformadas. Para entender mais sobre doenças virais com alto potencial de letalidade, leia também nosso conteúdo sobre o vírus Marburg.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

Satter SM, Aquib WR, Sultana S, Sharif AR, Nazneen A, Alam MR, Siddika A, Akther Ema F, Chowdhury KIA, Alam AN, Rahman M, Klena JD, Rahman MZ, Banu S, Shirin T, Montgomery JM. Tackling a global epidemic threat: Nipah surveillance in Bangladesh, 2006-2021. PLoS Negl Trop Dis. 2023 Sep 27;17(9):e0011617. doi: 10.1371/journal.pntd.0011617. PMID: 37756301; PMCID: PMC10529576.

Kenmoe S, Demanou M, Bigna JJ, Nde Kengne C, Fatawou Modiyinji A, Simo FBN, Eyangoh S, Sadeuh-Mba SA, Njouom R. Case fatality rate and risk factors for Nipah virus encephalitis: A systematic review and meta-analysis. J Clin Virol. 2019 Aug;117:19-26. doi: 10.1016/j.jcv.2019.05.009. Epub 2019 May 21. PMID: 31132674.

Ang BSP, Lim TCC, Wang L. Nipah Virus Infection. J Clin Microbiol. 2018 May 25;56(6):e01875-17. doi: 10.1128/JCM.01875-17. PMID: 29643201; PMCID: PMC5971524.

Hossain MJ, Gurley ES, Montgomery JM, Bell M, Carroll DS, Hsu VP, Formenty P, Croisier A, Bertherat E, Faiz MA, Azad AK, Islam R, Molla MA, Ksiazek TG, Rota PA, Comer JA, Rollin PE, Luby SP, Breiman RF. Clinical presentation of nipah virus infection in Bangladesh. Clin Infect Dis. 2008 Apr 1;46(7):977-84. doi: 10.1086/529147. PMID: 18444812.

Skowron K, Bauza-Kaszewska J, Grudlewska-Buda K, Wiktorczyk-Kapischke N, Zacharski M, Bernaciak Z, Gospodarek-Komkowska E. Nipah Virus-Another Threat From the World of Zoonotic Viruses. Front Microbiol. 2022 Jan 25;12:811157. doi: 10.3389/fmicb.2021.811157. PMID: 35145498; PMCID: PMC8821941.

Frenck RW Jr, Naficy A, Feser J, et al. Safety and immunogenicity of a Nipah virus vaccine (HeV-sG-V) in adults: a single-centre, randomised, observer-blind, placebo-controlled, phase 1 study. Lancet. 2025 Dec 13;406(10521):2792-2803. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01390-X. Epub 2025 Nov 14. PMID: 41248666.

Madhukalya R, Yadav U, Parray HA, Raj N, Lupitha SS, Kumar V, Saroj A, Agarwal V, Kumar D, Das S, Kumar R. Nipah virus: pathogenesis, genome, diagnosis, and treatment. Appl Microbiol Biotechnol. 2025 Jul 1;109(1):158. doi: 10.1007/s00253-025-13474-6. PMID: 40593310; PMCID: PMC12214056.

Paliwal S, Shinu S, Saha R. An emerging zoonotic disease to be concerned about – a review of the nipah virus. J Health Popul Nutr. 2024 Oct 28;43(1):171. doi: 10.1186/s41043-024-00666-5. PMID: 39468679; PMCID: PMC11514798.

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Avanços na imunização: a vacina contra a dengue do Instituto Butantan https://blog.sabin.com.br/medicos/a-nova-vacina-contra-a-dengue-do-instituto-butantan/ https://blog.sabin.com.br/medicos/a-nova-vacina-contra-a-dengue-do-instituto-butantan/#respond Fri, 22 May 2026 15:38:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5163 A busca por uma estratégia vacinal robusta e de alta adesão para o controle da dengue no Brasil atinge um marco histórico com o desenvolvimento da Butantan-DV. Essa vacina tetravalente, composta por vírus vivos atenuados, utiliza uma plataforma tecnológica derivada da formulação TV003, projetada para induzir uma resposta imune equilibrada contra os quatro sorotipos do […]

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A busca por uma estratégia vacinal robusta e de alta adesão para o controle da dengue no Brasil atinge um marco histórico com o desenvolvimento da Butantan-DV. Essa vacina tetravalente, composta por vírus vivos atenuados, utiliza uma plataforma tecnológica derivada da formulação TV003, projetada para induzir uma resposta imune equilibrada contra os quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4). 

O diferencial técnico da solução nacional reside na estabilidade imunogênica e na praticidade logística, sendo estruturada para fornecer proteção ampla com um esquema de dose única. Esse fator é determinante para superar um dos maiores gargalos das campanhas de vacinação pública: a perda de seguimento em esquemas multidose, garantindo que a soroconversão e a proteção epidemiológica sejam estabelecidas de forma imediata e definitiva no ato da administração. Prossiga a leitura para compreender o funcionamento. 

Eficácia clínica e proteção em diferentes perfis sorológicos

Dados consolidados dos ensaios clínicos de fase 3 revelam uma eficácia global de 79,6%, conforme estudo NEJM realizado após dois anos de seguimento, posicionando a Butantan-DV como uma ferramenta de alta performance para a saúde pública. 

Um dos pontos mais críticos na análise de vacinas contra a dengue é o desempenho em indivíduos sem exposição prévia ao vírus, uma vez que a vacinação em soronegativos exige segurança rigorosa para evitar o risco de doença grave por sensibilização. Nesse grupo, a vacina demonstrou eficácia de 73,6%. Já em pacientes soropositivos, que possuem imunidade prévia a pelo menos um dos sorotipos, a eficácia elevou-se para 89,2%, evidenciando um robusto efeito de reforço na resposta imunológica.

A sustentabilidade da proteção é outro fator interessante documentado nos estudos. O acompanhamento de longo prazo indica que a eficácia vacinal se mantém resiliente, apresentando índices em torno de 65% após cinco anos da administração da dose única. Essa durabilidade da resposta imune sugere que o novo imunizante é capaz de mimetizar a infecção natural de forma controlada, induzindo um padrão de resposta protetora no intervalo avaliado até então.

Proteção contra formas graves e sinais de alarme

O impacto mais relevante da Butantan-DV é sua capacidade de prevenir o desfecho clínico desfavorável. A vacina apresentou eficácia situada entre 80% e 89% especificamente contra a dengue, com sinais de alarme e formas graves da doença. Essa redução drástica na morbidade tem o potencial de aliviar significativamente a carga sobre o sistema hospitalar durante períodos epidêmicos. 

No decorrer da análise, houve uma predominância da circulação dos sorotipos DENV-1 e DENV-2, contra os quais a vacina demonstrou resposta imune específica e protetiva. O monitoramento contínuo dos demais sorotipos segue como parte do rigor científico para assegurar a cobertura universal prometida pela formulação tetravalente.

Indicações, posologia e perfil de segurança da Butantan-DV

A indicação clínica da Butantan-DV abrange uma ampla faixa etária, sendo recomendada para indivíduos saudáveis de 12 a 59 anos. Um diferencial importante para o manejo clínico é a independência do histórico de exposição prévia; ou seja, a vacina pode ser administrada tanto em indivíduos que nunca tiveram dengue quanto naqueles que já foram infectados, sem a necessidade de triagem sorológica prévia. O protocolo de administração é simplificado: uma dose única aplicada via subcutânea, o que otimiza o fluxo de atendimento em consultórios e centros de imunização.

No que tange à segurança, o perfil observado nos ensaios clínicos é favorável. Os eventos adversos sistêmicos mais frequentes foram classificados como leves a moderados, incluindo cefaleia e rash cutâneo, que são reações esperadas em plataformas de vírus vivo atenuado. A incidência de eventos adversos graves foi considerada baixa, reforçando a confiabilidade do imunobiológico. 

No entanto, as contraindicações seguem o padrão para vacinas de vírus vivo: não deve ser administrada em gestantes, lactantes e indivíduos imunocomprometidos, visando preservar a integridade clínica desses grupos específicos.

Critérios de elegibilidade e manejo na prática clínica

A implementação da Butantan-DV na rotina médica é facilitada pela ausência de pré-requisitos laboratoriais. A dispensa de sorologia prévia permite que o médico assistente decida pela imunização imediata, acelerando a proteção da população suscetível. Em pacientes que apresentam doenças crônicas, a vacina pode ser aplicada desde que as condições estejam clinicamente controladas, seguindo os mesmos critérios de inclusão rigorosos adotados nos ensaios clínicos realizados no Brasil.

É imperativo ressaltar a orientação sobre a intercambialidade de imunobiológicos: a Butantan-DV não deve ser administrada como continuidade do esquema em indivíduos que já iniciaram imunização com Qdenga®.

A recomendação técnica é manter a consistência do esquema iniciado ou aguardar as orientações oficiais de transição, preservando a segurança imunológica do paciente e a clareza dos dados de eficácia individual.

Lembrando que os ensaios clínicos realizados com a nova vacina não incluíram indivíduos previamente vacinados contra a dengue com outros imunizantes.

Incorporação no sistema de saúde e perspectivas de mercado

A chegada da Butantan-DV ao Sistema Único de Saúde (SUS) representa um avanço estratégico para a ampliação da cobertura vacinal em escala nacional. A produção local pelo Instituto Butantan reduz a dependência de importações e possibilita uma resposta mais ágil às demandas epidemiológicas brasileiras

A estratégia de implantação delineada pelo Ministério da Saúde (MS) prevê uma disponibilização escalonada, iniciando-se pelos profissionais de saúde da atenção primária, que compõem o grupo de linha de frente, para posteriormente expandir-se aos demais estratos populacionais prioritários.

Entre outras diferenças, ao compararmos tecnicamente a Butantan-DV com a vacina Qdenga® — disponível na rede privada —, a principal reside na posologia. Enquanto a Qdenga® requer um regime de duas doses para completar o esquema vacinal, a Butantan-DV atinge seu perfil de eficácia total com apenas uma dose. Essa característica não apenas facilita a logística pública, mas também oferece uma vantagem competitiva em termos de adesão do paciente. 

A coexistência de diferentes plataformas vacinais é vista como uma oportunidade para otimizar a saúde pública, permitindo que diferentes setores da sociedade tenham acesso a tecnologias de ponta para o combate de uma das arboviroses mais prevalentes no país

Para aprofundar seus conhecimentos técnicos sobre os métodos de prevenção da dengue, acesse nosso conteúdo sobre a Qdenga®.

Referências:

Cerqueira-Silva T, Oliveira V de A, Boaventura VS, Bertoldo Júnior J, Oliveira MAB, Júnior JBS, et al. Effect of Brazil’s national human papillomavirus vaccination programme on the incidence of cervical cancer and cervical intraepithelial neoplasia grade 3 in women aged 20–24 years: a population-based study. Lancet Glob Health. 2023;13(10):e1715–22.

Pan American Health Organization (PAHO). End cervical cancer [Internet]. Washington, D.C.: PAHO; c2023 . Available from: https://www.paho.org/en/end-cervical-cancer

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Nova diretriz no diagnóstico do transtorno do espectro autista https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-no-diagnostico-do-transtorno-do-espectro-autista/ https://blog.sabin.com.br/medicos/nova-diretriz-no-diagnostico-do-transtorno-do-espectro-autista/#respond Fri, 15 May 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5150 O panorama atual do diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA) permanece fundamentado em critérios clínicos comportamentais, consolidando a observação direta e a anamnese detalhada como os pilares da prática médica. A publicação da nova diretriz nacional pela Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) atualiza as condutas diagnósticas à luz das evidências científicas mais recentes, […]

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O panorama atual do diagnóstico do transtorno do espectro autista (TEA) permanece fundamentado em critérios clínicos comportamentais, consolidando a observação direta e a anamnese detalhada como os pilares da prática médica. A publicação da nova diretriz nacional pela Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) atualiza as condutas diagnósticas à luz das evidências científicas mais recentes, oferecendo um direcionamento rigoroso para a identificação precoce e o manejo adequado. 

A atualização é motivada por fatores críticos, incluindo o avanço expressivo nas pesquisas sobre biomarcadores, a persistência do atraso no diagnóstico em diversas regiões e as desigualdades estruturais no acesso à avaliação especializada. Embora tecnologias emergentes apresentem um potencial transformador, o diagnóstico clínico criterioso, realizado por profissionais capacitados, segue sendo o padrão-ouro inquestionável para a determinação do transtorno. 

Continue a leitura para atualizar seu conhecimento sobre as novas atualizações. 

Por que o diagnóstico do TEA continua sendo clínico?

A natureza do TEA, caracterizada por uma complexa heterogeneidade fenotípica, explica por que o diagnóstico permanece essencialmente clínico. Até o momento, não existem biomarcadores validados que possuam sensibilidade e especificidade suficientes para substituir a avaliação humana na rotina assistencial. O diagnóstico baseia-se estritamente nos dois domínios centrais estabelecidos pelo DSM-5: os déficits persistentes na comunicação social e na interação social e a presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

O domínio do neurodesenvolvimento e o conhecimento clínico profundo são importantes para a realização do diagnóstico diferencial, distinguindo o TEA de outras condições que podem mimetizar sintomas semelhantes, como transtornos de linguagem ou deficiência intelectual isolada. Avaliações isoladas possuem limites intrínsecos; por isso, a diretriz enfatiza a necessidade de consolidar múltiplas fontes de informação. Dados provenientes de cuidadores, relatórios de professores e a análise de vídeos caseiros, que capturam o comportamento da criança em ambientes naturais, são subsídios indispensáveis para uma conclusão diagnóstica robusta e fidedigna.

Diretrizes atualizadas para investigação genética no TEA

As atualizações nas diretrizes trazem mudanças significativas para investigação genética, que agora assume um papel complementar, porém estratégico, após a confirmação do diagnóstico clínico. A recomendação de exames genéticos é especialmente reforçada em casos que apresentam sinais sindrômicos, malformações ou comorbidades associadas. A escolha do teste genético deve seguir indicações específicas, considerando a gravidade do quadro clínico, a presença de consanguinidade entre os genitores, episódios de regressão do desenvolvimento ou a identificação de dismorfias físicas.

O acompanhamento por geneticistas torna-se necessário em cenários de maior complexidade, nos quais a interpretação de variantes genéticas exige expertise técnica para o aconselhamento genético familiar. Esse processo não visa apenas identificar a etiologia do transtorno, mas também prover informações sobre o prognóstico e riscos de recorrência, integrando a genética à medicina de precisão aplicada ao neurodesenvolvimento.

A importância do rastreamento precoce e ferramentas recomendadas por faixa etária

A identificação precoce é um dos determinantes mais influentes no prognóstico de longo prazo. As ferramentas e técnicas utilizadas devem ser adequadas a cada fase do desenvolvimento, respeitando as janelas de oportunidade terapêutica.

Triagem em crianças pequenas

Para o rastreamento em crianças entre 16 e 30 meses, o M-CHAT-R/F é indicado como o principal instrumento de triagem, apresentando elevada sensibilidade e especificidade para detectar riscos de TEA. 

Outras ferramentas, como o ITC e o FYI-L, são discutidas para aplicação em idades ainda mais precoces, embora suas limitações técnicas devam ser consideradas pelo clínico. 

É imperativo que a vigilância do desenvolvimento seja uma prática constante e rigorosa durante as consultas pediátricas de rotina, mesmo quando não há sinais evidentes ou queixas explícitas por parte dos responsáveis.

Diagnóstico clínico em crianças e adolescentes

Na fase escolar e na adolescência, a acurácia diagnóstica depende de instrumentos observacionais estruturados. O ADOS-2 e o CARS-2 destacam-se como as ferramentas mais precisas para a observação direta. 

O ADI-R, por sua vez, funciona como uma entrevista estruturada complementar de grande valor histórico, apesar de possuir menor acurácia se utilizado de forma isolada. 

A eficácia desses instrumentos é maximizada quando integrada a uma avaliação multidisciplinar, que contemple dados de desenvolvimento adaptativo e observações em diferentes contextos sociais.

Triagem em adultos

Para o público adulto, sobretudo aqueles sem deficiência intelectual, a diretriz recomenda o uso do AQ-10 como ferramenta de triagem inicial, conforme as orientações do NICE. 

Caso o rastreio indique positividade, é indispensável proceder com uma investigação adicional exaustiva e acompanhamento clínico contínuo para a confirmação diagnóstica, considerando as camuflagens sociais (masking) que frequentemente dificultam a identificação do transtorno nessa faixa etária.

O papel da equipe multidisciplinar e a avaliação funcional

O diagnóstico ideal do TEA é um processo colaborativo que envolve uma equipe multidisciplinar composta por neurologistas, psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, entre outros especialistas correlatos. A integração de avaliações clínicas com testes cognitivos, análise de linguagem e comportamento adaptativo possibilita uma visão holística do paciente. 

Fatores ambientais, socioculturais e contextuais devem ser rigorosamente analisados, pois influenciam diretamente a expressão dos sintomas e podem impactar a acurácia diagnóstica se não forem devidamente ponderados.

Níveis de suporte segundo o DSM-5

A classificação do TEA pelo DSM-5 em três níveis de suporte é uma ferramenta crucial para o planejamento terapêutico e a definição do prognóstico. Essa categorização permite que a equipe médica e multidisciplinar alinhe as intervenções às necessidades reais de autonomia e funcionalidade do paciente.

Nível 1: requer apoio (suporte leve)

Nesse nível, observam-se dificuldades claras na comunicação social e na interação, acompanhadas de uma inflexibilidade moderada. Entretanto, o indivíduo apresenta capacidade preservada de fala e relativa independência em atividades básicas, demandando suporte pontual em situações sociais específicas, no ambiente escolar ou em tarefas que exijam organização.

Nível 2: requer apoio substancial (suporte moderado)

Caracteriza-se por déficits mais graves na comunicação social, tanto verbal quanto não verbal. Os comportamentos restritos e repetitivos são mais evidentes no cotidiano, gerando a necessidade de um apoio mais estruturado e frequente para a manutenção da rotina, desempenho escolar e execução de tarefas cotidianas.

Nível 3: requer apoio muito substancial (suporte intenso)

Manifesta-se através de déficits graves em comunicação, ocorrendo a fala mínima ou ausente em muitos casos. Há uma grande inflexibilidade comportamental, o que exige suporte constante e intensivo para a realização de atividades básicas, garantia da segurança e processos de adaptação a mudanças.

É fundamental que o clínico mantenha a cautela com classificações precoces em crianças muito jovens, dada a plasticidade do desenvolvimento, sendo as reavaliações periódicas mandatórias. Em relatórios médicos para esse público, recomenda-se o uso da expressão “atualmente classificado como”, evitando uma rigidez interpretativa que possa limitar as expectativas de desenvolvimento ou o acesso a intervenções dinâmicas.

Ferramentas emergentes

O campo da investigação tecnológica tem apresentado avanços em biomarcadores pré-sintomáticos, incluindo neuroimagem funcional, eletroencefalograma (EEG) quantitativo, inteligência artificial, genômica avançada e rastreamento ocular (eye-tracking). 

Um marco relevante foi a recente aprovação pelo FDA (Food and Drug Administration) do primeiro dispositivo de rastreamento ocular para triagem em crianças de 16 a 30 meses. No entanto, é necessário esclarecer que tais ferramentas ainda estão em fase de validação para o uso clínico rotineiro e devem ser encaradas com precaução. 

O futuro do diagnóstico do TEA

O futuro do diagnóstico do TEA aponta para uma integração cada vez maior entre a clínica e a tecnologia, mas a base permanece inalterada: a observação direta, o uso de entrevistas estruturadas e a atuação de equipes especializadas. 

Embora os biomarcadores sejam promissores, eles ainda estão em processo de validação científica e não substituem a experiência do médico. A atualização constante por meio de diretrizes de referência, como as da SBNI, AAP e NICE, é o caminho para qualificar a prática diagnóstica e garantir que o paciente receba o suporte adequado no momento oportuno. 

Para aprofundar seus conhecimentos sobre as bases biológicas e as indicações precisas de exames moleculares, acesse nosso conteúdo detalhado sobre o estudo genético do autismo.

Referências:

Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil. Recomendações e orientações para o diagnóstico, investigação e abordagem terapêutica do transtorno do espectro autista [Internet]. São Paulo: SBNI; 2023 [citado 2026 mar 26]. Disponível em: https://sbni.org.br/recomendacoes-e-orientacoes-para-o-diagnostico-investigacao-e-abordagem-terapeutica-do-transtorno-do-espectro-autista/

Hirota T, King BH. Autism Spectrum Disorder: A Review. JAMA. 2023;329(2):157–168. doi:10.1001/jama.2022.23661

Wang M, Zhang X, Zhong L, Zeng L, Li L, Yao P. Understanding autism: Causes, diagnosis, and advancing therapies. Brain Res Bull. 2025 Jul;227:111411. doi: 10.1016/j.brainresbull.2025.111411. Epub 2025 May 29. PMID: 40449388.

Wang BM, Mills Z, Jones HF, Montgomery JM, Lee KY. Presymptomatic Biological, Structural, and Functional Diagnostic Biomarkers of Autism Spectrum Disorder. J Neurochem. 2025 May;169(5):e70088. doi: 10.1111/jnc.70088. PMID: 40390287; PMCID: PMC12089747.

Hock A, Gosa MM, Apperson ML. Autism Spectrum Disorder: Diagnosis and Management. Am Fam Physician [Internet]. 2020 nov 15 [citado 2026 mar 26];102(10):629-37. Disponível em: https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2020/1115/p629.html

Porto KS, Wieckowski AT, Fein DA, Barton ML, Baranek GT, Robins DL. Comparison of Available Tools to Screen for Autism at 12 and 15 Months. J Dev Behav Pediatr. 2025 Nov-Dec 01;46(6):e564-e571. doi: 10.1097/DBP.0000000000001406. Epub 2025 Aug 1. PMID: 40758867; PMCID: PMC12908181.

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Carga global de câncer: análise das projeções e desafios até 2050 https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/ https://blog.sabin.com.br/medicos/projecoes-sobre-o-cancer-ate-2050/#respond Fri, 17 Apr 2026 11:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5133 A oncologia mundial enfrenta um cenário de transformações profundas e desafios estruturais que demandam a reavaliação das estratégias assistenciais. Dados consolidados da atualização do Global Burden of Disease (GBD) 2023 oferecem uma visão padronizada da magnitude e das tendências da especialidade em escala global, permitindo uma compreensão técnica sobre a evolução da carga da doença. […]

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A oncologia mundial enfrenta um cenário de transformações profundas e desafios estruturais que demandam a reavaliação das estratégias assistenciais. Dados consolidados da atualização do Global Burden of Disease (GBD) 2023 oferecem uma visão padronizada da magnitude e das tendências da especialidade em escala global, permitindo uma compreensão técnica sobre a evolução da carga da doença.

O câncer persiste de forma inequívoca como a segunda principal causa de morte no mundo, apresentando um crescimento expressivo no número absoluto de diagnósticos e óbitos registrados desde o início da série histórica em 1990. 

Esse fenômeno não é aleatório; as mudanças demográficas contemporâneas, centradas no envelhecimento e no crescimento populacional, atuam como os principais vetores das projeções para as próximas décadas. Compreender a dinâmica é importante para o planejamento de longo prazo na medicina de precisão e na saúde pública. 

Continue a leitura para analisar as projeções de mortalidade e o impacto das disparidades globais no cenário oncológico.

Transição demográfica e o incremento na mortalidade absoluta

As projeções epidemiológicas indicam um cenário de pressão crescente sobre os sistemas de saúde. Estima-se que, em 2050, o mundo registre aproximadamente 18,6 milhões de óbitos anuais por câncer. Valor que representa um crescimento alarmante de 74,5% em comparação aos índices observados em 2024. 

O salto quantitativo está intrinsecamente ligado à transição demográfica, na qual a maior longevidade expõe a população por períodos mais prolongados a agentes carcinogênicos e processos de senescência celular que favorecem a oncogênese.

O paradoxo das taxas padronizadas por idade

Ao analisar a carga da doença, observa-se um fenômeno estatístico relevante: existe uma redução marginal de 5,6% nas taxas de mortalidade padronizadas por idade. No entanto, essa queda percentual é insuficiente para mitigar o aumento real da carga absoluta impulsionado pela longevidade populacional.

Na prática clínica, isso significa que, embora o manejo individual possa estar evoluindo, o volume total de pacientes terminais e casos complexos continuará a expandir-se. Esse descompasso global evidencia a dificuldade em atingir a meta estabelecida pela Organização das Nações Unidas (ONU): reduzir em um terço a mortalidade prematura por doenças não transmissíveis até o ano de 2030.

Disparidades na carga global de câncer e o impacto do IDH

A distribuição da carga oncológica não é uniforme e revela abismos profundos baseados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Enquanto países de alta renda projetam o aumento de 42,8% na mortalidade por câncer, as nações de baixa e média renda enfrentam uma perspectiva muito mais severa, com um crescimento crítico esperado de 90,6%. Essa disparidade acentua a necessidade de políticas de rastreio e tratamento que considerem as limitações econômicas regionais.

A criticidade da razão de mortalidade/incidência (MIR)

A razão de mortalidade/incidência (MIR) serve como um indicador fidedigno da eficácia dos sistemas de saúde. Uma MIR elevada em países de baixo IDH reflete diretamente o déficit estrutural no acesso ao diagnóstico precoce e a tratamentos oncológicos de ponta. 

A vulnerabilidade das populações residentes em áreas com infraestrutura limitada é evidente, prevendo-se que o número de óbitos oncológicos nessas regiões quase triplique nas próximas décadas. Para o médico, esses dados reforçam a urgência de estratégias que transcendam o tratamento hospitalar, focando na equidade do acesso tecnológico.

Perfis epidemiológicos de risco e grupos vulneráveis

A análise detalhada dos grupos afetados revela que a carga de mortalidade é significativamente maior entre homens e na população idosa, com foco especial em indivíduos com 75 anos ou mais. Esse perfil demográfico requer um olhar clínico diferenciado, voltado para a gestão de multimorbidades e fragilidades inerentes ao envelhecimento. 

Além dos fatores biológicos e demográficos, a influência de fatores de risco potencialmente modificáveis permanece como um pilar da oncologia moderna. O tabagismo e o consumo de álcool continuam a exercer um papel preponderante na composição da carga oncológica contemporânea, exigindo intervenções de prevenção primária rigorosas no nível ambulatorial.

O papel do médico no rastreio e estratégias de enfrentamento

Diante das projeções de envelhecimento populacional, torna-se imperativa uma abordagem clínica proativa que conecte a prevenção primária ao diagnóstico precoce. O médico deve utilizar os dados do GBD 2023 para orientar a definição de prioridades assistenciais e o manejo personalizado de pacientes de alto risco, otimizando o uso de recursos diagnósticos e terapêuticos. O foco deve migrar da medicina meramente reativa para uma medicina preditiva e preventiva.

Genômica e painéis genéticos na medicina preventiva

Nesse contexto de antecipação diagnóstica, a genômica assume a função de protagonista. A utilidade dos testes genéticos reside na identificação de variantes patogênicas germinativas, o que permite o rastreamento individualizado muito antes do surgimento de qualquer sinal clínico da doença. 

O emprego de painéis de Sequenciamento de Nova Geração (NGS) é fundamental para a detecção de síndromes de predisposição hereditária, como as mutações nos genes BRCA1 e BRCA2, além da síndrome de Lynch. A integração da genômica na prática clínica cotidiana possibilita o refinamento do prognóstico e a seleção de terapias alvo-específicas, mitigando de forma substancial o impacto da carga oncológica futura. 

Para aprofundar seu conhecimento sobre as aplicações práticas dessas tecnologias, leia mais sobre a utilidade dos testes genéticos para o câncer.

Referências:

GBD 2023 Cancer Collaborators. The global, regional, and national burden of cancer, 1990-2023, with forecasts to 2050: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. Lancet. 2025 Oct 11;406(10512):1565-1586. doi: 10.1016/S0140-6736(25)01635-6. Epub 2025 Sep 24. PMID: 41015051; PMCID: PMC12687902.

Shah R, Battisti NML, Brain E, Gnangnon FHR, Kanesvaran R, Mohile S, Noronha V, Puts M, Soto-Perez-de-Celis E, Pilleron S. Updated cancer burden in oldest old: A population-based study using 2022 Globocan estimates. Cancer Epidemiol. 2025 Apr;95:102716. doi: 10.1016/j.canep.2024.102716. Epub 2024 Nov 26. PMID: 39603975.

Bizuayehu HM, Ahmed KY, Kibret GD, et al. Global Disparities of Cancer and Its Projected Burden in 2050. JAMA Netw Open. 2024;7(11):e2443198. doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.43198

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Convulsão: entenda as causas e saiba como agir com segurança https://blog.sabin.com.br/saude/convulsao-o-que-e-causas-e-como-agir-com-seguranca/ https://blog.sabin.com.br/saude/convulsao-o-que-e-causas-e-como-agir-com-seguranca/#respond Tue, 14 Apr 2026 17:55:28 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5127 A convulsão é definida como uma atividade elétrica anormal, excessiva e transitória dos neurônios cerebrais. Esse fenômeno ocorre quando há uma desordem elétrica temporária no cérebro, funcionando como um “curto-circuito” que interrompe o funcionamento habitual do sistema nervoso. Os episódios convulsivos apresentam uma gama variada de manifestações clínicas, que podem incluir desde movimentos involuntários bruscos […]

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A convulsão é definida como uma atividade elétrica anormal, excessiva e transitória dos neurônios cerebrais. Esse fenômeno ocorre quando há uma desordem elétrica temporária no cérebro, funcionando como um “curto-circuito” que interrompe o funcionamento habitual do sistema nervoso. Os episódios convulsivos apresentam uma gama variada de manifestações clínicas, que podem incluir desde movimentos involuntários bruscos e rigidez muscular acentuada até alterações sutis, e quase imperceptíveis, do nível de consciência.

É importante estabelecer a distinção entre um episódio único de convulsão e o diagnóstico de epilepsia. Nem todo indivíduo que apresenta um episódio convulsivo isolado é portador de uma doença crônica; a crise pode ser um evento reativo a um insulto agudo ao sistema nervoso ou a um desequilíbrio metabólico temporário. 

Compreender essas nuances é o primeiro passo para garantir que o suporte adequado seja oferecido no momento da crise. Entenda como identificar os tipos de crise, as origens e o protocolo de segurança.

Identificando os tipos de crise e as origens

A classificação das crises convulsivas é determinada pela forma como a atividade elétrica anormal se inicia e se propaga no parênquima cerebral. As crises de início focal são aquelas em que a descarga elétrica permanece restrita a uma rede neural localizada em apenas um hemisfério cerebral. Já as crises de início generalizado envolvem, desde o princípio, os dois hemisférios de forma simultânea, resultando frequentemente na perda imediata da consciência.

Entre as manifestações mais conhecidas, está a crise tônico-clônica, geralmente associada ao termo popular “convulsão”. Esse tipo de evento é caracterizado por duas fases distintas: a fase tônica, marcada pela rigidez muscular súbita e generalizada; e a fase clônica, composta por movimentos rítmicos e repetitivos de contração e relaxamento (tremores)

Identificar o padrão do movimento é um fator crucial para o relato médico posterior, auxiliando na precisão diagnóstica.

Por que uma convulsão acontece?

A ocorrência de uma convulsão pode ser atribuída a seis categorias principais de etiologias, conforme a classificação clínica.

  • Genéticas: predisposição hereditária que altera o limiar convulsivo.
  • Estruturais: decorrentes de lesões físicas, como traumatismos cranianos, tumores cerebrais ou sequelas de acidentes vasculares cerebrais.
  • Metabólicas: alterações químicas sistêmicas, sendo a hipoglicemia (baixo nível de açúcar no sangue) um exemplo comum.
  • Infecciosas: processos inflamatórios no sistema nervoso central, como a meningite.
  • Imunológicas: quando o próprio sistema de defesa ataca células cerebrais.
  • Desconhecidas: a causa primária não é identificada mesmo após investigação exaustiva.

Além das causas estruturais ou patológicas, existem fatores externos que atuam como gatilhos, “disparando” crises em indivíduos predispostos. A privação prolongada de sono, a abstinência ou o consumo excessivo de álcool, e o uso de determinados medicamentos que reduzem o limiar convulsivo são desencadeadores que exigem atenção e manejo preventivo.

Guia de primeiros socorros: o que fazer e o que evitar

Diante de um episódio convulsivo, a prioridade absoluta de quem presta socorro deve ser a manutenção da segurança física da pessoa, evitando traumas secundários durante os movimentos involuntários. Manter a calma é indispensável para executar as manobras de proteção de forma eficaz, até que a atividade elétrica cerebral se estabilize.

Passo a passo para o atendimento seguro

O atendimento inicial deve focar em minimizar riscos ambientais. O primeiro passo consiste em proteger a cabeça da pessoa, utilizando algo macio (como uma peça de roupa) para evitar o impacto contra o solo. Deve-se afastar qualquer objeto perigoso, cortante ou duro que esteja ao redor. 

Um ponto relevante é marcar o tempo de duração da crise, pois essa informação é útil para determinar a gravidade do evento. Existem erros comuns, motivados por mitos populares, que podem ser fatais ou causar lesões graves. Confira abaixo.

  • Nunca coloque objetos na boca: moedas, colheres ou panos podem causar asfixia ou quebra de dentes.
  • Não tente segurar a língua: é fisicamente impossível “enrolar a língua” a ponto de engoli-la, e tentar puxá-la pode resultar em mordeduras graves para o socorrista e para o paciente.
  • Não restrinja os movimentos: segurar a pessoa com força para interromper os tremores pode causar fraturas ou luxações.

Após o término das contrações musculares, deve-se colocar a pessoa na “posição de recuperação”, deitando-a de lado. Essa manobra é necessária para garantir que as vias aéreas permaneçam desobstruídas, permitindo a drenagem de saliva ou vômito e facilitando a respiração.

Quando a situação se torna uma emergência médica?

Embora a maioria das crises terminam espontaneamente em poucos minutos, certas situações requerem o acionamento imediato do serviço de emergência (SAMU ou Bombeiros):

  • Crises que duram mais de cinco minutos (estado de mal epiléptico).
  • Dificuldade respiratória após a crise.
  • Traumas físicos aparentes ocorridos durante a queda ou os movimentos.
  • Quando a pessoa não recupera a consciência entre dois episódios seguidos.

Diagnóstico e a vida após o primeiro episódio

Após a estabilização do paciente, uma avaliação médica detalhada é obrigatória. O médico conduzirá uma história clínica minuciosa e exames físicos para tentar determinar a origem exata da atividade anormal. Compreender o que ocorreu antes, durante e depois do evento é fundamental para o raciocínio diagnóstico.

O período imediatamente posterior à crise é chamado de estado “pós-ictal”. Nesse intervalo, é comum que o indivíduo apresente-se confuso, com sonolência profunda, dor de cabeça ou até agitação. O estado é o tempo necessário para que o cérebro “reinicie” suas funções após a descarga excessiva. 

Para a classificação correta e a definição do tratamento, exames complementares (como eletroencefalograma e neuroimagem) são solicitados, conforme as recomendações internacionais do American College of Radiology e da ILAE (International League Against Epilepsy).

Prevenção e manejo: como reduzir o risco de novas crises

A prevenção de novos episódios se baseia no diagnóstico da causa e no reconhecimento de gatilhos específicos que diminuem o limiar convulsivo de cada paciente. O manejo médico adequado é a estratégia mais eficaz para o controle a longo prazo.

Com diagnóstico preciso e acompanhamento médico regular, a grande maioria das pessoas que apresenta uma convulsão pode manter uma excelente qualidade de vida e segurança em suas atividades cotidianas. O conhecimento sobre a condição remove o medo do desconhecido e permite um convívio social pleno

Para aprofundar seu conhecimento sobre a saúde do sistema nervoso e as novas tecnologias de cuidado, leia nosso conteúdo sobre a detecção precoce de doenças neurodegenerativas.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial. 

Referências:

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Cohen MS, Cohen J, Timsit JF. Severe Hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2021;384(14):1321-1331. doi: 10.1056/NEJMcp2024526

Thijs RD, Surges R, O’Brien TJ, Sander JW. Epilepsy in adults. Lancet. 2019 Feb 16;393(10172):689-701. doi: 10.1016/S0140-6736(18)32596-0. Epub 2019 Jan 24. PMID: 30686584.

Hewett Brumberg EK, Douma MJ, Alibertis K, Charlton NP, Goldman MP, Harper-Kirksey K, et al. 2024 American Heart Association and American Red Cross Guidelines for First Aid. Circulation. 2024;150(18):e1150-e1212. doi: 10.1161/CIR.0000000000001281

Hsu M, Shah A, Jordan A, Gold MS, Hill KP. Therapeutic Use of Cannabis and Cannabinoids: A Review. JAMA. 2026;335(4):345–359. doi:10.1001/jama.2025.19433

Martimbianco ALC, Silva RB, Cruz Latorraca CO, de Toledo IP, Pacheco RL, Colpani V, Riera R. Cannabis derivatives and their synthetic analogs for treatment-resistant epilepsy: A systematic review and meta-analysis. Epilepsy Res. 2025 Aug;214:107559. doi: 10.1016/j.eplepsyres.2025.107559. Epub 2025 Apr 18. PMID: 40267856.

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Entenda como andar de bicicleta pode reduzir o risco de Alzheimer https://blog.sabin.com.br/autocuidado/andar-de-bicicleta-pode-ajudar-na-prevencao-do-alzheimer/ https://blog.sabin.com.br/autocuidado/andar-de-bicicleta-pode-ajudar-na-prevencao-do-alzheimer/#respond Wed, 08 Apr 2026 19:15:57 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5119 A doença de Alzheimer representa um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade, com uma prevalência que cresce proporcionalmente ao envelhecimento da população global. Caracterizada por um processo neurodegenerativo progressivo, a condição requer estratégias multidisciplinares que vão além das intervenções farmacológicas. Nesse cenário, a relação entre a atividade física regular e a preservação da […]

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A doença de Alzheimer representa um dos maiores desafios de saúde pública da atualidade, com uma prevalência que cresce proporcionalmente ao envelhecimento da população global. Caracterizada por um processo neurodegenerativo progressivo, a condição requer estratégias multidisciplinares que vão além das intervenções farmacológicas. Nesse cenário, a relação entre a atividade física regular e a preservação da saúde cerebral ganha destaque, especialmente o ciclismo. 

Estudos recentes, como os publicados na revista médica JAMA Network Open, trazem evidências robustas de que indivíduos que utilizam a bicicleta como meio de transporte ou forma de lazer apresentam um risco consideravelmente menor de desenvolver a doença. Esse impacto positivo reforça a importância do exercício aeróbico como pilar para a manutenção das funções cognitivas ao longo da vida. Continue a leitura para compreender os mecanismos biológicos e as evidências que sustentam a prática.

O que é a doença de Alzheimer e por que ela preocupa tanto?

O Alzheimer é uma patologia neurodegenerativa que se manifesta inicialmente por meio de perdas graduais de memória recente, evoluindo para o comprometimento de funções executivas, linguagem e orientação espacial. Biologicamente, a doença é marcada pelo acúmulo de placas da proteína beta-amiloide e emaranhados da proteína tau no tecido cerebral, processos que levam à morte neuronal e à atrofia de áreas críticas do cérebro. A condição não afeta apenas o paciente, mas também — e profundamente — a dinâmica familiar, exigindo uma rede de cuidados complexa e contínua.

Entre os principais fatores de risco, o envelhecimento é o mais predominante, porém não o único. Elementos genéticos desempenham papel relevante, com destaque para a presença do gene APOE ε4, que aumenta a suscetibilidade ao desenvolvimento da doença. Além da genética, o estilo de vida, incluindo sedentarismo, dieta inadequada e presença de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, são determinantes cruciais. Compreender esses riscos é o primeiro passo para estabelecer estratégias de prevenção eficazes.

Novos caminhos para prevenir e tratar o Alzheimer

A ciência tem avançado rapidamente para além das abordagens convencionais no manejo do Alzheimer. Atualmente, o entendimento da doença foca em intervenções precoces e terapias biológicas inovadoras. O desenvolvimento de anticorpos monoclonais voltados contra as proteínas anti-amiloide e as terapias anti-tau representam uma fronteira promissora, buscando reduzir os depósitos cerebrais que causam a neurodegeneração.

Paralelamente, a detecção precoce tornou-se um foco central. Exames de sangue inovadores que medem o biomarcador p-tau217 permitem identificar alterações cerebrais anos antes do surgimento dos primeiros sintomas clínicos, possibilitando intervenções quando o tecido cerebral ainda está preservado. 

Novas hipóteses também investigam a origem da doença sob a ótica da neuroinflamação e do sistema imunológico, sugerindo que o Alzheimer pode ter componentes de uma resposta autoimune exacerbada ou inflamação crônica. O futuro do cuidado reside na combinação de terapias genéticas com intervenções personalizadas no estilo de vida, transformando a visão de que o declínio cognitivo é um destino inevitável.

Como o exercício físico pode proteger o cérebro?

A neuroproteção oferecida pelo exercício físico ocorre através de mecanismos fisiológicos diretos. Durante a atividade, ocorre um aumento substancial na circulação sanguínea sistêmica, o que melhora a oxigenação cerebral e o aporte de nutrientes para os neurônios. Esse fluxo otimizado auxilia na remoção de resíduos metabólicos tóxicos, contribuindo para um ambiente cerebral mais saudável.

Um dos efeitos mais notáveis da prática regular é observado no hipocampo, a região do cérebro fundamental para a formação de novas memórias e para a aprendizagem. O estudo da JAMA indica que modos de deslocamento ativos, principalmente o ciclismo, estão associados a um maior volume de hipocampo, área que é frequentemente afetada precocemente pela doença de Alzheimer. Esse aumento de volume sugere um potencial efeito protetor sobre a estrutura cerebral, alinhado à hipótese de que a atividade física regular contribui para a manutenção da integridade neuronal ao longo do tempo​.

Por que o ciclismo se destaca entre as atividades físicas?

O ciclismo é classificado como uma atividade aeróbica de baixo impacto, o que o torna ideal para a prática prolongada sem sobrecarga excessiva das articulações. O estudo de coorte publicado na JAMA acompanhou 479.723 pessoas e estabeleceu uma correlação direta entre o hábito de pedalar e a redução do risco de Alzheimer e outras formas de demência

A modalidade exige não apenas esforço cardiovascular, como também coordenação motora e equilíbrio, estimulando diversas áreas do sistema nervoso central simultaneamente. Além dos benefícios cognitivos diretos, o ciclismo promove o controle de peso e a saúde cardiovascular, fatores que estão intrinsecamente ligados à saúde cerebral. 

O bem-estar emocional gerado pela liberação de endorfinas e a diminuição do estresse também são pontos importantes, visto que a saúde mental equilibrada é um fator protetivo contra o declínio cognitivo. A praticidade de integrar a bicicleta ao cotidiano, seja como transporte ou lazer, facilita a manutenção da constância necessária para colher esses benefícios.

Existe idade certa para começar? E para quem já tem Alzheimer?

A premissa da reserva cognitiva sugere que, quanto mais cedo se inicia a prática de exercícios, maior é o acúmulo de benefícios e a proteção contra o desgaste futuro. No entanto, o grupo de adultos acima de 50 anos é o que apresenta resultados mais expressivos em termos de prevenção imediata. Meta-análises demonstram que o exercício físico é uma ferramenta eficaz mesmo para idosos que já apresentam comprometimento cognitivo leve, ajudando a estabilizar a função mental.

Para indivíduos diagnosticados, o ciclismo sob supervisão profissional pode ser um aliado valioso. Embora os efeitos na reversão da doença sejam modestos, a prática ajuda a manter a funcionalidade motora, melhora a qualidade do sono e promove o bem-estar geral. O movimento, portanto, deve ser incentivado em todos os estágios da vida, adaptando-se às capacidades individuais de cada paciente.

A intensidade e a duração do exercício fazem diferença?

A relação entre atividade física e prevenção do Alzheimer segue o conceito de dose-resposta: quanto maior a regularidade e a adequação da intensidade, mais significativos são os efeitos protetores. Surpreendentemente, evidências apontam que apenas 30 minutos semanais de ciclismo de alta intensidade já podem desencadear respostas neuroprotetoras observáveis.

A prática deve respeitar a condição física, a idade e o histórico clínico de cada pessoa. A transição de um estilo de vida sedentário para um ativo deve ser progressiva, priorizando a consistência a longo prazo, em vez de esforços exaustivos esporádicos. O equilíbrio entre intensidade e segurança é o que garante que o exercício atue como um verdadeiro agente de saúde.

Histórico familiar e genética: o ciclismo também ajuda nesses casos?

Muitas pessoas acreditam que a predisposição genética, como a presença do gene APOE ε4, torna o Alzheimer inevitável. Contudo, a ciência demonstra que o estilo de vida pode modificar a expressão desses riscos. 

A prática regular de ciclismo e outras atividades aeróbicas têm o potencial de reduzir o impacto de fatores genéticos e ambientais, retardando o surgimento dos sintomas em indivíduos suscetíveis. O exercício atua como um modulador epigenético, ajudando o organismo a lidar melhor com as vulnerabilidades herdadas e oferecendo uma camada adicional de defesa para o cérebro.

Como incluir o ciclismo na rotina e cuidar da saúde cerebral?

Adotar o ciclismo como hábito requer planejamento simples, mas eficaz. Para iniciantes, recomenda-se a busca por locais seguros, como parques e ciclovias, minimizando riscos de acidentes. A substituição de trajetos curtos, que usualmente são feitos por meios de transportes convencionais, pelo transporte ativo (bicicleta) é uma das formas mais eficientes de tornar a prática regular sem sobrecarregar a agenda.

A constância é mais importante do que a performance atlética. É vital ouvir o corpo e, em casos de condições de saúde preexistentes, buscar acompanhamento médico para ajustar a carga de esforço. Ao transformar a bicicleta em uma ferramenta de mobilidade e prazer, a melhora na qualidade de vida e na longevidade cerebral torna-se uma consequência natural do movimento.

Cuidar do cérebro também passa pelo movimento

A compreensão de que a doença de Alzheimer não é uma fatalidade inevitável é libertadora. As escolhas feitas no dia a dia, sobretudo no que diz respeito ao nível de atividade física, têm um peso determinante na trajetória da saúde cognitiva. O estilo de vida ativo é uma das intervenções mais potentes e acessíveis disponíveis para a prevenção da neurodegeneração. Iniciar ou manter a prática de exercícios, mesmo de forma leve e progressiva, é um investimento direto na preservação da memória e da autonomia. Para entender mais sobre como a ciência pode auxiliar na identificação precoce de riscos,conheça as inovações na detecção de doenças neurodegenerativas.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

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Neutropenia febril: atualizações clínicas no manejo terapêutico https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/ https://blog.sabin.com.br/medicos/atualizacoes-no-manejo-da-neutropenia-febril/#respond Fri, 03 Apr 2026 12:00:00 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5113 A neutropenia febril (NF) permanece como uma das emergências infecciosas mais críticas no cenário oncológico, especialmente em pacientes com neoplasias hematológicas ou em uso de quimioterapia mielossupressora. A condição, caracterizada pela presença simultânea de febre e neutropenia, está fortemente associada a risco elevado de infecções graves, internações prolongadas e mortalidade precoce, além de impactar a […]

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A neutropenia febril (NF) permanece como uma das emergências infecciosas mais críticas no cenário oncológico, especialmente em pacientes com neoplasias hematológicas ou em uso de quimioterapia mielossupressora. A condição, caracterizada pela presença simultânea de febre e neutropenia, está fortemente associada a risco elevado de infecções graves, internações prolongadas e mortalidade precoce, além de impactar a continuidade e a efetividade do tratamento antineoplásico.

Nos últimos anos, observou-se uma mudança significativa no panorama epidemiológico das infecções relacionadas à neutropenia febril, com aumento da incidência de bactérias multirresistentes, alterações no perfil microbiológico institucional e necessidade de revisão das práticas tradicionais de manejo. Como resposta a esse cenário, a Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH) publicou, em 2024, um novo consenso nacional com diretrizes atualizadas para a condução de pacientes com neutropenia febril.

Este conteúdo reúne os principais pontos do novo consenso, abordando avaliação inicial, antibioticoterapia, estratificação de risco — com ferramentas como MASCC e CISNE — e medidas preventivas e diagnósticas individualizadas, focando na realidade brasileira. Acompanhe!

O que é neutropenia febril e qual sua relevância clínica?

Os principais contextos clínicos que predispõem à NF incluem esquemas de quimioterapia altamente mielossupressores, neoplasias hematológicas, transplante de células-tronco hematopoiéticas (TCTH) e tumores sólidos tratados com regimes intensivos.

A condição é definida pela presença de febre: temperatura oral ≥38,3°C, em uma única medida; ou ≥38,0°C, mantida por pelo menos uma hora em um paciente com contagem absoluta de neutrófilos (CAN) <500 células/μL; ou <1.000 células/μL, com expectativa de queda para <500 células/μL nas próximas 48 horas. A febre pode ser o único sinal de infecção em pacientes neutropênicos, devido à resposta inflamatória limitada. 

Neutropenia febril é considerada uma emergência oncológica, pois o risco de infecção grave e mortalidade é elevado, sobretudo quando a neutropenia é profunda e prolongada. O manejo deve ser imediato, com avaliação clínica e início precoce de antibióticos de amplo espectro, conforme recomendado pelas sociedade citada.

Diante do potencial para desfechos graves, a identificação precoce da NF e a estruturação de fluxos clínicos para sua abordagem imediata são essenciais.

Perfil dos pacientes mais afetados e fatores de risco

Idosos, pacientes com comorbidades, como insuficiência renal ou diabetes, estado funcional prejudicado (ECOG ≥2) e histórico prévio de NF também compõem um grupo de risco elevado. Em adultos, a profundidade da neutropenia e a presença de dispositivos invasivos agravam ainda mais o risco de complicações infecciosas. E em crianças, a incidência varia conforme o tipo de câncer e fase do tratamento, sendo mais frequente durante protocolos de indução e consolidação.

Por isso, os grupos de pacientes particularmente vulneráveis à neutropenia febril incluem aqueles com leucemias agudas, linfomas agressivos, submetidos a TCTH e portadores de tumores sólidos em esquemas quimioterápicos combinados.

Novas recomendações para avaliação inicial antes da antibioticoterapia

Antes da administração empírica de antibióticos, recomenda-se a coleta de, no mínimo, dois conjuntos de hemoculturas de sítios anatômicos diferentes: um de punção periférica em cada braço (se possível); ou, se houver cateter venoso central, um de veia periférica e um do lúmen do cateter. Essa coleta deve ser feita idealmente sem atrasar o início do tratamento em casos graves. 

A abordagem aumenta a sensibilidade para detecção de bacteremia e permite distinguir entre infecção verdadeira e contaminação, além de identificar infecções relacionadas ao cateter.

Exames de imagem devem ser indicados com base na sintomatologia, tomografia de tórax para sintomas respiratórios, tomografia abdominal para dor localizada e outros exames dirigidos ao foco clínico.A anamnese deve incluir histórico de internações recentes, uso de antimicrobianos nos últimos três meses, colonização por patógenos multirresistentes e comorbidades. Essa abordagem diagnóstica inicial é importante para a escolha racional do tratamento antimicrobiano, reduzindo o risco de uso desnecessário e contribuindo para a contenção da resistência microbiana.

Início da antibioticoterapia empírica: o que mudou?

O novo consenso recomenda o início da antibioticoterapia empírica nas primeiras horas após a identificação da febre, preferencialmente por monoterapia com cefepime ou piperacilina-tazobactam, que oferecem cobertura eficaz contra Pseudomonas aeruginosa.

O uso de carbapenêmicos deve ser restrito a situações de instabilidade hemodinâmica, colonização por enterobactérias produtoras de ESBL/CRE, infecções documentadas por esses agentes ou falha terapêutica de esquemas de primeira linha.

A inclusão de cobertura para agentes gram-positivos anti-MRSA (como vancomicina) deve ser restrita a situações específicas, infecções de cateter, lesões de pele, colonização documentada ou choque séptico sem foco definido. A estratégia de escalonamento com base em cultura, melhora clínica e marcadores laboratoriais deve ser priorizada para promover o uso racional de antibióticos.

Estratificação de risco e viabilidade de manejo ambulatorial

A estratificação de risco é a etapa central na decisão entre hospitalização e tratamento ambulatorial. O escore MASCC é amplamente utilizado e permite estimar o risco de complicações em pacientes com câncer (hematológicos ou não). Contudo, pode superestimar a segurança em casos de neutropenia leve.

Outro escore é o CISNE, o qual foi desenvolvido especificamente para pacientes com tumores sólidos e estabilidade clínica, sendo mais sensível na detecção de pacientes aptos ao tratamento ambulatorial. Apesar de pouco difundido no Brasil, seu uso pode aprimorar a seleção de casos de baixo risco.

Pacientes clinicamente estáveis, com suporte familiar, acesso a serviços de saúde e bom entendimento das orientações, podem ser tratados em casa com antibióticos orais, como amoxicilina-clavulanato associada à ciprofloxacina, ou moxifloxacino isoladamente. O monitoramento rigoroso é obrigatório para garantir segurança e resposta terapêutica adequada.

Papel da profilaxia com G-CSF: quem deve receber?

O uso de fatores estimuladores de colônias de granulócitos (G-CSF) é indicado como profilaxia primária, principalmente para prevenir episódios de neutropenia febril em pacientes sob esquemas com risco ≥20%. 

Para regimes com risco intermediário (10–20%), a profilaxia primária é indicada apenas se houver fatores agravantes, como idade avançada, comorbidades ou histórico de neutropenia febril.

A profilaxia secundária é indicada para pacientes que já apresentaram sintomas de neutropenia febril ou neutropenia grau 3/4 em ciclos anteriores, quando a redução de dose comprometeria o controle da doença.

No Brasil, estão disponíveis formulações de curta e longa duração (como filgrastim e pegfilgrastim, respectivamente), além de biossimilares com eficácia comparável e custo reduzido. Entre as inovações futuras, estão moléculas como o trilaciclib, que reduz a mielossupressão quando administrado antes da quimioterapia, e a plinabulina, com potencial efeito imunomodulador. Ambos ainda em avaliação e não disponíveis para uso clínico no país.

Diretrizes atualizadas para manejo pediátrico

Em pacientes pediátricos de baixo risco, a nova diretriz permite a interrupção da antibioticoterapia empírica após 48 horas de hemoculturas negativas, mesmo sem recuperação da ANC, desde que o paciente esteja afebril por pelo menos 24 horas e clinicamente estável. Essa conduta reduz exposição a antibióticos, tempo de internação e risco de resistência, sem aumento de infecções, readmissões ou mortalidade.

Por outro lado, em pacientes de alto risco sem profilaxia antifúngica, a introdução de antifúngicos preemptivos é recomendada com base em achados clínicos, laboratoriais e radiológicos. Nesses casos, a adesão a protocolos estruturados mostrou expressiva redução da mortalidade e melhora nos desfechos oncológicos em centros especializados.

Novas abordagens diagnósticas e suporte laboratorial

O uso do FDG-PET/CT tem ganhado espaço na investigação de febre persistente, sem foco definido em pacientes neutropênicos. O exame pode identificar inflamações ocultas ou infecções não detectáveis em exames convencionais.

Biomarcadores, como galactomanana, beta-D-glucana, antígenos de Candida e Cryptococcus, ajudam na identificação precoce de infecções fúngicas invasivas. Testes moleculares e tecnologias de sequenciamento genético de DNA livre circulante estão sendo estudados como ferramentas para identificar patógenos em tempo hábil.

Esses avanços possibilitam orientar de forma mais precisa a necessidade de terapias antifúngicas e antibacterianas, diminuindo a exposição a antimicrobianos de amplo espectro e suas complicações.

Impacto da neutropenia febril em pacientes idosos

Os pacientes idosos enfrentam desafios particulares no manejo da neutropenia febril, como maior carga de comorbidades, menor reserva fisiológica, risco elevado de toxicidades hematológicas e polifarmácia. São características que aumentam a chance de complicações infecciosas e hospitalizações prolongadas.

A profilaxia com G-CSF é especialmente relevante nesse grupo, conferindo maior adesão ao tratamento quimioterápico e redução do risco de interrupções terapêuticas. A avaliação multidisciplinar e o cuidado centrado na pessoa idosa são fundamentais para decisões terapêuticas seguras e efetivas.

Tendências futuras e recomendações práticas

As diretrizes atuais reforçam a necessidade de antibioticoterapia empírica mais criteriosa, baseada em evidência microbiológica local e resposta clínica. A ampliação do tratamento ambulatorial, quando bem selecionado, promove desfechos favoráveis com menor impacto ecológico.

Ferramentas como FDG-PET/CT, testes moleculares e biomarcadores permitirão decisões mais personalizadas. Novas moléculas, como trilaciclib e plinabulina, ainda estão em fase de avaliação, mas apontam para um futuro de maior precisão terapêutica.

É importante que profissionais de saúde se mantenham atualizados quanto às recomendações clínicas, adaptando suas condutas à realidade epidemiológica e às condições de acesso da instituição onde atuam.Para aprofundar seus conhecimentos sobre o papel dos neutrófilos em doenças autoimunes, confira nosso conteúdo sobre anticorpos anticitoplasma de neutrófilos (ANCA).

Referências:

Nucci M, Arrais-Rodrigues C, Bergamasco MD, et al. Management of febrile neutropenia: consensus of the Brazilian Association of Hematology, Blood Transfusion and Cell Therapy – ABHH. Hematol Transfus Cell Ther. 2024. In press.

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Minisini A, Spazzapan S, Crivellari D, Aapro M, Biganzoli L. Incidence of febrile neutropenia and neutropenic infections in elderly patients receiving anthracycline-based chemotherapy for breast cancer without primary prophylaxis with colony-stimulating factors. Crit Rev Oncol Hematol. 2005 Feb;53(2):125-31. doi: 10.1016/j.critrevonc.2004.11.003. PMID: 15661563.

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Coto umbilical: principais cuidados e sinais de alerta https://blog.sabin.com.br/saude/cuidados-com-o-coto-umbilical-e-os-sinais-de-alerta/ https://blog.sabin.com.br/saude/cuidados-com-o-coto-umbilical-e-os-sinais-de-alerta/#respond Tue, 31 Mar 2026 14:21:40 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5108 Logo após o nascimento, o bebê inicia uma fase de adaptação fora do útero materno. Um dos sinais visíveis dessa transição é o coto umbilical, a pequena parte do cordão umbilical que permanece presa ao corpo do recém-nascido após o corte feito na sala de parto. Embora seja uma estrutura temporária, o coto requer atenção […]

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Logo após o nascimento, o bebê inicia uma fase de adaptação fora do útero materno. Um dos sinais visíveis dessa transição é o coto umbilical, a pequena parte do cordão umbilical que permanece presa ao corpo do recém-nascido após o corte feito na sala de parto. Embora seja uma estrutura temporária, o coto requer atenção cuidadosa por parte dos pais e cuidadores, para garantir uma cicatrização segura e evitar infecções.

Nas primeiras semanas de vida, o organismo do bebê está se ajustando a uma nova realidade, e o coto umbilical é um exemplo claro desse processo. Por isso, compreender como ele evolui e quais cuidados são necessários é fundamental para proteger a saúde do recém-nascido e evitar complicações. Siga a leitura para saber mais sobre o assunto.

O que é o coto umbilical e como ele evolui nos primeiros dias de vida?

O coto umbilical é o segmento remanescente do cordão umbilical, responsável por nutrir e oxigenar o bebê durante a gestação. Após o parto, o cordão é clampeado e cortado, e o pedaço que fica ligado ao abdômen do bebê forma o que conhecemos como coto.

Nos primeiros dias de vida, o coto passa por um processo natural de transformação. Inicialmente, ele tem um aspecto úmido, brilhante e gelatinoso. Com o tempo, vai escurecendo, secando e encolhendo, processo conhecido como mumificação. A queda espontânea do coto geralmente acontece entre o quinto e o décimo quinto dia de vida, deixando no local a futura cicatriz umbilical: o umbigo.

Durante essa fase, é comum que os pais fiquem apreensivos com a aparência do coto, especialmente se ele escurecer ou apresentar crostas. No entanto, essas alterações fazem parte do processo natural de cicatrização e não devem causar alarme, desde que não estejam acompanhadas de sinais de infecção.

Quais são os cuidados recomendados com o coto umbilical?

Cuidar do coto umbilical não exige muitos recursos, mas atenção. A recomendação atual para bebês saudáveis é o chamado cuidado seco, que consiste em manter o coto sempre limpo, seco e exposto ao ar. Isso significa evitar cobri-lo com fraldas, faixas ou curativos e também não aplicar produtos como álcool, pomadas, mercúrio ou receitas caseiras, que podem irritar a pele e retardar a queda.

Caso haja sujeira aparente no coto, como urina ou fezes, a limpeza deve ser feita com água morna e sabão neutro. Após a higiene, é importante secar bem a região com uma toalha limpa e deixar o coto ao ar livre. Posicionar a fralda abaixo do umbigo ajuda a evitar o acúmulo de umidade e facilita a ventilação da área.

Cabe ressaltar que práticas populares, como colocar moedas, cintas ou compressas sobre o umbigo, não têm eficácia comprovada e podem ser prejudiciais à saúde do bebê. Essas ações, mesmo que motivadas por crenças familiares ou culturais, devem ser evitadas. Em algumas situações específicas, como partos domiciliares ou em ambientes com risco aumentado de infecção, o profissional de saúde pode orientar o uso de antissépticos. Fora desses casos, o cuidado seco é seguro, eficaz e suficiente para a maioria dos recém-nascidos.

Quando o coto umbilical representa um sinal de alerta?

Apesar de, na maioria dos casos, o coto umbilical evoluir sem problemas, é essencial estar atento a possíveis sinais de alerta que indicam infecção ou outras complicações. 

A infecção do coto umbilical é chamada de onfalite, e seu reconhecimento precoce pode evitar consequências mais graves. Os sinais locais que merecem atenção incluem vermelhidão ao redor do umbigo, secreção purulenta (amarelada ou esverdeada), odor desagradável, inchaço, endurecimento da pele próxima ao coto, dor ao toque ou sangramento persistente. A presença de qualquer um desses sintomas deve ser motivo para procurar atendimento médico imediatamente.

Além dos sinais visíveis no local, o bebê pode apresentar sintomas sistêmicos, que sugerem uma infecção generalizada ou sepse neonatal. Entre eles, estão: febre, temperatura corporal muito baixa (hipotermia), sonolência excessiva, irritabilidade, recusa para mamar, icterícia (coloração amarelada da pele ou dos olhos), respiração rápida, dificuldade para respirar, coloração azulada da pele (cianose) e até convulsões. Tudo isso configura emergência e necessidade de pronto atendimento médico.

Esses sintomas indicam que a infecção pode ter ultrapassado o coto e atingido outros órgãos, necessitando de avaliação médica urgente e tratamento adequado. Nenhuma dessas manifestações deve ser ignorada, mesmo que o bebê pareça calmo ou sem febre. Vale destacar que bebês recém-nascidos são mais vulneráveis a infecções e que alterações sutis podem rapidamente evoluir. Portanto, o acompanhamento com o pediatra nos primeiros dias e semanas é crucial.

O cuidado com o coto é simples, porém importante

O coto umbilical é uma estrutura transitória, mas que demanda cuidados nos primeiros dias de vida do bebê. Com medidas simples de higiene e observação diária, é possível garantir uma cicatrização adequada e prevenir infecções.

Evitar práticas antigas sem comprovação científica, manter a região seca e limpa, e saber identificar os sinais de alerta são atitudes que protegem a saúde do recém-nascido. Em caso de dúvida, alteração no aspecto do umbigo ou comportamento incomum do bebê, a melhor conduta é sempre buscar orientação de um profissional de saúde.A informação correta é uma aliada poderosa para os pais nesse momento tão especial e delicado que é o início da vida. Quer saber mais sobre os primeiros cuidados com o bebê e a importância da triagem neonatal? Acesse o conteúdo relacionado ao Teste do Pezinho.

Sabin avisa:

Este conteúdo é meramente informativo e não pretende substituir consultas médicas, avaliações por profissionais de saúde ou fornecer qualquer tipo de diagnóstico ou recomendação de exames.

Importante ressaltar que diagnósticos e tratamentos devem ser sempre indicados por uma avaliação médica individual. Em caso de dúvidas, converse com seu médico. Somente o profissional pode esclarecer todas as suas perguntas. 

Lembre-se: qualquer decisão relacionada à sua saúde sem orientação profissional pode ser prejudicial.

Referências:

López-Medina MD, López-Araque AB, Linares-Abad M, López-Medina IM. Umbilical cord separation time, predictors and healing complications in newborns with dry care. PLoS One. 2020 Jan 10;15(1):e0227209. doi: 10.1371/journal.pone.0227209. PMID: 31923218; PMCID: PMC6953818.

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Kaplan RL. Omphalitis: Clinical Presentation and Approach to Evaluation and Management. Pediatr Emerg Care. 2023 Mar 1;39(3):188-189. doi: 10.1097/PEC.0000000000002918. PMID: 36853079.

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Atualizações clínicas sobre o manejo da dislipidemia na gestação https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/ https://blog.sabin.com.br/medicos/dislipidemia-na-gestacao-novas-evidencias-para-o-manejo/#respond Fri, 27 Mar 2026 14:10:59 +0000 https://blog.sabin.com.br/?p=5097 A dislipidemia na gestação representa um desafio crescente na prática clínica, especialmente diante do aumento da prevalência de distúrbios metabólicos em mulheres em idade fértil. Em 2024, o European Heart Journal publicou uma atualização relevante sobre o tema, enfatizando a necessidade de um novo olhar sobre o manejo da dislipidemia durante a gravidez. Apesar dos […]

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A dislipidemia na gestação representa um desafio crescente na prática clínica, especialmente diante do aumento da prevalência de distúrbios metabólicos em mulheres em idade fértil. Em 2024, o European Heart Journal publicou uma atualização relevante sobre o tema, enfatizando a necessidade de um novo olhar sobre o manejo da dislipidemia durante a gravidez. Apesar dos avanços no tratamento em populações não grávidas, o cenário gestacional permanece limitado, em grande parte por conta da exclusão rotineira de gestantes em ensaios clínicos. 

Nesse contexto, a individualização do cuidado, aliada à avaliação rigorosa de risco-benefício e à abordagem multidisciplinar, torna-se imprescindível para garantir a segurança materno-fetal. Prossiga na leitura para se atualizar sobre condutas terapêuticas seguras e recomendações mais recentes no manejo da dislipidemia na gestação.

Panorama epidemiológico e fisiopatológico

Ao longo da gravidez, é esperado um aumento fisiológico nos níveis de colesterol total, LDL-C e triglicerídeos, sobretudo no terceiro trimestre. A adaptação metabólica visa atender às demandas do feto em crescimento e é mediada por alterações hormonais, principalmente devido ao aumento de estrogênio e progesterona. Contudo, em mulheres com dislipidemia prévia, como hipercolesterolemia familiar (HF) ou hipertrigliceridemia primária, essa elevação pode ultrapassar os limites fisiológicos, aumentando o risco de eventos adversos.

Os perfis lipídicos anormais na gestação estão associados a complicações obstétricas relevantes, incluindo pré-eclâmpsia, diabetes gestacional, parto prematuro e pancreatite aguda. Além disso, o risco de eventos cardiovasculares maternos também se eleva. Por isso, o rastreamento em gestantes com antecedentes familiares de dislipidemia grave ou histórico pessoal de eventos cardiovasculares deve ser considerado desde o início do pré-natal.

Perfis lipídicos e desfechos específicos: o contexto brasileiro

Alguns estudos brasileiros revelam que o IMC pré-gestacional exerce influência significativa sobre o perfil lipídico da gestante. Mulheres com sobrepeso ou obesidade tendem a apresentar maiores concentrações de triglicerídeos e LDL-C, e níveis reduzidos de HDL-C. Além disso, padrões alimentares ricos em fast food e açúcares simples estão associados a piores desfechos metabólicos durante a gestação.

Essas alterações impactam diretamente o feto: níveis elevados de LDL-C e triglicerídeos e aumento mais lento do HDL-C foram relacionados ao nascimento de recém-nascidos grandes para a idade gestacional (LGA), o que pode predispor a distúrbios metabólicos na vida adulta. Curiosamente, há também correlação entre baixos níveis de HDL-C e aumento de sintomas depressivos em gestantes, sugerindo implicações psicossociais ainda pouco exploradas.

Atualizações no manejo terapêutico

O estudo reforça que o manejo da dislipidemia na gestação não sofreu mudanças expressivas nas últimas décadas. Em virtude da contraindicação formal da maioria dos hipolipemiantes, as estratégias não farmacológicas permanecem como o eixo central do tratamento. Isso inclui orientação nutricional individualizada, prática de atividade física segura, controle do ganho de peso e suporte psicológico.

O manejo pré-concepcional ganha destaque como momento oportuno para intervenção. Em mulheres com dislipidemia conhecida, esse período permite o uso de terapias atualmente contraindicadas na gestação, além de possibilitar ajustes metabólicos prévios à concepção. Ainda assim, há urgência na produção de evidências de alta qualidade para subsidiar diretrizes mais seguras e eficazes para esse grupo populacional.

Terapias farmacológicas: o que será permitido e o que será restrito na gestação

O uso de terapias farmacológicas para o manejo da dislipidemia na gestação continua limitado, em particular pela ausência de evidências robustas de segurança para a maioria dos agentes hipolipemiantes. 

Dessa forma, a indicação de medicamentos deve ser cuidadosamente avaliada, considerando o perfil de risco materno, os potenciais efeitos sobre o desenvolvimento fetal e a gravidade da dislipidemia. 

Em geral, o tratamento farmacológico é reservado a situações específicas, nas quais o risco cardiovascular materno ou as complicações metabólicas superam os riscos potenciais associados à exposição medicamentosa.

Alternativas de uso excepcional (sob estrito risco-benefício)

Dentre as poucas opções farmacológicas consideradas durante a gestação, os sequestrantes de ácidos biliares permanecem como a única classe com segurança estabelecida para uso materno, sendo amplamente aceitos na prática clínica.

Em situações clínicas específicas e de alto risco, ezetimiba e fenofibrato podem ser avaliados como alternativas de uso excepcional, desde que sob análise criteriosa de risco-benefício individualizado e com acompanhamento multiprofissional rigoroso. Mesmo assim, a escassez de evidências robustas sobre sua segurança em gestantes exige extrema cautela.

Os ácidos graxos ômega-3 também podem ser utilizados com moderação em determinados casos, embora faltem dados conclusivos sobre sua segurança durante a lactação, o que reforça a necessidade de vigilância clínica contínua.

Fármacos contraindicados ou de uso controverso

As estatinas seguem formalmente contraindicadas no decorrer da gestação, com base em dados de estudos pré-clínicos e observacionais que indicam risco potencial de malformações fetais. No entanto, revisões sistemáticas recentes e relatos de casos clínicos vêm discutindo novas perspectivas para pacientes com hipercolesterolemia familiar homozigótica grave (HFHo) ou com risco cardiovascular materno muito elevado.

Nesses casos excepcionais, a manutenção da terapia com estatinas pode ser considerada, sempre sob avaliação individual criteriosa, com apoio de comitês multidisciplinares e vigilância clínica intensiva. A decisão deve ponderar o risco de descontinuação da medicação, principalmente mulheres com história de eventos cardiovasculares prévios ou LDL-C persistentemente elevados, frente aos potenciais riscos teóricos ao feto.

Agentes mais recentes, como os inibidores de PCSK9, bempedoico, inclisiran, evinacumab e olezarsen, ainda não possuem dados de segurança em gestantes e, portanto, devem ser restritos ao uso pré-concepcional ou retomados apenas no pós-parto. A niacina continua não recomendada, dado seu baixo benefício cardiovascular e possíveis riscos materno-fetais.

Critérios de intervenção farmacológica e de emergência: indo além do estilo de vida

Embora as mudanças no estilo de vida sejam o pilar fundamental do tratamento das dislipidemias, existem cenários clínicos de alta complexidade, nos quais dieta e atividade física isoladas tornam-se insuficientes. 

Em situações de risco metabólico extremo ou predisposição genética severa, a intervenção médica deve ser imediata e agressiva para prevenir desfechos fatais. O manejo dessas condições exige um equilíbrio criterioso entre a segurança do paciente e a necessidade de terapias avançadas, muitas vezes exigindo suporte tecnológico hospitalar e uma abordagem interdisciplinar coordenada.

Hipertrigliceridemia grave

Quando os níveis de triglicerídeos ultrapassam 1.000 mg/dL, há risco elevado de pancreatite aguda e outras complicações graves. Nesses casos, pode ser necessário adotar estratégias mais intensivas, como jejum temporário, nutrição parenteral e, em situações críticas, aférese lipídica, sempre com suporte multiprofissional e em ambiente hospitalar com expertise.

Hipercolesterolemia familiar homozigótica

Essa condição representa alto risco cardiovascular para a mãe. Em casos selecionados, a continuação da terapia hipolipemiante pode ser indicada durante a gestação. 

A aférese lipídica surge como alternativa terapêutica segura, embora de acesso limitado. A avaliação deve envolver equipe multidisciplinar, incluindo cardiologia, obstetrícia, genética, endocrinologia e nutrição, sempre com foco no manejo pré-concepcional como forma de reduzir riscos na gestação.

Repercussões do perfil lipídico materno na saúde fetal

A dislipidemia materna influencia diretamente o crescimento e o desenvolvimento fetal. Além do risco de LGA, chamam atenção possíveis implicações na programação metabólica do feto, o que pode predispor à obesidade, dislipidemia e resistência insulínica na vida adulta. Do ponto de vista obstétrico, há maior incidência de síndrome hipertensiva gestacional, diabetes gestacional e parto prematuro.

Mesmo gestantes assintomáticas com alterações no perfil lipídico devem ser monitoradas rigorosamente. A vigilância clínica estruturada, com acompanhamento longitudinal, é essencial para prevenir complicações e garantir desfechos positivos.

Riscos da descontinuação abrupta de terapias hipolipemiantes

Interromper terapias hipolipemiantes sem avaliação adequada pode expor gestantes de alto risco a eventos cardiovasculares graves. Um exemplo clássico são pacientes com histórico de infarto agudo do miocárdio em uso crônico de estatinas. Nesses casos, a decisão deve ser compartilhada entre equipe médica e paciente, com definição de protocolos claros de continuidade terapêutica e monitoramento clínico constante. O planejamento terapêutico deve ser feito ainda no período pré-concepcional, evitando ajustes emergenciais durante a gestação.

Conclusão e perspectivas: a importância do manejo pré-concepcional

O manejo da dislipidemia na gestação exige uma abordagem baseada em individualização rigorosa do risco, estratégias não farmacológicas como pilar terapêutico e atuação multidisciplinar integrada. O período pré-concepcional se destaca como janela crítica de oportunidade para intervenção segura, especialmente em mulheres com HF ou hipertrigliceridemia grave.

Apesar dos avanços recentes, a literatura ainda carece de ensaios clínicos envolvendo gestantes, o que limita a robustez das recomendações atuais. A inclusão de mulheres grávidas em estudos prospectivos deve ser prioridade nas próximas décadas, bem como o desenvolvimento de fármacos especificamente desenhados para uso seguro nesse período tão sensível.

Para aprofundar seu conhecimento, sugerimos a leitura do conteúdo sobre o painel genético para a dislipidemia.

Referências:

Joanna Lewek, Agata Bielecka-Dąbrowa, Peter P Toth, Maciej Banach, Dyslipidaemia management in pregnant patients: a 2024 update, European Heart Journal Open, Volume 4, Issue 3, May 2024, oeae032, https://doi.org/10.1093/ehjopen/oeae032

Bittencourt MS. Estatinas na Gestação – Novas Recomendações do Food and Drug Administration. Arq. Bras. Cardiol. 2022;119(1):1-2.

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Rodrigues IC, Grandi C, Simões VMF, Batista RFL, Rodrigues LS, Cardoso VC. Metabolic profile during pregnancy in BRISA birth cohorts of Ribeirão Preto and São Luís, Brazil. Braz J Med Biol Res. 2020 Dec 7;54(1):e10253. doi: 10.1590/1414-431X202010253. PMID: 33295536; PMCID: PMC7727101.

Carreira NP, de Lima MC, Sartorelli DS, Crivellenti LC. Relationship between diet quality and biochemical profile in Brazilian overweight pregnant women. Nutrition. 2023 Sep;113:112056. doi: 10.1016/j.nut.2023.112056. Epub 2023 Apr 29. PMID: 37354652.

Svendsen K, Christensen JJ, Igland J, Krogh HW, Mundal LJ, Jacobs DR Jr, Bogsrud MP, Holven KB, Retterstøl K. Risk of adverse pregnancy outcomes and impact of statin use in pregnant women with familial hypercholesterolemia. Atherosclerosis. 2025 Sep;408:120442. doi: 10.1016/j.atherosclerosis.2025.120442. Epub 2025 Jul 10. PMID: 40669098.

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